Tenho me sentido intoxicada da vida moderna. As telas me cansam, meus olhos imploram pela cor de uma tarde de outono atravessada por gritos de crianças, pelo cair discreto das folhas, manchando as calçadas de marrom e amarelo queimado. Meus ouvidos buscam o silêncio que pega pela mão e convida a uma viagem que vasculha gavetas e traz lembranças empoleiradas no cheiro de lenha queimada. Os dias atuais desarranjam a sanidade.
É um ruído incessante, uma cobrança quase invisível para estarmos sempre ligados, informados, disponíveis, prontos para reagir. Como se desligar fosse falha de caráter, ausência. É exaustivo sustentar esse estado de alerta contínuo, nunca baixar a guarda. A mente não descansa, o corpo não acompanha e a gente vai se esgarçando aos poucos, sem perceber exatamente onde começou a faltar.
O ar carrega uma espécie de esgotamento que não aparece nas estatísticas, mas que se revela nos pequenos esquecimentos, na impaciência sem motivo, na dificuldade de se encantar com o que antes bastava. Estar o tempo todo conectado nos afasta do essencial: a possibilidade de simplesmente ser. Sem performance, sem plateia, sem a urgência de registrar tudo. A vida, quando não vivida para fora, ganha outra densidade — mais leve, paradoxalmente mais inteira.
Precisamos reaprender a perder tempo. Olhar uma árvore sem fotografar, ouvir uma música sem dividir, caminhar sem destino e sem fones. Voltar, ainda que por instantes, a esse lugar onde o mundo não exige resposta imediata. Porque, no fundo, é ali — nesse intervalo quase esquecido — que mora o que realmente importa.