Há um tempo eu tinha medo dos tiradores de sangue que vinham numa Kombi branca, dos discos da Xuxa rodados ao contrário, da bala Soft. Hoje eu tenho medo da chuva. E não é exclusividade minha. Tornou-se uma angústia coletiva. Basta começarem as previsões para que o caos se instale. Esse é um medo que provoca lembranças assustadoras no Rio Grande do Sul.
Os tempos modernos têm disso. A gente deixou de temer as lendas urbanas. O imaginário dos pequenos sustos juvenis se transformou em pesadelo. Do país abençoado por Deus e bonito por natureza, que não sofria com catástrofes naturais, passamos a colecionar nossos próprios desastres. Paramos de produzir roteiros de ficção e nos dedicamos a consumir outros produtos que consomem o planeta.
O barulho da chuva deixou de ser um som que acalenta. Porque vem carregado de incertezas. Primeiro chega a ansiedade. Os aplicativos do tempo são consultados compulsivamente, os grupos de WhatsApp fervilham, pipocam as notícias falsas, todos são meteorologistas. A ainda nem caiu, mas a sensação sombria de que algo ruim está prestes a acontecer já invadiu nossa alma.
Nada de monstros escondidos no armário, de perigo nas ruas desertas. Não esperamos a loira do banheiro nem a Kombi branca na esquina. O que nos assusta agora são as notificações da Defesa Civil. É curioso como os medos ganharam outra dimensão. Num passado recente, para afastar uma tempestade bastava invocar Santa Bárbara, tapar os espelhos e esconder as tesouras. Chovia e tudo voltava ao normal. Agora, antes da chuva, nos perguntamos se, desta vez, ela vai embora sozinha.