“O mundo não é ruim, só está mal frequentado”… “Não sei para onde caminha a humanidade. Mas, quando souber, vou para o outro lado”… E foi. Infelizmente! O luto oficial se encerra hoje, mas ele será duradouro para quem admirava o genial e publicamente reservado Luis Fernando Verissimo.
Deixando um planetinha que até tem gente boa, mas que anda carente de pessoas como ele próprio, que veem o óbvio no meio da hipocrisia e da falta de empatia, Verissimo partiu no sábado, 30 de agosto (completaria 89 no dia 26 de setembro) deixando saudades até no mais distante leitor, no mais distante desconhecido.

Foto: Divulgação
As frases ditas no início deste texto mais parecem mensagens de camisetas, sarcásticas, mas são uma pequena porção da obra do multifacetado talento de Luis Fernando Verissimo, um genial e afiado escritor, jornalista, cronista, saxofonista e outros istas mais.
Como adepto do sarcasmo e da ironia, e observador certamente desgostoso dos rumos da humanidade (pelo menos de boa parte dela), minha identificação com as criações de LFV foi imediata. Falei com ele rapidamente nos anos 1990 sobre um dos shows de sua banda Jazz 6. De poucas palavras, a entrevista foi relâmpago. Mas não a admiração. Ainda mais que ele as levava no rumo que sempre acreditei ser o melhor no jornalismo: a informalidade. Sem palavras rebuscadas para provar o vocabulário farto, mas com a precisão de conseguir chegar ao leitor de forma simples, direta e, ao mesmo tempo, reveladora e empática.
Claro que como cronista LFV entregava suas crônicas de forma nem sempre tão direta, apesar de usar um tom crítico certeiro (sempre com tom irônico e com entrelinhas nem tão necessárias de perspicácia para a compreensão) contra aqueles que, enfim, declarou serem os maus frequentadores deste mundo que até poderia ser melhor se, enfim, fosse melhor frequentado.
Verissimo deixa um legado que marcará gerações e, se o bom senso humano prevalecer, servirá para boas reflexões e risos por muitos e muitos anos. Além disso, seus textos inspirarão muitos mais jornalistas e escritores, seja com ou sem humor, e com o prazer de ler e reler sua obra.
Mas ele nem sempre está certo. Sim, mesmo correndo o risco de ser contrariado (ainda mais neste mundo de discussões via redes sociais, onde até quem não sabe o que está falando resolver opinar), é preciso discordar do mestre.
Das suas muitas frases, esta é a menos correta: “vou morrer sem realizar o meu grande sonho: não morrer nunca”.
Verissimo não vai morrer nunca. Pode até ter deixado este mundo físico – e nem vou entrar em um debate espiritual, que era exatamente o que ele não queria (“meu medo é que tenha outra vida após a morte, mas que seja só para debater esta”) -, mas o genial LFV vai viver através de sua obra por incontáveis anos.
Não vai morrer nunca! E isso até mesmo se aqueles seres maus frequentadores deste nosso mundo prevaleçam. Claro que nem o mais pessimista Verissimo pensa nisso. “Você só sabe até onde pode ir quando já foi”, disse em sua lista de frases sabiamente humoradas.
Verissimo viverá eternamente em sua obra, assim como seu pai, Érico.
Luis Fernando é o antídoto para onde quer que esse mundo doido e mal frequentado esteja indo.
E, ainda que ateu, Verissimo até escrevia sobre a possibilidade de haver algo além disso tudo aqui. Com humor, é claro.
Por isso, relembrando sua crônica Recepção, que fala de sua possibilidade de uma vida além da morte, a gente encerra com um grande viva ao “univitalismo”, para que sua eternidade seja para sempre bem humorada.