A eliminação da seleção brasileira não pode ser tratada como um compromisso encerrado. Foi constrangedor o avião fretado da seleção retornar ao Brasil apenas com um jogador. Cada atleta pegar um voo para um destino diferente transmite a ideia de que não há consequências. Vestir a camisa da seleção significa também responder nos momentos difíceis. Ganhar aplausos faz parte da profissão, mas ouvir críticas e prestar contas ao torcedor também. A relação entre seleção e torcida precisa ser reconstruída com urgência.

Foto: Odd ANDERSEN/AFP
O torcedor precisa conhecer o projeto
Carlo Ancelotti precisa explicar mais do que a derrota. Seu fracasso foi estarrecedor, não se tratava de ganhar a Copa, mas o que vimos foi a mais constrangedora campanha realizada pela nossa seleção. O torcedor quer saber agora qual é o plano para a Copa de 2030, quais serão os critérios das convocações e que identidade essa seleção pretende ter. Depois de uma eliminação, o silêncio só aumenta a sensação de improviso. Em qualquer projeto sério, resultados ruins exigem explicações e correção de rumo. A seleção também deve funcionar assim.
A crise está na gestão do futebol brasileiro
A troca de técnicos ou jogadores não resolve um problema que é estrutural. A CBF precisa passar por uma reformulação profunda, com dirigentes comprometidos com o futebol e dispostos a prestar contas. O episódio em que Ronaldo Nazário sequer conseguiu apresentar seu projeto aos presidentes das federações mostrou como o sistema resiste a mudanças. Enquanto a estrutura permanecer a mesma, cada eliminação será tratada como surpresa, quando, na verdade, é consequência de um modelo que há anos deixou de evoluir.
Os erros que decidiram a eliminação
O 2 a 1 para a Noruega não explica sozinho a eliminação. O Brasil desperdiçou as melhores oportunidades da partida e pagou caro por isso. O pênalti perdido por Bruno Guimarães e a chance desperdiçada por Endrick mudaram o jogo. Do outro lado, Haaland mostrou o que grandes centroavantes fazem em Copa do Mundo: precisa de poucas oportunidades para decidir. Em jogos deste tamanho, eficiência costuma valer mais do que volume de jogo.
Uma seleção sem identidade
A derrota também expôs um problema coletivo. O Brasil passou a defender com linhas baixas, entregando a posse de bola ao adversário e marcando de forma passiva. Cercou, mas pressionou pouco. Essa mudança aconteceu sem tempo para ser assimilada. Depois de quatro técnicos em quatro anos, Ancelotti chegou às vésperas da Copa tentando implantar uma nova ideia em plena competição. Faltou continuidade, convicção e uma identidade clara.
O desafio começa agora
A eliminação precisa servir como ponto de partida para um novo ciclo. Ancelotti terá quatro anos para construir uma seleção com características definidas e compatíveis com o talento do futebol brasileiro. Mais do que impor um modelo europeu, será preciso potencializar as virtudes dos jogadores. Ao mesmo tempo, a CBF precisa oferecer estabilidade e planejamento. O Brasil chega a 28 anos sem conquistar uma Copa do Mundo e o maior jejum de sua história exige mudanças que vão muito além da troca de nomes.
A Copa dos artilheiros
Mesmo com a eliminação do Brasil, esta Copa ficará marcada pelo protagonismo de alguns dos maiores atacantes da atualidade. Messi voltou a decidir em alto nível, Mbappé confirmou sua capacidade de desequilibrar, Haaland foi decisivo para levar a Noruega adiante e Harry Kane mostrou mais uma vez sua eficiência. A disputa entre eles deu brilho ao Mundial e lembrou que grandes camisas 9 continuam fazendo a diferença nos momentos decisivos.