Era uma velhinha minúscula, murcha, de uns sessenta anos […]. Essa frase singular, de Crime e Castigo, me pegou despreparada. Logo nas primeiras páginas Dostoiévski apronta essa. A obra foi lançada em 1866, há exatos 160 anos. É de se supor que um século e meio atrás as mulheres dessa idade — quando a expectativa de vida era menor —, se parecessem assim.
Acho que o que pesou mais foi o fato de eu estar nesse lugar, ser quase essa mulher que é apresentada de uma forma que soa até cruel para os dias de hoje. Mas esse é o papel da literatura, afinal. Eternizar o espírito do tempo, nos contar, duzentos anos depois, como eram os modos e o que sentiam as pessoas.
Ao ler aquelas linhas, deixei 2026 e fui arrastada para uma rua de São Petersburgo, para dentro da cabeça de um homem atormentado e para uma época em que sessenta anos significavam algo muito diferente. Esse é o poder silencioso dos livros: dissolver fronteiras. A literatura não nos leva apenas para outros lugares; ela nos empresta outros olhos. E, por alguns instantes, percebemos o mundo como alguém o enxergou há cem ou mil anos.
Por isso que os grandes livros sobrevivem ao tempo. Não porque contem histórias antigas, mas porque preservam a humanidade em estado bruto. Seus medos, preconceitos, amores, contradições e espantos. Ao abrir Dostoiévski, não encontrei apenas aquela velhinha e, sim, o retrato involuntário de uma sociedade inteira. De quebra, um espelho curioso do presente. Essa é a magia da escrita: enquanto pensamos estar lendo sobre os outros, acabamos sempre descobrindo alguma coisa sobre nós mesmos.