Desde 2005, a bióloga hamburguense Emanuele Kuhn tem como rotina passar por períodos em um dos locais mais inóspitos do planeta: a Antártica. O continente congelado, localizado no extremo sul da Terra, se transformou em sua segunda casa ao longo das décadas, e recentemente ela integrou a expedição de estudiosos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).
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Foto: Anderson Astor/Arquivo Pessoal
Os resultados da última incursão são um alerta para os cuidados mais do que urgentes em relação ao aquecimento global. “A gente sabe que essas mudanças do planeta estão acontecendo visivelmente, pelo menos há 40 anos já se fala isso, só que agora chegamos em um ponto em que o leite já derramou, passou por cima no fogão, e estamos tentando se limpar do leite derramado, só que não se desliga o fogo”, aponta a pesquisadora.
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Com a experiência de quem já prepara as malas para voltar à região mais gelada do mundo, Emanuele aponta que os impactos ambientais na região são visíveis a olho nu, mesmo no caso de quem não é especialista ou estudioso como ela. “Realmente a parte de derretimento de geleiras tá muito intensa, não são as geleiras em questão principalmente, são as frentes de geleiras. Essas frentes de geleira se desprendem, e isso acontece tanto pelo o calor da atmosfera, mas também pelo calor oceânico”, alerta.
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Prejuízos à fauna
Quem olha à distância a montanha de gelo que forma a Antártica pode vir a acreditar ser aquele um ambiente inóspito e sem vida. Porém, o que pesquisadores como a microbiologista hamburguense observam são os riscos para a vida na região, desde o princípio da cadeia alimentar.

Foto: Emanuele Kuhn/Arquivo Pessoal
“Em termos de biologia, me preocupa o desequilíbrio da teia alimentar, principalmente do krill, um camarãozinho que necessita das algas que crescem no gelo marinho durante o verão para ele se desenvolver. E todos os animais da Antártica se alimentam do krill. Baleias saem das regiões tropicais só para se alimentar desse camarãozinho”, exemplifica ela, apontando a complexidade das relações alimentares no meio ambiente.
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A falta de gelo também tem afetado diretamente populações de animais, como os pinguins imperiais. “Os pinguins são adaptados para frio, mas os filhotes não são à prova para água, e o que está acontecendo mais e mais no verão são as chuvas, e com isso os filhotes molham, as temperaturas ainda baixas levam ao estresse e podem levar à hipotermia e morte”, alerta.
Junto com a hipotermia, os animais também sofrem com a perda de seu ambiente natural, ficando à deriva antes mesmo de estarem totalmente preparados para a vida na natureza. “A colônia de [pinguins] imperadores, que se desenvolvem em cima do gelo marinho já perdeu uma plataforma enorme de gelo que derreteu, e os pinguins ainda não estavam prontos para nadar”, explica.

Foto: Emanuele Kuhn/Arquivo Pessoal
Microplásticos e queimadas
Durante a expedição, os pesquisadores da Ufrgs ainda se depararam com os impactos das ações humanas longe do continente gelado, mas que impactam diretamente na região. A presença de microplásticos foi um dos pontos que chamou a atenção nas amostras.
“Grande parte do que chega na Antártica se dá pelas correntes e pelo vento sobre o oceano. Nessa expedição, buscamos coletar amostras em locais mais remotos e, agora, vamos analisar o material para entender como o microplástico tem evoluído nos últimos anos”, relata o pesquisador Filipe Lindau ao falar sobre a concentração de microplásticos.
Além disso, as queimadas que se sucederam em diversos pontos também têm influenciado, de forma negativa, o ambiente polar. “Ao analisar essa pequena escala diluída na neve, conseguiremos ver até que ponto as queimadas se tornam um evento de relevância global e os seus impactos”, conta Lindau.
Emanuele chama a atenção para a velocidade com que a humanidade conseguiu criar problemas ambientais sérios. “O plástico foi inventado há menos de 200 anos e, agora, está o planeta inteiro contaminado por plástico”, resume.

Foto: Divulgação
Ainda há tempo para reverter as mudanças
Uma das críticas dos pesquisadores ao retornarem ao Rio Grande do Sul foi quanto à construção do Porto de Arroio do Sal, considerado por eles como uma obra desnecessária e de forte impacto ambiental.
“Todas as praias ao sul serão afetadas, vai mudar as correntes nas costas, fica o questionamento de porque não investir em projetos mais sustentáveis, como investimentos em ferrovias ou na recuperação do Porto de Porto Alegre”, questiona Simões.
Mesmo com um cenário preocupante, os pesquisadores apontam que ainda é possível reverter, ou paralisar em parte, as mudanças climáticas que têm impactado todo o planeta. Contudo, como bem lembra Emanuele, o trabalho que iniciar agora só terá resultados em algumas décadas, o que torna ainda mais urgente as ações individuais e governamentais.
“Se a gente for para a direção correta vamos levar três a cinco gerações para se ver resultado”, resume a pesquisadora, que volta para Antártica ainda neste mês. Lá ela cumpre uma outra atividade que é a visita turística, uma forma de ajudar a conscientizar mais pessoas sobre os impactos do aquecimento global.

Foto: Emanuele Kuhn/Arquivo Pessoal