A Crimeia voltou a entrar na pauta das negociações sobre a guerra da Rússia na Ucrânia, que envolvem os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, da Ucrânia, Volodmir Zelenski, e dos EUA, Donald Trump.
SIGA O ABCMAIS NO GOOGLE NOTÍCIAS

Foto: The White House
Trump se reuniu com Putin na última sexta-feira, 15, em Anchorage, no Alasca, de onde saiu repetindo reivindicações russas para o fim da guerra, inclusive defendendo a entrega de territórios pela Ucrânia a Moscou.
No domingo, 17, o presidente americano publicou na rede Truth Social que Zelenski poderia “encerrar a guerra com a Rússia quase imediatamente” se desejasse segundo ele, para isso, a Ucrânia teria que abrir mão da Crimeia e “não poderia se juntar à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan)”. A declaração ocorreu um dia antes de Trump receber Zelenski e uma delegação de líderes europeus na Casa Branca nesta segunda-feira, 18.
Entenda a seguir qual é a importância da Crimeia em meio às negociações sobre a guerra na Ucrânia.
O que é a Crimeia?
A Crimeia é uma península localizada às margens do Mar Negro, ligada ao sul da Ucrânia. A região foi ilegalmente anexada pela Rússia em março de 2014, em um processo condenado pela comunidade internacional.
A península tem belas praias, mas o interesse dos russos na região se dá, principalmente, pelo seu valor estratégico, com acesso direto ao Mar Negro, rota naval chave para transporte de bens e poder militar, essencial tanto para a segurança quanto para escoamento de grãos – a Ucrânia era conhecida como o “celeiro do mundo” antes da guerra. Outro fator é a base de Sevastopol, grande instalação naval na Crimeia usada pela marinha da Rússia.
O território abriga os tártaros da Crimeia, uma minoria autóctone que habita o local desde pelo menos o século 15 e já foi expulsa várias vezes. Eles são os moradores originários da península desde pelo menos os anos 1441 e, para eles, a ocupação russa é uma história que se repete.
CLIQUE AQUI E INSCREVA-SE NA NOSSA NEWSLETTER
Antes da primeira onda de expulsão sob Catarina, a Grande, a czarina russa de origem alemã que governou entre 1762 e 1796, os tártaros representavam cerca de 95% da população da Crimeia. Hoje esse percentual é de 15%. A língua dos tártaros da Crimeia é um idioma classificado como altamente ameaçado de desaparecer pela Unesco.
A Crimeia foi anexada pelos russos em 2014 em meio a protestos conhecidos como a Revolução Maidan, desencadeados pela recusa do então presidente ucraniano pró-Moscou Viktor Yanukovich de assinar um acordo de associação do país à União Europeia.
Militares russos tomaram o Parlamento e, algumas semanas depois, a Rússia promoveu um referendo que anexou a província à Federação Russa. A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) considerou que a ação era ilegal e que o território pertencia a Ucrânia.
Durante o seu período de anexação da Crimeia, a Rússia construiu a Ponte do Estreito de Kerch, que pela primeira vez conectou a península ao território russo diretamente. A ponte foi vital para promover a invasão em larga escala da Ucrânia depois de fevereiro de 2022, fornecendo caminho rápido e fácil de abastecimento de suas tropas na Ucrânia.
Conflito histórico
A disputa pela Crimeia é tanto estratégica quanto histórica e hoje está conectada com a visão que Vladimir Putin tem de Rus, o primeiro Estado eslavo do mundo, formado no século 9 d.C e cujo centro de poder era Kiev, hoje capital da Ucrânia.
A Crimeia foi anexada pelo Império Russo em 1783, por Catarina, a Grande, que tomou a região do Império Otomano. Após a Revolução Russa em 1917, passou a fazer parte da República Socialista Federativa Soviética da Rússia, dentro da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Em 1954, a gestão do território foi transferida para a República Socialista Soviética da Ucrânia, ainda na União Soviética.
Com o colapso da URSS em 1991, a península foi mantida como parte da Ucrânia, como uma república autônoma dentro do país, algo que Putin considera ter sido um erro.
A Rússia só retomou a área em 2014, ano em que a Ucrânia passava por instabilidades que culminaram na queda do presidente ucraniano Viktor Yanukovych.
ENTRE NO NOSSO CANAL NO WHATSAPP
Guerra Rússia x Ucrânia
A maior parte do mundo considera que a guerra na Ucrânia começou no dia 24 de fevereiro de 2022, com a invasão promovida pela Rússia. Mas os ucranianos consideram essa data como o início da invasão em larga escala, já que, desde 2014, a Rússia já tinha anexado a península da Crimeia e travava um conflito de baixa intensidade no leste do país.
Segundo a população tártara, inúmeros relatórios de organizações internacionais apontam crimes de guerra no local e um método de “russificação” do território e de sua população.
Recentemente, a Crimeia se tornou um dos pontos em discussão para um possível acordo de paz entre Rússia e Ucrânia mediado pelos Estados Unidos.
Em abril, Donald Trump falou pela primeira vez que “a Crimeia ficará com a Rússia”, surpreendendo a comunidade internacional, já que o próprio presidente americano havia emitido em seu primeiro mandato uma “Declaração da Crimeia”, na qual prometia manter a política de não reconhecimento “até que a integridade territorial da Ucrânia fosse restaurada”.
Nos últimos dias, com a reunião entre Trump e Putin no Alasca e a visita nesta semana de Zelenski à Casa Branca, foi confirmado que o presidente russo colocou como condição para o fim da guerra que a Ucrânia ceda os territórios já ocupados por suas tropas no sul e no leste do país, o que inclui a Crimeia.
Após se encontrar com Trump na Casa Branca, Zelenski afirmou nesta segunda-feira que concessões territoriais na Ucrânia, talvez a questão mais sensível nas negociações, devem ser resolvidas em uma reunião presencial com o presidente russo Vladimir Putin. A ideia de uma reunião entre os dois, com intermediação dos Estados Unidos, foi sugerida por Trump.