Se a voz do povo é mesmo a voz de Deus, teoria cuja veracidade anda meio em risco no nosso País, a palavra perca, que oficialmente reside apenas nos modos verbais, merece ter seu reconhecimento endossado na família dos substantivos. Não será preciso nem teste de DNA.
Há bons anos, o povo brasileiro vem adotando a palavra como sinônimo enfático de prejuízo. Resultados danosos de intempéries, tragédias ou desastres ambientais são assim traduzidos na voz principalmente de quem sofre (porém não exclusivamente) os efeitos das cada vez mais brutais manifestações da natureza.
Tenho a ousadia de diagnosticar a nascente desse processo. O ouvido do brasileiro é molestado diariamente pela expressão não perca, no sentido de que aquela promoção não dá pra deixar passar, aquele desconto não pode passar batido, aquela data festiva não pode cair no esquecimento. O ouvido do brasileiro comum é massacrado diuturna e impunemente pela fonética perca. Sua vida inteira, como agora, lhe faz assumir contra sua vontade tributária, o repetitivo “assim eu perco”.
“A perca foi muito grande”, diz a sobrevivente ao evento que assolou seu bairro. A oralidade como forma de comunicação é responsável pela disseminação de tantos e tantos erros que se multiplicam na comunicação de um povo. Outro fator seria o tom com que a letra C impele a palavra. Com mais impulso em lugar do D, mais suave. Na perca, o prejuízo é sempre maior.
O intrépido intuito dessa coluna é sensibilizar dicionaristas e membros da ABL para que atuem em defesa do povo e lutem pela legalização do verbete perca noutra categoria: a dos substantivos.
Coisas da língua
Perca merece ser substantivo
O ouvido brasileiro é molestado diariamente pela expressão
Publicado em: 17/06/2025 às 13h:39
Última atualização: 17/06/2025 às 13h:39
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