A permanência do Internacional na Série A teve rosto, voz e discurso emocionado. Na entrevista coletiva após a vitória que livrou o clube do rebaixamento, Abel Braga revelou não apenas alívio, mas também despedida. Ao confirmar que não seguirá como treinador em 2026, ele definiu a missão que assumiu na reta final da temporada. “Esse momento para mim foi muito mais importante do que o Mundial”, afirmou, logo na abertura da coletiva.

Foto: Ricardo Duarte/SC Internacional
Abel contou que não esperava voltar a dar entrevistas como técnico, já que havia encerrado a carreira no Fluminense, em 2022, após o título carioca. Disse que aceitou o convite por acreditar na instituição e por se sentir tocado pela dor do torcedor. “Essa carreira ficou encerrada em 2022. Mas essa volta teve muitas vertentes. Eu vi a dor que os colorados estavam sentindo. Acreditei no staff, no grupo, e tomei a decisão de ajudar.”
Ao recordar sua história no Inter, afirmou que voltou motivado também por um sentimento de dívida. “Em 2016 eu fiquei em dívida por não ter vindo ajudar. O que eu poderia ter feito lá atrás, eu fiz agora. Estou orgulhoso de mim.”
Mobilização e mudanças em campo
Maior técnico da história do Internacional, Abel Braga revelou que manteve boa parte da estrutura deixada por Ramón Díaz e destacou o envolvimento da família do técnico argentino. “Quero que fique claro que esse momento tem muito a ver com a família Díaz. Botei do meu jeito, mas era praticamente o time que vinha jogando com ele.”
Também assumiu erros na derrota para o São Paulo, quando tentou mudar o esquema de jogo. “Minha estratégia foi errada. Treinei um plano A, espelhando com três zagueiros. Não deu certo, mudamos para o plano B e levamos outro gol cedo. Aquilo derruba a confiança.”
Para a partida decisiva contra o Bragantino, explicou que optou por ajustes simples, com reforço no meio-campo e mudança de funções. “Trouxe o Alan Patrick mais para trás e pedi que o ala flutuasse. Assim, sempre tínhamos um homem a mais no meio. Acho que esse jogo esvaziou tudo aquilo que estava negativo na cabeça do colorado.”
Ambiente e bastidores
O ainda treinador fez questão de afastar qualquer ideia de crise interna e elogiou a postura do elenco. “Não tem vestiário ruim, não tem ambiente ruim. O que tinha era uma situação pesada, a confiança estava longe. Muita coisa que foi dita é totalmente mentira. As condições de trabalho aqui são muito boas.”
Disse ainda que chegou a se emocionar com a entrega dos jogadores. “Nada, nem no título do Mundial, eu vi tanta lágrima no rosto de jogadores. Isso mostra que o ambiente era bom, que todo mundo queria.”
“Como treinador, acabou”
Um dos pontos de maior insistência dos repórteres a Abel é sobre seu futuro, se poderia seguir como o comandante colorado ou assumir algum outro cargo na diretoria do clube. Contudo, Abel foi firme na resposta. “Claro que vai ter conversa. Mas como treinador, acabou. Foi fantástico viver isso de novo, mas para mim deu”, definiu. “Tomei dois calmantes antes do jogo. Eu acreditava, confiava, mas precisava me prevenir. Ia sentir a mesma dor que o torcedor se não desse certo”, acrescentou.
Aliviado e vestindo camisa branca, Abel ainda brincou ao final da coletiva dizendo que ama roupa azul, mas que aqui não pode. Escolheu a camisa branca pois era essa a cor que vestia no sorteio do Mundial em 2006 — maior conquista da história do Inter. Para comemorar, disse ainda que não vai economizar. “Hoje eu vou tomar um vinho caro. Não recuso um churrasco gaúcho. Eu não sou pão-duro, não. Hoje eu vou gastar.”

Foto: Ricardo Duarte/SC Internacional
Despedida em tom de gratidão
Abel encerrou a entrevista agradecendo ao clube e aos profissionais com quem voltou a trabalhar, como D’Alessandro e o presidente Alessandro Barcellos, rebatendo rumores de desavenças. “Nunca tive problema com o presidente. Nunca teve birra. Ele já tinha me chamado antes e eu não pude, porque ia ser avô. Trabalhar de novo com essas pessoas não tem preço.”
Por fim, reiterou que sua passagem foi definitiva. “Posso ser roupeiro, o que for, mas como treinador, chega. Essa foi a minha despedida.”