As laranjas estão amarelando no pé, mas ainda não estão doces. Algumas já estão até caindo. Há alguns anos as laranjas só ficavam boas lá por maio, quando o frio era uma certeza. Dessas certezas que sempre tivemos. Porém, as coisas não são como antes e esse parece ser o tom da atualidade e — quem sabe — a beleza dela. Todos os dias a gente precisa se reinventar para viver, o que exige criatividade e certa dose de insanidade.
A natureza também está aprendendo a lidar com as novidades e não se cansa de mandar sinais. Se antes a Páscoa era gelada e as laranjas ficavam viçosas quase na metade do ano, agora temos ipês florescendo em agosto, vaga-lumes desparecendo. A vida é um brete. Depois que se entra, não tem como retroceder. Não é novidade, nem na música. Lembram que Mário Barbará e Sérgio Napp avisaram que o que foi, nunca mais será?
Desgarrados me remete a um lugar confortável da adolescência onde o futuro ainda não existia e, por essa razão, na minha cabeça, era colorido e quente. É mais fácil buscar referências naquilo que nos acalma, no familiar, do que num imaginário não palpável. Por isso, muitas vezes, temos a sensação boa de que a melhor época foi a nossa, quando estávamos no auge. Porque lá só existia um imenso arquivo a ser preenchido e a segurança, própria da juventude, de que tudo ia dar certo.
Hoje, quando já movemos as coisas todas de lugar e não temos mais referências onde nos agarrar, temos a impressão de tatear no escuro. Mas não deveria causar estranhamento. Afinal, se fomos capazes de alterar esse curso, temos de aprender a lidar sozinhos com a situação.