Os presidentes Donald Trump, dos Estados Unidos, e Vladimir Putin, da Rússia, realizam encontro histórico nesta sexta-feira (15) no Alasca para discutir o conflito na Ucrânia.
Esta é a primeira reunião entre os líderes das duas potências em seis anos e marca o retorno de Putin a território americano após uma década. A cúpula ocorre sem a participação direta do governo ucraniano e sem agenda claramente definida.

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O encontro acontece em um momento de estagnação no campo de batalha ucraniano. Conforme dados do Instituto para o Estudo da Guerra, sediado nos Estados Unidos, a Rússia controla atualmente 19% do território ucraniano, incluindo a Crimeia, anexada em 2014.
No auge da invasão, esse percentual chegou a 30%, segundo reportagem do Estadão que acompanha os desdobramentos do conflito.
Segundo fontes do governo americano, a reunião servirá principalmente para “ouvir Putin”, mais do que para estabelecer acordos concretos.
Para o presidente russo, apenas aparecer ao lado de Trump já representa uma conquista diplomática após seu isolamento internacional desde a invasão à Ucrânia em 2022.
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A cúpula foi motivada por diversos fatores, incluindo a promessa de campanha de Trump de encerrar o conflito em 24 horas após assumir a presidência. O republicano também afirmou que, se estivesse no poder em fevereiro de 2022, a invasão russa jamais teria acontecido.
Na véspera do encontro, o Kremlin indicou interesse em discutir outros temas além da guerra, como relações econômicas e armamentos nucleares. Trump também ameaçou Moscou com sanções severas secundárias caso as negociações fracassem.
A reunião ocorre após Trump ter conversado por videoconferência com o presidente ucraniano Volodimir Zelenski na quarta-feira (13), quando este estava na Alemanha ao lado do chanceler Friedrich Merz.
Anteriormente, Trump tentou intermediar pelo menos duas conversações de paz entre Rússia e Ucrânia, sem sucesso.
O domínio russo na Ucrânia abrange toda a região de Luhansk, aproximadamente três quartos das regiões de Donetsk, Kherson e Zaporizhzhia, além de pequenas áreas nas regiões de Kharkiv e Sumy, no norte do país.
Um dos principais obstáculos para qualquer acordo são as demandas territoriais conflitantes entre Putin e Zelenski, consideradas inegociáveis por ambas as partes.
O que dizem os analistas
“A perda de território já aconteceu ‘de facto’, mas não ‘de jure’ (legalmente). Os ucranianos não aceitam isso”, explica Angelo Segrillo, professor no Departamento de História da USP especializado na história da Rússia e União Soviética.
“E a maioria dos países ocidentais também não aceita. É uma situação muito difícil e contraditória em todos os campos, tanto no lado do Zelenski, quanto pelo lado do Trump e menos pelo lado de Putin.”
O cientista político alemão Stefan Wolff observa que “o problema com Trump é que você nunca sabe ao certo o que ele vai fazer”.
Carlos Gustavo Poggio, internacionalista, avalia que o encontro tem “muito de teatro político e pouco de substância em termos de negociação”, ressaltando: “É muito claro o que Putin quer com a guerra. Este é um encontro em que você não está incluindo a Ucrânia e outros parceiros”.
Oleksandr Slivchuk, analista político ucraniano, enfatiza: “A Ucrânia não concordaria em ceder território. Nada, nem um metro quadrado. Nem mesmo a Crimeia. Não porque não queiramos a paz, mas porque as pessoas entendem que isso não faz sentido. É como abrir mão de algo que não tem valor para o adversário. Porque a essência e as razões desta guerra nunca foram questões territoriais.”
Tema complexo
Em maio, após um ataque russo contra Kiev, Trump expressou frustração com Putin em sua rede social: “Ele ficou completamente LOUCO! Ele está matando muita gente desnecessariamente, e não estou falando só de soldados.”
Angelo Segrillo observa: “É meio um jogo de xadrez que vem sendo jogado há bastante tempo. Talvez um dos fatores principais nesse momento para Putin se sentar à mesa de negociação foi a ameaça de Trump de aumentar as sanções, inclusive as sanções secundárias. Isso aí pesou um pouco.”
Poggio acrescenta: “O entendimento de Putin da guerra na Ucrânia é de muito mais longo prazo, muito mais complexo. Trump pensa no curto prazo, ele quer ganhar o prêmio Nobel da Paz, quer uma solução imediata, ainda que as questões estruturais de longo prazo do conflito não sejam resolvidas. São duas perspectivas muito diferentes.”
Barulho midiático
Sobre a situação no campo de batalha, Poggio analisa: “A realidade no campo de batalha é o que força os atores a negociar de um lado ou de outro. Se o Putin perceber ou estiver percebendo algum tipo de desgaste nas forças russas, ele vai querer garantir o máximo possível de ganho no curto prazo para que ele possa, com o tempo, reforçar o Exército russo, angariar novamente as suas forças e partir para um ataque num outro momento futuro.”
Desde a Alemanha, Slivchuk contesta a narrativa russa: “Putin vai ir ao Alasca mostrando que o front na Ucrânia está colapsando, que eles estão avançando e ganhando terreno. Não é bem assim. A situação é complicada. Eles tentam criar esse barulho midiático de que a Ucrânia está perdendo a guerra. Basicamente, o front está congelado, não há movimento e esse é um problema, mas eu não vejo falha.”
Com informações de Estadão.