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OPINIÃO

Sobre o inverno e outras coisas

Há quem lute contra e os que vão aproveitar o ciclo para se renovar

Sobre o inverno e outras coisas
Publicado em: 10/07/2026 às 13h:20 Última atualização: 10/07/2026 às 13h:20
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O inverno tem dessas coisas. É assustador. Parece que já não há mais nada. Mas também extingue as pragas todas, vai abrindo gavetas e se desfazendo das sobras, dividindo a demasia. Enquanto o frio perdura, o tempo encontra frestas para desorganizar os sentimentos.

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Os turnos oscilam entre a matiz de cinza e preto e levam o pensamento por desfiladeiros sem fim. O peito busca se acomodar, tateando nas poucas nesgas de luz fugidia. E as águas acumuladas vêm descendo de mansinho, correndo num silêncio que tudo diz. Anunciando que o transbordo é iminente.

Nesses dias em que a turbidez confunde, é preciso resistir, não se deixar vergar diante do lamento choroso do vento, que sussurra angústias. Porque o curso da vida é bem maior. É feito de outras cores, nem tão visíveis agora. Mas o azul, o dourado, o verde e o púrpura assistem calmamente por detrás da cortina, esperando o menor aceno para sair. Até lá, vamos sentindo o efeito pesado das horas, que desvelam os segredos mais bem escondidos. Há quem lute contra e os que vão aproveitar o ciclo para se renovar. Deixar a água lavar os excessos. Porque o frio tem dessas coisas, também. Depura a alma.

Assim, nem nos damos conta quando o gelo começa a derreter, aumentando ainda mais o volume do leito — que já esteve por extravasar. Os dias amanhecem radiantes. O calor se instala e nos entregamos à claridade contagiante, à paisagem pintada com vibração, quase sem perceber que é o excesso das águas — e não a sua ausência — que conduz o rio, enfim, ao encontro do mar.

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