Todo um capítulo na literatura latino-americana acaba de fechar. Este ano, com a despedida do escritor peruano Mario Vargas Llosa, que morreu aos 89 anos, termina um ciclo continental. Ele era o último representante ainda vivo da geração do chamado “boom” literário latino-americano, que ganhou projeção mundial entre os anos 1960 e 1970.

Foto: Escritores latinos
No período conturbado do pós-guerra, em meio à Guerra Fria e tensões entre os blocos socioeconômicos liderados por EUA e a extinta URSS, a América Latina estava no meio de conflitos e contradições. Países que ainda tentavam superar a herança complicada da exploração colonial viraram palco de confrontos ideológicos, revoluções ou golpes militares sangrentos. Na literatura, esse cenário foi traduzido por uma geração de autores que trazia inovações estilísticas ao mesmo tempo que apresentava temáticas políticas e sociais com uma visão única.
Vertentes
Foi a época, por exemplo, do realismo fantástico e do realismo mágico, uma literatura com fortes elementos de fantasia que abordava metaforicamente, de forma simbólica, os problemas do continente. Alguns autores também tinham um pé no jornalismo e analisavam a fundo a alma latina e sua relação histórica com a exploração, a guerra e a morte.
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Llosa foi o último representante, mas outros tão ou mais marcantes para a geração foram Gabriel García Márquez, Julio Cortázar e Carlos Fuentes, só para ficar nos principais. Jorge Luis Borges é outra influência, embora um pouco anterior.
Mario Vargas Llosa, Peru (1936 – 2025)
O escritor peruano ganhou o Nobel de Literatura em 2010. Além de romancista, também foi ensaísta e jornalista, além de atuar na política. Suas obras são famosas pela análise de como as pressões sociais e o autoritarismo condicionam e sujeitam os indivíduos. Diferente de outros autores da sua geração, não estava ligado ao realismo mágico. Entre seus livros estão Conversa no Catedral, Pantaleão e as Visitadoras e A Guerra do Fim do Mundo.
Gabriel García Márquez, Colômbia (1927 – 2014)
Gabo, apelido do escritor e jornalista colombiano, é um dos expoentes do realismo mágico, vertente que mescla elementos de fantasia ou folclore aceitos como naturais pelos personagens. Seu livro mais famoso é Cem Anos de Solidão, que acompanha gerações de uma família às voltas com autoritarismo e abusos na imaginária Macondo. Outros livros incluem O Amor nos Tempos do Cólera e Ninguém Escreve ao Coronel. Nobel em 1982.
Jorge Luis Borges, Argentina (1899 – 1986)
Anterior ao boom propriamente dito, Borges ganhou renome mundial. Foi um dos expoentes do realismo fantástico, no qual os personagens entravam em conflito com a realidade fantástica. Também era poeta e ensaísta, famoso pela erudição e humor sofisticado, assim como pela aproximação à cultura anglo-saxônica. Ficou cego aos 55 anos. Em prosa, era mais contista. É o autor de Ficções, O Livro de Areia e O Aleph.
Júlio Cortázar, Argentina (1914 – 1984)
Intelectualizado, o argentino também é um dos nomes do realismo fantástico. A temática social era uma de suas preocupações e levou-o ao exílio, em protesto ao regime militar. Morreu na França. Foi cronista, contista e romancista, introduzindo várias inovações de estilo. A narração não linear foi uma delas. Entre suas obras, destacam-se O Jogo da Amarelinha, Todos os Fogos o Fogo e Casa Tomada.
Carlos Fuentes, México (1928 – 2012)
Diplomata, romancista e ensaísta, Carlos Fuentes escreveu obras próximas do realismo mágico e também romances históricos e políticos, com posições fortes. Foi simpatizante de Fidel Castro, mas também crítico a excessos do regime cubano. Era um fã confesso do brasileiro Machado de Assis, que considerava o sucessor do espanhol Cervantes. Fuentes é o autor do romance mágico Aura e de A Morte de Artemio Cruz.
Outros nomes importantes e a contribuição dos autores brasileiros
Outros autores importantes fizeram parte da geração do boom latino-americano ou tiveram forte influência. É o caso do chileno José Donoso (1924-1996), autor de O Obsceno Pássaro da Noite, romance mágico que mesclava elementos folclóricos aos temas filosóficos e sociais. O mexicano Juan Rulfo (1917-1986) é o autor de um romance influente, Pedro Páramo, que assim como Cem Anos de Solidão mescla uma atmosfera mágica com discussões sociais e políticas da história do continente.
O uruguaio Juan Carlos Onetti (1909-1994) é outro autor, e até com ligações com o RS. Transitava pelo realismo mágico, tendo sido amigo de Júlio Cortázar e admirador de García Márquez. Outro nobel ligado ao realismo mágico é o Miguel Ángel Asturias (1904-1980), da Guatemala, autor de Homens de Milho, que incorporava elementos folclóricos e mágicos a uma trama ligada aos problemas continentais. O cubano Alejo Carpentier (1904-1980) também era jornalista e, igualmente, transitava pelos gêneros mágico e fantástico, dos quais foi precursor.
O Brasil não fez parte propriamente do boom da literatura latino-americana, em parte porque alguns autores brasileiros eram, como Borges, anteriores e influenciaram o movimento. É o caso de João Guimarães Rosa (1908-1967) com suas grandes inovações estilísticas. Até o gaúcho Erico Verissimo (1905-1975) se aproximou do fantástico em seu Incidente em Antares. Os brasileiros José Cândido de Carvalho, de O Coronel e o Lobisomem, e José J. Veiga, de Sombras de Reis Barbudos, brincaram com o mágico.
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