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"Deus me perdoou": Suzane von Richthofen reconstrói versão sobre assassinato dos pais em documentário inédito

Condenada a 39 anos de prisão descreve relação sem demonstrações de afeto e conta ter visto pai agredir mãe na infância; relato foi feito em produção exibida em pré-estreia restrita

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Publicado em: 06/04/2026 às 11h:08 Última atualização: 06/04/2026 às 11h:10
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A Netflix exibiu em pré-estreia restrita um documentário com Suzane von Richthofen, condenada a 39 anos de prisão pelo assassinato dos pais Manfred e Marísia von Richthofen. O crime ocorreu em 31 de outubro de 2002. O longa-metragem tem aproximadamente duas horas de duração. A plataforma não divulgou data oficial de lançamento para o público geral.

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Suzane von Richthofen | abc+



Suzane von Richthofen

Foto: Reprodução

Suzane tem 42 anos e cumpre a pena em regime aberto. No material audiovisual, ela reconstrói sua versão sobre o duplo homicídio. A produção apresenta a trajetória que antecedeu o crime e a rotina atual da condenada, conforme informações divulgadas por O Globo. O título provisório é “Suzane vai falar”.

Durante o último feriadão, pessoas de diferentes regiões do país assistiram ao conteúdo. Imagens de Suzane concedendo entrevista circularam nas redes sociais. Os registros incluem cenas dela na praia.

Relatos sobre ambiente familiar

Suzane descreveu a casa onde viveu com os pais e o irmão Andreas, que tinha 14 anos na época do crime, como um ambiente sem manifestações de afeto. Ela afirmou que a rotina era centrada nos estudos e no desempenho escolar.

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“Eu vivia estudando. Era só nota alta. Tirava 9 e 10 em todas as matérias. Não tinha demonstração de amor, nem deles pra gente, nem da gente pra eles. Minha vida era brincar com o meu irmão”, declarou.

Sobre o pai, ela foi mais enfática. “Meu pai era zero afeto. Minha mãe ainda tinha um pouco. Volta e meia ela pegava a gente no colo. Mas era muito de vez em quando”, disse.

A condenada relatou que o relacionamento entre Manfred e Marísia era marcado por conflitos. “O relacionamento dos meus pais era muito ruim”, afirmou.

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Ela narrou ter presenciado uma cena de violência doméstica durante a infância. “Eu era criança. Meus pais botavam a gente pra dormir muito cedo. Ouvi uma discussão e desci pra ver o que era. Eu vi meu pai enforcando a minha mãe contra a parede. Foi horrível”, contou.

Suzane descreveu a ausência completa de diálogo sobre temas íntimos dentro da família. “Eu nunca conversei sobre sexo com a minha mãe. Nenhuma vez. Zero”, relatou.

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O distanciamento entre pais e filhos aumentou com o tempo, segundo ela. “Eu e meu irmão fomos ficando invisíveis dentro de casa”, afirmou. Diante desse cenário, ela disse que criou com Andreas um espaço próprio, separado dos pais. “Era um refúgio nosso dentro de casa”, definiu.

Suzane comparou a família a um modelo idealizado de propaganda. “Minha família não era família Doriana. Longe disso. Meus pais construíram um abismo entre nós”, declarou.

Relacionamento com Daniel Cravinhos

A condenada indicou que o vazio emocional no ambiente familiar foi preenchido pelo relacionamento com Daniel Cravinhos, também condenado pelo duplo homicídio. “Esse espaço vazio foi ocupado pelo Daniel”, afirmou.

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Ela descreveu a intensificação do envolvimento. “O Daniel passou a ocupar todos os espaços da minha vida”, disse.

A mãe manifestava oposição ao namoro, segundo Suzane. “Ela falava que ele ia me puxar para o fundo do poço”, contou.

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A partir da consolidação do namoro com Daniel, Suzane passou a adotar uma rotina de mentiras. “Eu saía de casa dizendo que ia pro karatê, mas ia pra casa do Daniel”, contou. “Escondida dos meus pais, conheci todo o litoral de São Paulo. A gente alugava carro e seguia viagem. O Daniel me mostrou o mundo que eu queria viver”, prosseguiu.

As mentiras se acumularam até serem descobertas pelos pais. “Virou uma guerra dentro de casa. Qualquer coisa era briga”, relatou. O conflito com Manfred escalou até agressão física. “Ele me deu um tapão na cara tão forte que meu rosto virou pro lado”, revelou.

