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OPINIÃO

Entre mãos

Entre falas e silêncio, tomava-lhe a mão e beliscava suavemente o dorso de forma a erguer aquela sobra de pele que os anos lhe haviam deixado

Suzana Kunz - Colunista | abcmais.com
Publicado em: 06/05/2026 às 13h:31 Última atualização: 06/05/2026 às 13h:32
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Por vezes olho para as minhas próprias mãos e relembro de remotas cenas. Era noite fria. Minha mãe, em seus 93, deitadinha e enrolada em seu cobertor. Eu aninhada ao seu lado a lhe fazer cafuné e a lhe lembrar coisas de tempos idos que ela já havia esquecido.

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Aproveitava para lhe perguntar fatos que gostaria de ouvir antes de sua partida. Entre falas e silêncio, tomava-lhe a mão e beliscava suavemente o dorso de forma a erguer aquela sobra de pele que os anos lhe haviam deixado. Em seguida, soltava aquela pequena prega formada entre meu indicador e polegar e observava a pele a voltar vagarosamente em seu lugar.

Eram doces aqueles poucos instantes porque contavam, em alguns segundos, uma longa história – uma vida que foi criança, jovem, adulta e agora prestes a se despedir. Na riqueza daquele momento eu via a mesma cena de minha criança beliscando a mão de minha avó materna numa imagem que parecia dèjá vu.

São ciclos que se completam. E talvez seja justamente aí que mora a gratidão: não nas grandes declarações, mas nesses instantes, quase invisíveis, em que a vida se revela inteira. Na pele que já foi firme e agora repousa mansa. Na mão que um dia amparou e que passa a ser amparada. No gesto simples que atravessa gerações sem precisar de palavras.

Naquela noite fria compreendi, sem pensar, que havia recebido mais do que poderia nomear. Cada ruga, cada lembrança era uma grande dádiva. Como se a vida, mesmo ao se despedir, continuasse generosa. E ao beliscar suavemente sua mão, não era só o tempo que eu tocava. Era tudo o que veio antes de mim. Talvez agradecer seja isso: descobrir que sempre houve mais em nossas mãos do que fomos capazes de ver.

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