Certa feita ocorreu na Andaluzia um seminário sobre a arte milenar chinesa de cura. Éramos centenas de pessoas imbuídas do espírito taoísta, reunidas em auditórios durante o dia e, depois, dividindo quartos, corredores, filas de banho e pequenos silêncios.
Iniciávamos cada manhã com uma oração de agradecimento, simplesmente por termos acordado. À noite, antes de dormir, agradecíamos novamente, simplesmente por termos vivido mais um dia. Toda refeição era precedida por uma prece que ficou grudada na minha memória: “Agradecemos aos céus por estes alimentos e rogamos para que se convertam em saúde, em amor e em fé.” A parte da saúde eu compreendia sem dificuldade. Todo mundo sabe que a qualidade dos alimentos interfere diretamente no corpo. Mas amor e fé?
Como um prato de arroz, legumes e sopa poderia transformar-se nisso? Demorei um pouco para entender. Aos poucos fui percebendo que a gratidão daquele lugar não estava nas grandes coisas. Ninguém parecia impressionado com status, roupas, títulos ou posses. As pessoas se olhavam demoradamente.
Talvez seja justamente isso que transforma os alimentos em amor – o estado de espírito de quem planta, prepara, serve, reparte e agradece. Quem sabe a fé nasça do reconhecimento de que a vida não nos deve nada, nem mesmo o amanhecer seguinte. E ainda assim ele chega.
Depois de alguns dias, comecei a agradecer também por coisas mínimas: a água quente, o cheiro do pão pela manhã. Desconfio que a gratidão acontece quando entendemos que existir já é um acontecimento improvável o suficiente para merecer reverência. Nada extraordinário. Ou talvez quase tudo.