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O momento decisivo, de acordo com Suzane, ocorreu durante uma viagem de 30 dias dos pais à Europa. Nesse período, Daniel se mudou para viver com ela na residência da família. “Foi um mês de liberdade total. Um sonho que eu não queria que acabasse. Era o dia inteiro de sexo, drogas e rock ‘n’ roll”, recordou. “Aquele mês mudou tudo na nossa vida”, afirmou. Em alguns momentos do documentário, ela chega a rir ao relembrar episódios desse período.

Na versão apresentada por Suzane, a ideia do assassinato não surgiu de forma direta. “Nós não falávamos em matar meus pais. A gente dizia que seria muito bom se eles não existissem”, descreveu.

O duplo homicídio foi ganhando forma progressivamente até se concretizar. Suzane tenta se distanciar do planejamento, mas reconhece sua participação central. “Eu aceitei. Eu os levei pra dentro da minha casa”, pontuou. “A culpa é minha. Claro que é minha”, concluiu.

Manfred e Marísia von Richthofen foram mortos a pauladas. O crime foi planejado por Suzane e executado pelos irmãos Daniel e Cristian Cravinhos.

Suzane fez questão de negar participação na confecção da arma utilizada no assassinato. “Eu não construí a arma do crime. Não tenho nada a ver com isso”, ressaltou.

Sobre a noite do assassinato, Suzane sustenta que não participou diretamente da execução. Ela afirma que permaneceu no andar de baixo, tentando se desligar do que acontecia no pavimento superior, onde Manfred e Marísia dormiam. “Eu fiquei no sofá, com a mão no ouvido para não escutar nada”, contou. Ela admite que tinha consciência do que estava em curso. “Eu sabia”, disse.

Suzane von Richthofen em documentário inédito | abc+



Suzane von Richthofen em documentário inédito

Foto: Reprodução

Ela classificou o próprio estado de espírito no momento da execução como “dissociado”. “Eu não estava em mim. Era como um robô, sem sentimento”, comparou. Ao mesmo tempo, reconhece que poderia ter interrompido o assassinato dos pais.

“Se eu parasse pra pensar, aquilo não aconteceria. (…) Quando tudo terminou, o impacto veio de forma imediata. Não tinha mais como voltar atrás. O que eu fiz não tem mais volta”, reforçou.

Durante o documentário, Suzane é pouco confrontada. Em um dos raros momentos de questionamento, a delegada Cíntia Tucunduva, responsável pela investigação original, afirma que uma equipe do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa foi até a casa da família no intervalo entre o crime e a identificação de Suzane como mandante.

A delegada disse que Suzane foi encontrada em uma festa, de biquíni, com um cigarro na mão e uma lata de cerveja. Suzane apresentou o imóvel como se fosse um museu, afirmando que ali havia ocorrido um crime, conforme a polícia.

Ao ser exposta ao relato, Suzane contesta a versão da delegada. Ela afirma que seria absurdo imaginar a realização de um evento desse tipo logo após a morte dos pais. “Não tinha a menor condição de fazer uma festa naquela casa. A casa estava com cheiro de sangue”, diz.

“Aquela Suzane ficou lá no passado”

O documentário mostra a condenada ao lado do marido, o médico Felipe Zecchini Muniz. O material apresenta o filho pequeno do casal e as três filhas do médico de um relacionamento anterior.

Felipe relata no filme como iniciou o relacionamento. Ele entrou em contato com Suzane pelo Instagram para encomendar sandálias customizadas para as três filhas. A partir dessa interação, os dois começaram a se relacionar.

As filhas do médico aparecem em cenas do cotidiano familiar, como momentos em que ajudam a decorar a casa para o Natal. Suzane também exibe o filho pequeno.

No trecho final da produção, Suzane tenta estabelecer um rompimento definitivo com o passado e com a própria imagem associada ao crime. Ela afirma que a mulher que participou do assassinato dos pais deixou de existir.

“Aquela Suzane ficou lá no passado. A sensação que eu tenho é que ela morreu junto com os meus pais”, comparou. Ela diz que hoje é “uma outra pessoa”, transformada ao longo dos anos.

Ao falar de fé e redenção, Suzane diz que encontrou no filho a prova concreta de que o passado ficou para trás. “Quando eu olho para o meu filho, eu tenho a certeza de que Deus me perdoou”, elucubrou.

A condenada reconhece que não consegue escapar da própria história. “Você entra num lugar e parece que o ar para. Todo mundo olha. ‘Olha, a Suzane'”, relatou.

Ela diz ser constantemente reconhecida e fotografada, inclusive em situações banais do dia a dia. “Quantas fotos minhas, às vezes, no supermercado… a pessoa tirando foto”.

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