O El Niño começou e será mais forte do que o episódio de 2023-2024, com possibilidade de se tornar um dos mais intensos da história moderna. É isso que aponta a análise da MetSul Meteorologia, que indica ainda que, apesar de não ter sido declarado pela Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA), dos Estados Unidos, o Pacífico já possui características de um evento de fase quente.
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Foto: ESA/MetSul
Para o meteorologista Luiz Nachtigall, o esperado anúncio por parte da agência de clima norte-americana deverá ocorrer nos próximos dias em função da velocidade com que o Pacífico aquece e da intensidade do aquecimento, assim como pelas mudanças que já são observadas na atmosfera, típicas do fenômeno.
O especialista explica que, em nível oceânico, as águas do Oceano Pacífico Equatorial apresentam comportamento de El Niño há várias semanas. “Nos últimos dias, as anomalias de temperatura do mar [desvios em relação à média] aumentaram significativamente à medida que águas muito quentes que avançaram do Pacífico Oeste até o litoral da América do Sul começaram a emergir na superfície.”
Quarta semana em aquecimento
Na região designada para informar se há El Niño ou La Niña, no Pacífico Equatorial Centro-Leste, a última anomalia de temperatura da superfície do mar informada pela NOAA foi de +0,5ºC pelo Índice Relativo Niño — valor mínimo de patamar de El Niño.
Esta será a quarta semana seguida em que o Pacífico apresenta anomalias condizentes com o novo índice relativo chamado de Roni. Pelo critério tradicional e usado pela agência norte-americana, denominado Índice Niño Oceânico (Oni), a última anomalia de temperatura da superfície do mar informada pela NOAA foi +1,0 ºC — sendo esta a oitava semana seguida em patamar de El Niño.
“Conforme dados brutos que são atualizados diariamente, ao contrário dos boletins de situação da NOAA que são semanais, as anomalias estão muito acima do patamar mínimo de El Niño”, salienta Nachtigall.
Temperatura muito alta na superfície
Dados das estações costeiras do Peru mostram aquecimento extraordinário do Pacífico junto ao litoral. Em Paita, no Norte do Peru, a temperatura da superfície do mar alcançou 26°C, com anomalia de 7,9°C acima da média. Em Lobos de Afuera, a anomalia chegou a 5,2°C. Mais ao Sul, as águas também seguem muito mais quentes que o normal, com desvios de 2,6°C em Callao, 2,7°C em San Juan e 1,5°C em Ilo.
O país e o Equador devem ser os principais a sentirem os efeitos do El Niño Costeiro, que se diferencia do clássico por ter efeitos imediatos e causar impactos locais, na costa da América do Sul.
Efeitos também são evidentes na atmosfera
O principal indicador que evidencia o acoplamento com as condições oceânicas é o chamado SOI – Southern Oscillation Index ou Índice Oscilação Sul – que reflete as diferenças de pressão atmosférica entre o Pacífico Ocidental, próximo à Austrália, e o Pacífico Oriental.
Nachtigall esclarece que, quando esse índice apresenta valores persistentemente negativos, indica enfraquecimento dos ventos alísios e uma atmosfera acoplada ao aquecimento das águas do Pacífico Equatorial, condição típica de episódios de El Niño. “Quanto mais negativos e persistentes forem os valores do índice, maior tende a ser a evidência de que o fenômeno está se consolidando, embora a intensidade final do El Niño dependa também da magnitude do aquecimento oceânico e de outros fatores atmosféricos.”
Quando o SOI fica abaixo de -7 por várias semanas ou meses, considera-se que a atmosfera está apresentando um padrão consistente com o fenômeno. Valores entre -7 e -14 costumam estar associados a eventos moderados de El Niño, enquanto leituras abaixo de -15 indicam um forte acoplamento entre oceano e atmosfera, característica comum de episódios intensos.
Conforme dados das autoridades australianas, nos últimos dias a SOI chegou a ter valores diários de até -35, mas o meteorologista aponta para a relevância das médias mensais e trimestrais, “uma vez que as oscilações diárias do índice podem ser enormes”. “A média dos últimos 30 dias hoje está em -18, absolutamente consistente com um El Niño em rápida intensificação. Já a média dos últimos 90 dias está em -9.”
“Assim, tanto por critérios oceânicos como atmosféricos, os indicadores são totalmente consistentes nesta primeira semana de junho com a instalação de um episódio de El Niño no Oceano Pacífico Equatorial”, esclarece.
Pode atingir marca de Super El Niño e se tornar um dos mais intensos da história
Natchtigall afirma que o El Niño que começa será “de forte intensidade e há uma muito alta probabilidade de que atinja intensidade muito forte, configurando um evento de Super El Niño no decorrer do segundo semestre deste ano”.
“Se as projeções dos modelos numéricos vierem a se confirmar, este El Niño de 2026-2027 poderá ser um dos mais intensos dos tempos modernos, rivalizando ou superando em intensidade os eventos de 1982-1983 e 1997-1998 que foram episódios de Super El Niño poderosos”, salienta.
Entre março e junho, o meteorologista explica que os modelos de clima apresentam menor confiabilidade quanto aos prognósticos para o Pacífico, a chamada barreira de previsibilidade do outono, mas os dados têm apresentado uma consistência em indicar um evento de El Niño de enorme intensidade a extremo.
“Mais do que isso, os primeiros dados de modelos agora de junho, já no final da chamada barreira de previsibilidade, aumentaram ainda mais a intensidade do El Niño na comparação com o que indicavam no começo do outono, caso do modelo climático do Centro Meteorológico Europeu (ECMWF)”.
Segundo ele, as atualizações dos demais modelos que serão divulgadas nos próximos dias tendem a seguir a tendência já indicada pelo ECMWF de um El Niño ainda mais intenso.
Novo episódio de evento que favorece intensidade do El Niño
Nachtigall pontua que a principal razão para que se confirme um El Niño forte é um novo episódio de Estouro de Vento de Oeste (Westerly Wind Vurst, em inglês) sobre o Pacífico Equatorial.
Esse fenômeno favorece o deslocamento de grandes volumes de água mais quente para Leste. “Tal processo vai reforçar o aquecimento da superfície do oceano nas regiões centrais e orientais do Pacífico, aumentando a probabilidade de que as projeções passem a indicar um evento mais forte e potencialmente mais duradouro nos próximos meses, com pico no último trimestre do ano.”