O medo voltou a fazer parte da vida do brasileiro e não é mera sensação: é o que testemunhamos no dia a dia, nas ruas, nos ônibus lotados e até na preocupação que faz muita gente evitar sair à noite. Pesquisa realizada pela Quaest em março afirmou que sete em cada dez brasileiros enxergam a violência e o crime organizado como os problemas mais graves do País. A criminalidade, de fato, se adaptou e ficou mais ágil, e, infelizmente, o poder público ainda responde com demora.
Nesse cenário complexo, a inteligência artificial, que já foi pura promessa, vem conquistando espaço real nas políticas de segurança. São Paulo é um bom exemplo. O Estado já opera com mais de 25 mil câmeras de monitoramento com reconhecimento facial, que ajudaram a reduzir em cerca de 12% os roubos e furtos entre 2023 e 2024, conforme indicam dados recentes da Secretaria de Segurança Pública do Estado.
Curitiba tem colhido bons resultados com a Muralha Digital, projeto que integra câmeras e dados em tempo real para reforçar a segurança nas ruas. Segundo a Prefeitura, nas regiões monitoradas, os índices de criminalidade já caíram em até 40%, mostrando como a tecnologia pode transformar a gestão da segurança pública.
Em Salvador, o uso de câmeras inteligentes e o cruzamento de informações se tornaram peças-chave do sistema. Só no primeiro semestre de 2025, o reconhecimento facial da Secretaria de Segurança Pública da Bahia ajudou a prender mais de 3.700 pessoas procuradas pela Justiça. Os números mostram que, com planejamento e equipes bem preparadas, a tecnologia realmente faz diferença.
É preciso, no entanto, olhar além dos casos pontuais e entender como essas experiências podem inspirar políticas mais amplas e duradouras. O Ministério da Justiça, em seu mapeamento anual, frequentemente confirma essa tendência. Estados que vêm investindo pesado em análise de dados e inteligência artificial, podemos citar São Paulo, Paraná, Bahia e Ceará, que registraram quedas importantes nos homicídios dolosos e nos roubos de veículos em 2024. Diria até que onde há seriedade com a coleta e uso de dados, há avanço, não é mesmo?
Essa insegurança toda também molda o comportamento de toda uma geração. O último relatório da Deloitte, por exemplo, apontou que mais de 24% dos jovens da Geração Z têm na segurança pessoal sua maior preocupação. O medo deixou de ser assunto apenas de polícia e passou a ser tema social, emocional e até econômico, com repercussões de longo prazo que talvez ainda não consigamos dimensionar.
A recente operação no Rio de Janeiro contra o Comando Vermelho, amplamente divulgada e marcada por dezenas de mortes, deixou evidente a dimensão do problema. O crime organizado hoje utiliza recursos avançados, como criptografia, redes sociais e esquemas financeiros complexos. Combater esse tipo de estrutura vai muito além do confronto armado: exige inteligência, integração entre as forças de segurança e o uso de tecnologias capazes de prever movimentos, mapear comunicações e rastrear o fluxo de dinheiro antes que o crime aconteça.
Experiências de outros países reforçam esse caminho e mostram que investir em tecnologia e integração é o que realmente muda o jogo no combate ao crime. Observe-se Nova York: a cidade investiu pesadamente em análise preditiva e seus sistemas online, o que resultou na queda de cerca de 15% nos assaltos em regiões comerciais.
Londres é outro caso impressionante: com quase um milhão de câmeras, um legado de uma política de monitoramento que remonta aos anos 1960, a capital inglesa é hoje uma das mais vigiadas do planeta. O resultado é evidente. Uma revisão acadêmica conduzida pela College of Policing, no Reino Unido, analisou 76 estudos e constatou que o uso mais intenso de câmeras de vigilância ajudou a reduzir em 13% as taxas de criminalidade em Londres.
Por fim, Cingapura é um exemplo de eficiência. Lá, a combinação entre sensores e algoritmos é tão desenvolvida que o tempo médio de resposta da polícia caiu para menos de cinco minutos, um resultado que mostra o potencial da tecnologia quando bem aplicada.
No Brasil, porém, ainda existe certa resistência ao uso da inteligência artificial, motivada tanto pelo medo do desconhecido quanto pela falta de informação sobre seus benefícios e limites. No entanto, o verdadeiro risco, o que realmente deveria nos preocupar, é a continuidade da paralisia. A tecnologia, e é preciso que isso fique claro, não substitui o trabalho humano; ela o potencializa. Cabe ao país atualizar as leis com urgência, conectar bases de dados dispersas e investir massivamente na formação dos profissionais que vão operar essas ferramentas com a ética e eficiência que se esperam.
Para o cidadão que teme o trajeto de volta para casa ou que evita pegar um ônibus noturno, a inovação parece algo distante. Mas é justamente essa tecnologia que pode, no fim das contas, tornar esse caminho mais seguro. A segurança pública não pode, sob nenhuma hipótese, seguir dependendo do improviso e da reação tardia.
Temer a tecnologia é, no meu entender, fechar os olhos para o futuro. Usá-la com responsabilidade é garantir que esse futuro seja mais seguro para todos.
Usar a inteligência artificial pode significar, literalmente, vidas salvas.