Lá estamos nós, coralistas, sentados cada qual no seu lugar já conhecido, como em todos os ensaios. Chega a hora de separar a partitura indicada pelo maestro. A pasta, sempre cheia, guarda folhas que me causam admiração: ali estão obras de arte em forma de música, prontas para serem lidas e interpretadas. Não funcionam como as letras que formam palavras. Transcrevem aquilo que a música canta antes mesmo de soar. Preto no branco.
Para mim, que sou leiga, aquelas “bolinhas”, que sobem e descem entre linhas, ainda carregam mistério. Algumas se alongam, outras passam breves; às vezes se unem, às vezes se isolam. Na plateia, tudo parece simples e mágico. Mas, diante da partitura, percebe-se a complexidade de saberes que sustenta o encanto. Penso então em quem a escreveu. Um compositor que, entre técnica e imaginação, ouviu antes as vozes que ainda iríamos cantar. Vozes em diferentes linhas, entrelaçadas, puro deleite a quem escuta.
Um amigo me perguntou o que fazia o maestro. Respondi: tudo. Depois tentei explicar melhor. Ele fala com as mãos. Sabe onde cada voz deve entrar, crescer, recuar. Conduz o ritmo, chama, segura, libera. Dá forma ao que, no papel, ainda é silêncio. Nosso maestro insiste para que estudemos em casa, olhando as partituras e escutando os áudios que lhes correspondem. Diz que tudo está escrito ali: tons, pausas, sustentações, movimentos.
Talvez não seja só na música. Quase tudo na vida vem escrito de um jeito que nem sempre a gente entende. E, no fim, vamos aprendendo no gesto do outro, tentando acertar, com nossas próprias vozes, no nosso tempo, trazendo para a vida um pouco de arte.