Há quase 40 anos, o Brasil vivia o maior acidente radiológico da história do País. Agora, ele é relembrado em forma de minissérie, disponível na Netflix. Com 5 episódios, Emergência Radioativa (2026) tem reacendido as memórias da tragédia e, em especial, de suas vítimas. Como Leide das Neves, de 6 anos, retratada na personagem Celeste.

Foto: IMDB/Reprodução
Quem foi Leide das Neves
Tudo aconteceu na capital de Goiás, em Goiânia, em setembro de 1987. Leide das Neves teve um dia normal, como qualquer outro. Aos 6 anos, ela morava com os pais, Ivo Alves Ferreira e Lourdes, e dois irmãos, Lucélia e Lucimar, na região central de Goiânia.

Foto: Governo de Goiás
O tio de Leide, irmão de Ivo, era Devair Alves Ferreira, o dono de um ferro-velho que recebeu uma estranha cápsula de chumbo de dois catadores de sucata. Dentro dessa peça, havia algo fascinante que ele teve que compartilhar com toda a família e a vizinhança: um pó azul que brilhava no escuro.
Também fascinado com a descoberta, Ivo inocentemente levou algumas pedrinhas azuis para casa e mostrou para a família, colocando a substância em cima da mesa. Sem saber do que se tratava, as crianças ficaram animadas e curiosas, brincaram com o tal pó.
Leide foi quem mais brincou com a substância. Em dado momento, chegou a comer com as mãos ainda sujas, ingerindo pequenos fragmentos do pó azul. Em pouco tempo, o que era apenas uma novidade inocente se transformou em um pesadelo.
Os sintomas começaram logo nos primeiros dias, principalmente para quem teve contato direto com o pó, como Leide e a família de Devair e Ivo. Náuseas, vômitos, diarreia, tonturas e até lesões que pareciam queimaduras começaram a aparecer.
Alguns chegaram a buscar atendimento médico, mas foi somente após a tia de Leide levar a peça de chumbo para que fosse analisada que todos descobriram que o pó azul brilhante, na verdade, era Césio-137 e todos estavam contaminados com radiação.
De todos, quem estava mais contaminada com radiação era a pequena Leide. Em 29 de setembro, quando profissionais foram para Goiás para entender o nível de contaminação, os medidores explodiram ao se aproximarem da menina, que brincava.
Infelizmente, Leide das Neves não resistiu e faleceu no dia 23 de outubro de 1987, pouco mais de um mês após ter contato com o Césio-137. Ela estava internada no Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, junto com outras vítimas que tiveram contato direto com a substância radioativa.
Leide se tornou símbolo
Com apenas 6 anos, Leide foi uma das primeiras das quatro vítimas fatais do maior acidente radiológico do mundo, que aconteceu no berço de Goiânia. A pequena se tornou um símbolo da luta por justiça para as vítimas de radiação.
O nome dela hoje é levado pelo Centro de Assistência aos Radioacidentados Leide das Neves (Cara), que é vinculado à Secretaria da Saúde de Goiânia. Antes de 2011, ele já foi Fundação Leide das Neves (Funleide) e Superintendência Leide das Neves (Suleide).
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Uma cápsula de chumbo e um brilho azul fascinante
Era 13 de setembro de 1987 e dois catadores de sucata, Roberto Santos Alves e Wagner Mota Pereira, entraram em um prédio antigo para ver se havia algo que pudessem vender. Foi quando eles encontraram a peça de chumbo que desencadearia tudo.
No prédio em que entraram, costumava funcionar o Instituto Goiano de Radiologia, um anexo de um antigo hospital que havia sido demolido ainda nos anos 1970. A cápsula de chumbo estava em um aparelho de radioterapia, esquecido nas ruínas.
A cápsula deixou o prédio abandonado e foi parar na casa de Roberto, na rua 57 do Setor Aeroporto de Goiás. Os catadores romperam a parte de chumbo para conseguir transportar melhor e venderam a peça para Devair Ferreira, que era dono de um ferro-velho que ficava na Rua 26-A, no mesmo setor da cidade.
Dentro daquela peça, que era mantida dentro da casa de Devair, ele encontrou pequenas pedras azuis, que logo se transformavam em um pó que brilhava no escuro. Fascinado, o homem mostrou aquilo para os familiares, amigos e vizinhos. O irmão dele, Ivo, chegou a levar um pouco para a própria casa, onde Leide das Neves se contaminou.
Quando os parentes começaram a ficar doentes, Maria Gabriela, esposa de Devair, desconfiou que o fator principal poderia ser a peça de chumbo e o pó azul que brilhava no escuro. Ela levou o artefato para a Divisão de Vigilância Sanitária de ônibus. Somente então, todos descobriram que o pó era Césio-137.
Apenas 19 gramas dele foram suficientes para causar uma contaminação que causou quatro mortes, como a da pequena Leide, deixou 271 pessoas contaminadas e fez com que muitas vidas nunca mais voltassem ao que conheciam.
Maria Gabriela, a esposa de Devair e tia de Leide, também faleceu no hospital no RJ. As duas foram transportadas de helicóptero em caixões de chumbo, que pesavam cerca de 700 quilos cada um, de volta para Goiânia. Quando chegaram ao cemitério, foram recebidos com indignação da população.
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Contaminação
Ao todo, oito locais e 3.000 m² ficaram contaminados pelo Césio-137, segundo o Instituto de Radioproteção e Dosimetria (IRD) da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), do governo federal. Os locais considerados focos principais foram o Setor Aeroporto, onde morava a família Ferreira, o Bairro Popular e o Setor Norte-Ferroviário.

Foto: Governo de Goiás
No entanto, a equipe técnica da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) identificou outros focos, como em Setor Marechal Rondon, Jardim Lajeado, Setor Pedro Ludovico, Jardim América e na Vila Santa Helena, todos em Goiânia.
Segundo o IRD, 112.800 pessoas foram monitoradas por conta da contaminação com artefato radioativo. Assim como as 271 pessoas ficaram contaminadas, 120 sapatos e outras peças de roupas também ficaram.
Apesar das quatro mortes por contato imediato com o Césio-137, a vida de quem teve qualquer contato com a substância nunca mais foi a mesma. Muitos precisaram se mudar, e até mesmo sair do País, após sofrerem preconceito da população brasileira.
Algumas vítimas, ainda que estivessem bem, perderam o empreso, todos os pertences e as suas casas. Alguns, anos depois, desenvolveram problemas de saúde como diferentes tipos de câncer e acabaram falecendo. Para auxiliar as vítimas do acidente radiológico, a Associação das Vítimas do Césio-137 (AVCésio) foi montada.
Emergência Radioativa
Emergência Radioativa (2026) estreou na quarta-feira (18) da semana passada e tem sido um dos assuntos mais falados dos últimos dias. A nova minissérie da Netflix tem cinco episódios com cerca de 50 minutos cada, onde conta a história da contaminação por Césio-137 em Goiânia.
A trama acompanha o físico Márcio, interpretado pelo ator Johnny Massaro, e Orenstein, vivido por Paulo Gorgulho, que precisam entender a gravidade da situação e comunicá-la para a população e as autoridades.
*Fontes: Governo do Estado de Goiás; FUNLEIDE, SULEIDE e CARA: história da instituição criada pelo Governo de Goiás após o acidente com o Césio-137 e suas modificações (2019); Narrativas diversas, memórias em disputa: as instituições (Funleide, Suleide e Cara) criadas pelo governo do Estado de Goiás após o acidente com o Césio-137 (1988-2011) (2020).