Investigação contra crimes praticados por facção do Vale do Sinos leva Polícia Civil a cumprir mandados em quatro estados nesta terça-feira (18). Ao todo, são 41 mandados de prisão e 45 de busca e apreensão em 21 municípios do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso.

Foto: Polícia Civil
Até as 9 horas, 32 pessoas foram presas. Entre as apreensões estão R$ 90 mil em espécie, cinco carros, três armas e drogas.

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Os mandados são cumpridos nas cidades gaúchas de Novo Hamburgo, São Leopoldo, Canoas, Sapucaia do Sul, Esteio, Porto Alegre, Viamão, Guaíba, Charqueadas, Lajeado, Cruzeiro do Sul, Capão da Canoa e Erechim. Fora do Rio Grande do Sul, ordens judiciais são cumpridas em Passo de Torres (SC), Palhoça (SC), Maringá (PR), Sarandi (PR) e Cuiabá (MT).
Conforme a delegada Ana Flávia Leite, da 2ª Delegacia de Repressão ao Narcotráfico, a Operação Porta Fechada busca desarticular uma organização criminosa envolvida com o tráfico de drogas, extorsão e agiotagem. A investigação da Polícia Civil gaúcha começou em julho de 2024, após a apreensão de mais de 400 quilos de maconha em Sapucaia do Sul. A droga foi encontrada em um veículo que estava prestes a entrar em um pavilhão, que servia como depósito de entorpecentes. Além da substância, a operação resultou na apreensão de duas balanças de precisão, um veículo tipo furgão com placas clonadas — utilizado para o transporte da droga — e um aparelho celular.

Foto: Polícia Civil
Ao prosseguir com a apuração, a Polícia descobriu que o crime tinha relação com uma organização criminosa altamente estruturada. “Essa organização atuava não só no Rio Grande do Sul, mas também em outros estados brasileiros, totalizando sua presença em ao menos 21 municípios espalhados por cinco estados da federação. A maior concentração de atividades ilícitas estava em Sapucaia do Sul e nas proximidades da Grande Porto Alegre, regiões que se tornaram redutos do tráfico de drogas e outras atividades criminosas associadas”, afirma a delegada.
A investigação demonstrou, ainda, que a organização fazia transportes de grandes quantidades de entorpecentes, com destaque para uma apreensão feita pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) que resultou na perda de mais de R$ 10 milhões em drogas apreendidas. Essa apreensão foi a maior de 2024, com uma carga estimada em aproximadamente 5 toneladas de maconha, que foi interceptada em uma rodovia federal.
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Foto: Polícia Civil
Além do tráfico, essa facção possuía um esquema para controlar e coordenar suas operações, mesmo com parte de seus principais chefes presos. Do interior dos presídios, esses líderes davam ordens a colaboradores externos que gerenciavam o tráfico de drogas nas ruas e o controle das distribuições. “Por meio de aparelhos celulares utilizados por detentos, a organização realizava fraudes financeiras e golpes, sendo um dos beneficiários dessas práticas uma grande empresa do setor alimentício. A empresa fornece produtos para as cantinas de várias penitenciárias do Rio Grande do Sul”, acrescenta a delegada.
Acredita-se que o grupo lavava dinheiro por meio de transações realizadas com a empresa contratada pela Polícia Penal. Com celulares dentro do sistema penitenciário, os detentos aplicavam golpes, que incluíam fraudes financeiras e extorsões. Os valores obtidos com esses golpes eram direcionados para contas bancárias associadas à empresa, disfarçadamente, com o objetivo de pagar por itens adquiridos para as cantinas das unidades prisionais.
Em menos de 10 meses, as transações realizadas pela empresa ultrapassaram o montante de R$ 32 milhões. “Além de controlar o tráfico de entorpecentes, a organização se infiltrava em contratos legais, como o fornecimento de produtos alimentícios às penitenciárias, para ocultar os lucros provenientes de atividades ilícitas. Esse esquema, ao envolver uma entidade legalmente contratada, proporcionava à organização criminosa uma fachada de legalidade”, destaca a Polícia Civil.
A Polícia Penal se manifestou por meio de nota no fim da tarde desta terça-feira. Confira na íntegra:
“A Polícia Penal informa que a empresa em questão está presente em dez unidades prisionais e sua contratação foi oriunda de procedimentos de licitação públicos realizados entre 2018 e 2022 nos termos da Lei Federal nº 8.666/1993 e da Lei 7.810/1984.
À época, apresentou todas as comprovações e cumpriu todas as exigências contidas nos editais. No contrato estabelecido com a empresa vencedora há um Termo de Referência, documento que regula o funcionamento e autoriza uma lista de produtos supérfluos que o Estado não fornece, permitindo a sua comercialização com base estrita no edital.
A administração, tanto da Polícia Penal quanto da Secretaria de Sistemas Penal e Socioeducativo, tomando conhecimento de qualquer fato que caracterize descumprimento ou irregularidade contratual, utiliza do poder-dever de agir e, consequentemente, instaura procedimentos para apuração, observando o devido processo legal. Todas as denúncias e apurações são conduzidas pela Corregedoria-Geral do Serviço Penitenciário e as suas informações não são publicizadas durante o processo investigatório, preservando o devido processo legal.”