Aconteceu no século retrasado quando, por estas bandas, ainda se falava alemão e meu bisavô ocupava o cargo de subprefeito. Reza a lenda que surgiu uma desavença entre vizinhos. Na época, a comunicação era mais direta. Os cidadãos entravam na prefeitura e até na casa dos governantes como quem visita um conhecido. Meu bisavô estava tranquilamente sentado no sofá da sala quando ouviu baterem à porta. Era um morador da redondeza, que passou longo tempo reclamando do vizinho. Segundo ele, o outro havia avançado a cerca e tomado parte de seu terreno. Após ouvir a queixa, o subprefeito concluiu: “O senhor tem toda razão”.
O homem foi embora satisfeito. Algumas horas depois, surge à porta justamente o vizinho acusado. Veio contar sua versão dos fatos. Explicou que precisara erguer uma cerca porque as cabras do outro invadiam sua propriedade, destruindo a plantação de milho e os prejuízos não foram ressarcidos. Ao final do relato, meu bisavô assentiu com a cabeça e declarou: “O senhor tem toda razão”.
Da cozinha, minha bisavó acompanhava a conversa. Intrigada, aproximou-se dele e perguntou: “Mas como pode? Tu acabou de dar razão aos dois!”. Meu bisavô refletiu, olhou para ela e respondeu: “E a senhora também tem razão”.
A história reaparece na nossa família quando alguém quer lembrar que, em qualquer discussão, cada um enxerga os fatos pela janela da própria razão. Ninguém sabe como aquele impasse foi resolvido. O que ficou foi a dica: a verdade raramente cabe inteira em um único relato. E quando ela não aparece, pelo menos sobra uma boa história para contar mais de 100 anos depois.
A arte de concordar