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"finalidade unitiva"

Sexo além da reprodução: Vaticano reconhece valor afetivo do ato em documento aprovado pelo papa

Leão XIV enfatiza "finalidade unitiva da sexualidade" e mantém defesa da união monogâmica entre homem e mulher

Publicado em: 04/12/2025 às 16h:47 Última atualização: 04/12/2025 às 16h:48
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O Vaticano divulgou um documento que reconhece a importância do sexo no casamento para além da função reprodutiva. A nota doutrinal, assinada pelo Dicastério para a Doutrina da Fé, foi publicada no final de novembro de 2025 com aprovação do papa Leão XIV, destacando a “finalidade unitiva da sexualidade” dentro do matrimônio católico.

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Papa Leão XIV vai morar no Palácio Apostólico | abc+



Papa Leão XIV vai morar no Palácio Apostólico

Foto: VaticanNews/Reprodução

O texto reafirma que as relações sexuais “não se limitam a assegurar a procriação, mas contribuem para enriquecer e fortalecer a união única e exclusiva e o sentimento de pertencimento mútuo”.

Segundo informações do g1, embora mantenha a defesa católica da união monogâmica entre homem e mulher, o documento apresenta uma visão mais abrangente sobre a vida sexual conjugal.

Novas tendências

A Igreja elaborou esta orientação em resposta a tendências observadas “nas últimas décadas”, especialmente no “contexto do individualismo consumista pós-moderno”. O documento aponta problemas tanto pela “busca excessiva e descontrolada pelo sexo ou da simples negação da finalidade procriativa da sexualidade” quanto pela “negação explícita da finalidade unitiva da sexualidade e do próprio casamento”.

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Para a instituição católica, a “visão integral da caridade conjugal” apresentada “não nega a sua fecundidade”. O texto explica que, embora a união sexual deva “naturalmente permanecer aberta à comunicação da vida”, não é necessário que seja o “objetivo explícito de cada ato sexual”.

Três situações

O documento apresenta três situações em que a sexualidade pode ser vivida sem o objetivo direto de procriação: casais que não podem ter filhos; momentos em “que um casal não procure conscientemente um determinado ato sexual como meio de procriação”; e o respeito aos “períodos naturais de infertilidade”.

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“Embora não se trate de uma novidade, de fato há uma evolução no pensar da Igreja enquanto instituição em relação ao sexo, para além dessa dimensão da reprodução”, observa à BBC News Brasil o teólogo Raylson Araujo, pesquisador na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

O que dizem os especialistas

A linguista Ana Bezerra Felicio, integrante da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência, destaca que o livro bíblico Cântico dos Cânticos representa uma exceção importante na Bíblia quanto à visão positiva da sexualidade. Ela lembra que em manuais antigos, como os que orientavam padres confessores nos século 16 e 17, havia muitas recomendações para a abstenção das práticas sexuais, mesmo dentro do matrimônio.

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“Do século 20 para cá, sobretudo depois do Concílio Vaticano 2º [que ocorreu entre os anos de 1962 e 1965], essa ideia passou a ser revisitada. O atual texto do Catecismo da Igreja Católica, por exemplo, publicado em 1992, já aborda também o chamado “caráter unitivo” das relações sexuais dentro do matrimônio”, destaca à BBC News Brasil o sociólogo da religião Francisco Borba Ribeiro Neto, ex-coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

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Ele lembra que no magistério do papa João Paulo 2º (1920-2005) esta postura era recorrente. “O documento atual apenas recorda algo que deveria ser sabido e reconhecido por todos que se interessam pela doutrina católica”, pontua.

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“Na relação sexual, a Igreja não é contra o prazer, mas sim contra o prazer sem amor. Pois o sexo, na sua plenitude, é uma celebração do amor”, observa. “Não há nada contra os católicos praticarem sexo por prazer. O problema é praticarem sexo sem amor.”

O Catecismo aborda a questão nos parágrafos 2360, 2361 e 2362. “A sexualidade está ordenada para o amor conjugal do homem e da mulher”, diz um deles.

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“Os atos pelos quais os esposos se unem íntima e castamente são honestos e dignos”, pontua o conjunto de regras. “Manifestados de maneira verdadeiramente humana, significam e favorecem a doação recíproca.”

Em sua abordagem, o texto cita fontes que vão além dos círculos católicos tradicionais, incluindo versos do poeta chileno Pablo Neruda, escritos do poeta italiano Eugenio Montale e reflexões sobre ética matrimonial do filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard.

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O cardeal Victor Manuel Fernández, atual prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, foi o responsável pela elaboração da nota. Além de conterrâneo, Fernández era amigo próximo do papa Francisco (1936-2025) e foi ghost writer de diversos documentos assinados por ele.

Quando ele foi nomeado prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, o mais antigo dos 16 organismos que funcionam nas esferas de poder do Vaticano, setores mais conservadores da Igreja criticaram a decisão de Francisco. Curiosamente, entre 2009 e 2011, sob o pontificado de Bento 16 (1927-2022), Fernández foi inquirido pelo mesmo órgão que hoje ele chefia.

O historiador e teólogo Gerson Leite de Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, destaca que o mais importante sobre a nota é que a Igreja “não foge da discussão”, abordando a sexualidade sob uma perspectiva contemporânea.

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