Sinto falta da minha mãe. Não é uma ausência que o tempo acomoda. É daquelas que atravessam o dia sem aviso, às vezes no meio de uma tarefa simples, às vezes quando tudo aperta ou quando uma música antiga insiste em voltar.
Há dias mais difíceis em que tudo o que eu queria era sentar ao lado dela, dividir um chimarrão ou um café com pão quente, recém saído do forno.
E há também os dias leves. Aqueles em que chega uma notícia boa, uma conquista pequena ou grande. É nela que penso primeiro. É para ela que ainda tenho vontade de contar.
Guardo o som da máquina de costura atravessando a madrugada, ajudando a sustentar a casa. Um ruído contínuo, quase como um pulso. Guardo também a cantoria que acompanhava o trabalho. Ela costurava e cantava. Quis ser cantora. E foi, do jeito dela.
Sinto falta dos dias frios em que a casa era abrigo. O cheiro de café passado, o feijão no fogo, a sensação de que existia um centro onde tudo se encontrava. Sinto falta das urgências que ela resolvia com uma simplicidade que hoje me surpreende. Faz dez anos que ela partiu. Dez anos em que tantas histórias ficaram sem o primeiro ouvido. Ainda habito as manhãs de mesa posta, as tardes de conversa longa, as noites em que alguém me esperava chegar.
Se eu pudesse dizer algo a quem ainda tem a mãe por perto, seria simples: fale com ela. Conte do seu dia. Pergunte do dela. Ou apenas permaneça ali, mesmo em silêncio. Não espere ocasião especial. A vida acontece nesses encontros discretos.
A vida seguiu. A saudade, não. E, quando o Dia das Mães se aproxima, ela volta inteira.