Uma ilha submersa do tamanho da Espanha que está localizada a 1,2 mil quilômetros da costa do Rio Grande do Sul pode acabar entrando na polêmica da sanção imposta pelos Estados Unidos ao Brasil. Rica em terras raras, a ilha pode estar no radar de Donald Trump.

Foto: The new Digital Terrain Model (DTM) of the Brazilian Continental Margin: detailed morphology and revised undersea feature names (Alberoni et al. / Geo-Marine Letters, 2019) / LEPLAC – DHN – Marinha do Brasil
Na semana passada, o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) confirmou que os Estados Unidos manifestaram interesse nos chamados minerais críticos e estratégicos (MCEs) do Brasil. E uma das reservas estaria na Elevação do Rio Grande, área que é reivindicada pelo governo brasileiro junto à ONU.
Horas depois da confirmação do Ibram, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou o interesse dos EUA nas terras raras brasileiras. “Temos nosso petróleo para proteger. Temos nosso ouro para proteger. Temos os minerais ricos que vocês querem para proteger. E aqui ninguém põe a mão. Este país é do povo brasileiro”, disse.
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O que são terras raras
É um grupo de 17 elementos químicos que inclui ítrio, escândio e os lantanídeos. Entre eles, cobalto, manganês, níquel e telúrio. Apesar do nome, as terras raras não são tão raras na natureza, mas costumam estar em pequenas concentrações, dificultando a extração.
O processo de beneficiamento também é complexo e dominado por poucos países, principalmente a China. Esses materiais têm usos estratégicos em turbinas eólicas, painéis solares, baterias, ímãs, ligas metálicas e eletrônicos, com demanda crescente no mundo em tempos de transição energética.
O que se sabe sobre a Elevação do Rio Grande
A ilha submersa é uma estrutura única no Atlântico Sul. Localizada a cerca de 1.200 quilômetros da costa do Rio Grande do Sul, ela se ergue desde a base oceânica, a cerca de 5 mil metros de profundidade, com o topo localizado entre 700 e 2 mil metros abaixo do nível do mar, reunindo montes submarinos, platôs, cânions, canais e uma gigantesca fenda tectônica.
A área é pesquisa pela USP. Integram os estudos o Instituto Oceanográfico, a Escola Politécnica e o Instituto de Geociências, em parceria com universidades britânicas, alemãs e japonesas. Os objetivos vão de entender sua origem geológica a avaliar o potencial mineral estratégico e os riscos ambientais de uma eventual exploração.
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Área já foi uma ilha emersa
As pesquisas indicam que a Elevação do Rio Grande é um fragmento da crosta continental, o que valida o pedido brasileiro junto à ONU. As rochas têm idades entre 540 milhões e 2 bilhões de anos, muito anteriores à separação entre América do Sul e África.
Estudos indicam que a área já foi emersa. Segundo o professor Luigi Jovane, a ilha começou a se formar no período de abertura do Atlântico e guarda registros de mudanças no oceano ao longo de milhões de anos.
Pesquisadores preparam expedição à ilha
A USP está desenvolvendo tecnologias inéditas para estudar a ilha submersa. Segundo o professor, o objetivo é mapear e caracterizar melhor a elevação. “Já estamos tentando organizar um cruzeiro com a Marinha e outros órgãos governamentais para o fim deste ano ou início do próximo, para entender melhor essa região”, adiantou.
Estados Unidos podem mexer?
Como o Brasil ainda reivindica a responsabilidade sobre a ilha submersa, teoricamente não há impedimento para que os Estados Unidos explorem o local. No entanto, a professora de Direito Internacional e Relações Internacionais da UFRGS Tatiana de Almeida Squeff disse ao g1 que o tema poderia gerar debate nas cortes internacionais.
“É um tema a se observar de perto, pois, assim como os Estados Unidos mostram interesse na Groenlândia, por exemplo, essas regiões serão cada vez mais cobiçadas. A relação já estremecida nas últimas semanas ganharia um novo capítulo, mas nada que o Brasil não possa se defender juridicamente”, disse ao g1.