Um técnico em contabilidade de Sapiranga, que tinha escritório também em Estância Velha com cinco sócios, é acusado de explorar um esquema estadual milionário de sonegação fiscal. Orientava empresas de diferentes segmentos a lucrar com fraudes tributárias e também atuava no crime organizado, conforme as investigações, lavando dinheiro do tráfico de drogas no Vale do Sinos.
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Foto: Polícia Civil
Cassado desde junho de 2023 pelo Conselho Regional de Contabilidade do Rio Grande do Sul (CRCRS), Vilaz Augusto Winck, 57 anos, foi preso na manhã desta quarta-feira, quando Ministério Público, Polícia Civil e Receita Estadual deflagraram a Operação Acerto de Contas. De acordo com a investigação, ele seguia atuando com o registro profissional de colegas. A defesa do contabilista não foi localizada.
R$ 80 milhões
O prejuízo aos cofres públicos com a sonegação é calculado em R$ 80 milhões. Winck é acusado de receber R$ 6 milhões em comissões das empresas beneficiadas. A operação bloqueou contas bancárias e investimentos estimados em R$ 225 milhões.
Foram cumpridos 261 mandados em Sapiranga, Porto Alegre, Canoas, Dois Irmãos, Igrejinha, Araricá, Tramandaí, Capão da Canoa, Campo Bom, Gravataí e Guaporé. Os agentes também fizeram buscas em Florianópolis. Além da prisão preventiva do contabilista, 11 envolvidos no esquema terão que usar tornozeleira eletrônica, entre eles pelo menos um contador.
Foram sequestrados 14 imóveis e apreendidos 30 veículos, 70 quilos de prata, uma arma de fogo, computadores, celulares e documentos. O rastreamento dos bens e perícias nos arquivos digitais e físicos permitirão o aprofundamento das investigações.
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“Estrangular a organização”, declara promotor
O promotor de Justiça Diego Rosito de Vilas, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), explica que foram identificados dois núcleos no esquema de sonegação. “Um é o operacional, que prestava os serviços de contabilidade, e o outro é composto por empresas que se beneficiavam dessas fraudes e pagavam comissão ao núcleo operacional calculada sobre os valores sonegados de impostos.”
Ele frisa que o objetivo prioritário da operação é estancar as fraudes e recuperar os valores por meio de bloqueio e apreensão de bens. “Estrangular o aspecto financeiro dessa organização e reverter esses valores ao Estado.” Vilas destaca que as instituições compartilharam provas para atingir o mesmo alvo.
“Eu faço o acerto de todas as contas”
O nome da operação faz referência a uma conversa do contabilista com um empresário beneficiado no esquema. “Pode deixar que eu faço o acerto de todas as contas. Fica tudo certinho”, enviou Winck ao cliente por WhatsApp.
Conforme o Ministério Público, Winck e familiares mantinham um padrão de vida elevado e ostentavam bens de luxo, como veículos novos das marcas Mustang e BMW, além de imóveis na praia, todos registrados em nome de terceiros. Foram identificadas movimentações financeiras incompatíveis com a renda declarada.
Ainda segundo a investigação, o contabilista oferecia os serviços e era procurado por empresários indicados por outros favorecidos. A apuração aponta que ele reduzia ou suprimia ilegalmente o pagamento de impostos, especialmente o ICMS, além de estruturar mecanismos destinados à evasão fiscal e à ocultação de patrimônio.
Foram identificadas 175 empresas de fachada
A operação apurou que as fraudes eram feitas pela emissão de notas fiscais frias de 175 empresas de fachada, que funcionavam por meio de laranjas e holdings – organizações abertas com o propósito principal de deter e gerenciar participação societária para blindagem patrimonial.
O contabilista definia pessoalmente valores a serem lançados e orientava os clientes sobre ajustes nas declarações. Também transferia empresas endividadas para laranjas de outros municípios, dificultando a responsabilização e mantendo o esquema ativo com novos CNPJs.
O Ministério Público iniciou a investigação em abril de 2024, a partir de relatório técnico enviado pela Receita Estadual, quando requereu quebras de sigilo fiscal, telemático e bancário dos investigados. Em paralelo, a Polícia Civil apurava os mesmo alvos em esquema de lavagem de dinheiro que se utilizava de empresas de fachada para ocultar o dinheiro obtido com o tráfico de drogas.
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Serviços eram prestados para chefes do narcotráfico
Segundo a Polícia Civil, o contabilista orientava líderes do narcotráfico sobre como ocultar bens e lavar o dinheiro do crime organizado. “A investigação também revelou indícios concretos de que o investigado atuava como contador e operador financeiro a serviço de mais de uma organização criminosa”, afirma o diretor do Departamento Estadual de Repressão aos Crimes contra a Administração Pública (Dercap), delegado Cassiano Cabral.
O diretor detalha que Winck prestava serviços especializados a facções. “Inclusive por meio da simulação de operações comerciais, da circulação artificial de recursos entre empresas controladas direta ou indiretamente pelo grupo e da posterior reinserção desses valores no sistema financeiro formal”, observa.
Conselho diz que pode tomar novas medidas
O Conselho da categoria se manifestou, por meio de nota, sobre a operação contra o investigado que teve o registro cassado e outros profissionais da área em atividade. Frisa que acompanha os desdobramentos.
“O CRCRS atua de forma permanente na fiscalização do exercício profissional da Contabilidade e avalia a necessidade de adoção de providências administrativas, sempre nos termos da legislação vigente”, diz o comunicado.
E afirma: “Havendo elementos que indiquem possível irregularidade no exercício da profissão por parte de outros envolvidos, o Conselho analisará o caso e adotará as medidas cabíveis, respeitados o devido processo legal e as competências institucionais do CRCRS”.

Foto: SSP