abc+

CRÔNICA

Nós e a IA (ou seja, nós e nós)

Tendência natural a encaixar tecnologias novas em categorias pré-existentes (e inadequadas) dificulta compreensão das possibilidades e limites da inteligência artificial

André Moraes
Publicado em: 22/08/2025 às 20h:26 Última atualização: 22/08/2025 às 20h:27
Publicidade

OK. Vou estabelecer meu lugar de fala no primeiro parágrafo, para que se saiba que a evidente quebra no ritmo argumentativo prova que sou humano, erro bastante (inclusive por vaidade) e me considero (mais por vaidade também) candidato razoável a abordar o assunto. Não por ser doutor em Comunicação e Informação, por ter 35 anos de jornalismo ou por ter testemunhado desde a chegada dos computadores nas redações até o advento da Internet, redes sociais e, agora, inteligência artificial generativa (quando usar IA, estou falando dessa). Simplesmente por ser nerd e interessado no assunto.

Publicidade

Quero resgatar um colega humano e lhe fazer justiça. De tempos em tempos, a gente em Comunicação retira do limbo algum teórico daqueles meio proféticos e malucões, do tipo que faz um sucesso meteórico falando coisas polêmicas e depois é esquecido porque se comportava mais como estrela de rock do que como acadêmico sério e respeitável. Aconteceu isso no século XXI com Marshall McLuhan, que tinha feito sucesso entre os anos 60 e 70 com suas ideias radicais sobre mídia e depois foi esconjurado durante anos como delirante. E, entretanto, vivemos hoje na aldeia global que ele antecipou, e sua ideia de que o meio é a mensagem virou ganha-pão de analistas de rede ou métrica que até podem não ter ouvido falar dele mas auferem os lucros do mecanismo que ele descreveu.

Tudo isso para dizer que está na hora de reconhecer a razão de outro maluco. Desta vez, Regis Debray, talvez mais conhecido popularmente por ter sido um dos companheiros de luta de Che Guevara.

Quando ouço certos palestrantes vendendo as maravilhas da IA e como ela pode revolucionar desde as vendas até a plantação de petúnias ou a manufatura de blusas de tricô, não posso deixar de pensar em Debray. É que o pensador francês sempre insistiu que o primeiro uso das tecnologias de comunicação é sempre ultrapassado.

Segundo Debray, isso é natural. Quando uma nova tecnologia de comunicação surge, as pessoas tendem a usá-la em termos daquilo que já conhecem. O livro nasce como uma espécie de oratória engarrafada, a Internet como uma agência dos correios para mandar cartas eletrônicas. A tevê é um cinema numa caixa que se leva pra casa. Só muito tempo depois, com a prática e o surgimento de novos protocolos culturais para aquela tecnologia, suas implicações mais profundas aparecem, como as redes sociais e as mudanças sociais que elas engendraram.

Debray chamava esta primeira fase de palimpsesto, em uma analogia com os pergaminhos que eram apagados para se escrever outra coisa por cima. Estamos bem nesse ponto com a IA.
Prestando atenção nos títulos de cursos ou entrevistas de supostos especialistas em inteligência artificial, nota-se que há uma tendência à simplificação. Enquadra-se esta nova tecnologia em um de dois modelos prévios, ambos insuficientes para compreendê-la.

Publicidade

O primeiro erro é considerar que a IA seja, basicamente, uma versão melhorada das ferramentas burras de pesquisa ou revisão que conhecíamos. Um instrumento de busca que responde a comandos verbais ou consegue redigir textos além de corrigir a ortografia e gramática. Um Google vitaminado, um processador de texto com esteroides.

O segundo erro, no extremo oposto e igualmente equivocado, é tratar a IA como um indivíduo pensante como cada um de nós. Alguém com sonhos, planos e medos, que menstrua, faz a barba ou leva os filhos no parquinho e gosta de comer pão de queijo com ketchup quando ninguém está olhando. Como a IA erra de vez em quando e entende o que a gente pergunta, assume-se que seja como nós.

Vai sem dizer que o uso médio inicial, neste momento, vai na linha de uma destas simplificações, propondo ou a economia no licenciamento de software ou a substituição de trabalho intelectual humano. Esses são os palimpsestos de nossa era. A IA é uma revolução. Mas não como ferramenta possante ou criatura consciente. Ainda não conseguimos entender o que ela é, porque os protocolos culturais não se consolidaram.

Publicidade

Superar o impasse exige que a gente pacifique um ponto fundamental. A IA não é viva no sentido individual, mas não é um conjunto de fios e parafusos. Principalmente, ela não é alienígena no sentido de ser extra-humana ou sequer pós-humana. Ela é o somatório de muitos humanos.

Pense numa biblioteca. Você não assume que uma biblioteca seja um ser vivo, mas ela pode lhe dar a resposta para uma infinidade de perguntas se você souber perguntar. Ela não é um indivíduo, mas não é inerte tampouco. Uma biblioteca concentra milhares de anos de saber humano e os pontos de vista e ideias de centenas e centenas de autores. Andar por uma biblioteca e mergulhar nela é dialogar com os espíritos, para usar um termo religioso.

Publicidade

A IA é isso, com o adicional de que possui um sistema de catalogação e síntese muitíssimo eficiente e responsivo. Uma resposta dada por ela, um texto original produzido a pedido, é a síntese de, talvez, milhões de ideias humanas, transformadas em algoritmo e ordenadas segundo regras estatísticas dinâmicas, indexadas pela demanda do usuário. Falar com uma IA não é conversar com HAL 9000 ou T-800 (pergunte ao Chat GPT quem são esses, se não conhecer). É olhar em um espelho quebrado em mil pedaços, mas no qual nosso reflexo ainda é perfeitamente discernível.

Quero dizer que a IA não é uma revolução? Não, pelo contrário. Mas provavelmente levaremos um bom tempo até compreendê-la em todo seu potencial.

E quando conseguirmos entender que a IA não é uma voz mas um coral, talvez alguém ouça lá no meio a voz, solando, de Regis Debray.

Publicidade

Rindo da nossa cara.

Publicidade

Matérias Relacionadas