Nessa minha estada em Portugal para o doutorado sanduíche, que compreende um período de quatro meses de pesquisa internacional, tive a oportunidade de conhecer alguns lugares não menos intensos do que bonitos.
Évora foi um destes “sítios”. Assisti a um pôr do sol com cores que jamais vou esquecer. As ruínas do templo romano são também marcantes, tanto quanto caminhar e se perder pelas ruelas medievais escutando os pássaros, que são muitos. O sabor do bacalhau e o vinho não foram paisagens menos degustadas ao clima alentejano. Diante daquele espetáculo da vida, onde é possível perceber as tantas histórias que por ali passaram (como um período importante da vida do escritor Eça de Queiroz), os costumes, as rotinas, conflitos e amores, me senti realmente em diferentes épocas com uma sensação pulsante que ouso nominar como rara.
Mas foi a Capela dos Ossos do Convento de São Francisco, do século 17,que me deu um soco no estômago, necessário. De cara, fui impactada pela frase: “Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos”. O contato com a realidade palpável da morte, cara a cara com caveiras, ossos e duas múmias (uma mulher e uma criança). A visita promove uma inquietação, um desassossego revigorante para quem se sente vivo com o desbravar de mundos.
Pensar sobre a morte em vida é considerar que a vida não dura para sempre. Sentir isso na pele reforça os anseios de que a vida é uma só e que precisa ser vivida como escolha. Há poucos dias, assisti ao belíssimo “La Grazia”, de Paolo Sorrentino, que trata, entre outros assuntos, da eutanásia, explorando o questionamento: “A quem pertencem seus dias?” Fica a questão…