O sumiço de R$ 270 milhões em bitcoins apreendidos pela Polícia Federal, revelado nesta quarta-feira (29) pela reportagem do Grupo Sinos, pode ser uma pequena parte dos desfalques faraônicos na InDeal Consultoria em Mercados Digitais.
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Foto: Arquivo/GES
Sócia da empresa de Novo Hamburgo, a trader Tássia Fernanda da Paz afirma que foi furtada uma carteira de criptomoedas avaliada hoje em mais de R$ 2 bilhões. Ela frisa, por meio dos advogados Tomás Gonzaga e Gian de Oliveira, que vem tentando recuperar a conta com a intenção de pagar os milhares de investidores lesados.
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É mais um possível desfalque financeiro mencionado sob sigilo nos processos judiciais do Caso InDeal. Há até uma ata notarial, registrada em cartório em janeiro de 2019, quando a empresa ainda operava. O documento, segundo os defensores, atesta a existência da conta de Tássia na Poloniex, uma das maiores corretoras de criptomoedas no mundo. Na época, conforme a trader, o saldo era de aproximadamente R$ 700 milhões em bitcoins.
Rastreamento
A ata foi registrada na presença dos outros quatro sócios da InDeal – Regis Lippert Fernandes, Ângelo Ventura da Silva, Francisco Daniel Lima de Freitas e Marcos Antônio Fagundes. Depois da reunião, conforme relatos, Tássia teria perdido o acesso à conta.
A suspeita é que alguém alterou os dados de controle, como e-mail e senha, e se apropriou dos bitcoins. De acordo com dispersos rastros deixados, o suposto autor do “furto virtual” seria do Vale do Sinos. Chegar ao possível ladrão exige uma investigação complexa, com tecnologia sofisticada.
“Esperamos informações concretas”
Por meio de nota, os advogados de Tássia confirmam a perda da carteira de criptomoedas. Gonzaga e Oliveira dizem que, junto com a cliente, vêm tentando resgatar a conta com a intenção de ressarcir os investidores da InDeal. Eles anexaram a ata notarial à ação penal e ao processo de falência da empresa.
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“Ocorre que no início de 2019, por motivos que estão sendo investigados e de conhecimento das autoridades, Tássia perdeu o acesso da sua carteira na corretora dos ativos virtuais. Inicialmente, peticionamos no expediente criminal federal para que as autoridades realizassem contato com a exchange, com o objetivo de recuperar os bitcoins, mas não recebemos o devido retorno”, diz o comunicado.
Os defensores tentaram então com a Vara Regional Empresarial de Novo Hamburgo. Em dezembro último, o juiz do órgão, Alexandre Boeira, aceitou o pedido de cobrar esclarecimentos da Poloniex.
“Desta forma, esperamos que haja uma resposta positiva da corretora estrangeira e a devida remessa dos criptoativos para o pagamento dos credores da InDeal. Ainda, esperamos obter informações concretas das pessoas envolvidas na alteração das senhas de acesso da referida conta e sua responsabilização criminal”, dizem os advogados.
Gonzaga e Oliveira observam que a InDeal tinha dois traders: Tássia e outro sócio, Marcos Antônio Fagundes, dono da polêmica carteira de bitcoins bloqueada nos Estados Unidos. E concluem: “O que precisa ficar claro é a postura ativa de Tássia para a concretização dos pagamentos dos clientes e sua transparência para com o poder judiciário e demais autoridades”.
Investigação não foi adiante
Ao contrário da Vara Regional Empresarial de Novo Hamburgo, a Justiça Federal negou investigação da conta bilionária reclamada por Tássia. A decisão foi em concordância com parecer do Ministério Público Federal (MPF), que opinou por indeferir o pedido de apuração sob argumento de que não há provas da existência dos ativos.
Um relatório da Polícia Federal (PF) de 2019, no entanto, orientava a quebra de sigilo telemático para averiguar uma conta de Tássia na Poloniex. O documento, que está sob sigilo, menciona até o e-mail que ela usava para acesso. Mas não houve investigação.
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A Justiça Federal, por meio de extensa nota à reportagem, não responde aos questionamentos sobre a denúncia de “furto virtual” de bitcoins nem a respeito do sumiço de R$ 270 milhões em bitcoins apreendidos da conta de Fagundes, publicado ontem. Em resumo, diz que “tudo o que foi objeto de bloqueio está bloqueado”.
O MPF, também em nota, é mais sucinto no que concerne a Tássia: “Não há investigação para identificar o paradeiro da conta”. Sobre o desfalque da carteira apreendida com Fagundes, responde: “A informação não pode ser prestada em face de sigilo”. Já a PF adota o silêncio em todas as questões.
Entenda o caso
Tássia foi presa na manhã de 21 de maio de 2019, pela Operação Egypto da Polícia Federal, que fechou a InDeal sob acusação de fraudes financeiras. Os outros quatro sócios e cinco colaboradores mais próximos também foram para a prisão.
No mesmo dia, foram apreendidos mais de R$ 1 milhão em dinheiro e vários bens de luxo, entre carros, jóias e roupas. A maior parte dos mandados foi cumprida em cidades como Novo Hamburgo, São Leopoldo, Campo Bom e Estância Velha. Imóveis de alto padrão também foram colocados à disposição da Justiça.
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Com a promessa de juros de 15% ao mês, a InDeal atraiu milhares de investidores e arrecadou R$ 1,1 bilhão desde 2017. Os rendimentos, conforme a empresa, eram oriundos de aplicações em bitcoins. O maior prejuízo individual foi de um médico do Vale do Sinos, que aplicou R$ 800 mil.
O nome da operação sugere que a InDeal era uma pirâmide financeira. Os crimes apurados são de operação de instituição sem autorização legal, gestão fraudulenta, apropriação indébita, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Em fevereiro de 2023, a Vara Regional Empresarial de Novo Hamburgo decretou a falência da InDeal, o que permitiu que clientes lesados pudessem requerer indenizações por meio da massa falida.
No dia 19 de janeiro do ano passado, os dez que tinham sido presos e mais cinco réus foram condenados pela 7ª Vara Federal de Porto Alegre a penas somadas de mais de 200 anos de prisão. Estão recorrendo em liberdade. Alegam que não agiram de má-fé.