Ex-secretária é investigada pela morte de cães na Secretaria do Bem-Estar Animal de Canoas. A apuração começou após uma série de denúncias de pessoas e integrantes da Rede de Proteção Ambiental e Animal que atua em casos de maus-tratos. O alvo principal é Paula Lopes, exonerada pela Prefeitura de Canoas no dia 18 de agosto.

Foto: PAULO PIRES/GES
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A Polícia Civil, com o apoio do Instituto Geral de Perícias (IGP), deflagrou, na manhã desta quinta-feira (4), a batizada Operação Carrasco, que apura denúncias de execução de cães na Secretaria do Bem-Estar Animal de Canoas.
Seis mandados de busca e apreensão foram cumpridos em endereços ligados à ex-secretária da pasta e em locais vinculados à administração do órgão.
Segundo a delegada Luciane Bertoletti, que coordena a investigação, Paula é suspeita de ter autorizado ou anuído à prática de abates de cães em larga escala, executados com injeções letais, supostamente para reduzir custos da Secretaria. Foram centenas de animais mortos.
Crueldade
Conforme a delegada Bertolletti, as primeiras informações chegaram à Polícia a partir de relatos de que o número de eutanásias no canil da secretaria superava em muito o padrão considerado aceitável.
“Segundo os denunciantes, ocorria ali uma matança desmedida de cães, com a anuência da então secretária [Paula Lopes]”, afirmou a delegada.
O inquérito apontou que, semanalmente, uma caminhonete retirava os corpos dos cães mortos, levando-os para descarte sem registro ou documentação oficial. O destino dos animais recolhidos pela secretaria, em muitos casos, não foi registrado em nenhum sistema de controle.
Desaparecidos
As suspeitas ganharam força após a entrega à Polícia Civil de um dossiê. O material inclui fotos e descrições de cães que desapareceram sem explicação. Muitos deles haviam sido recolhidos das ruas ou entregues ao órgão por famílias em situação de vulnerabilidade, com a expectativa de adoção.
Durante a operação nesta quinta-feira, policiais e técnicos do IGP recolheram documentos, computadores, registros de entrada e saída de animais, além de informações sobre microchips implantados.
Cães e gatos ainda abrigados na sede da Secretaria do Bem-Estar Animal foram catalogados individualmente, em uma tentativa de mapear quantos e quais animais efetivamente passaram pelo órgão nos últimos meses e garantir a sua integridade.
Contradição
Segundo a Polícia Civil, a ex-secretária Paula Lopes construiu, ao longo dos últimos anos, a imagem de protetora de animais. Em suas redes sociais, aparecia adotando cães e gatos, especialmente os doentes, com deficiência ou necessidades especiais. Durante a enchente que atingiu o Estado no ano passado, chegou a ganhar notoriedade ao acolher animais resgatados da tragédia. A denúncia, no entanto, coloca em xeque essa trajetória.
Conforme o presidente da Rede de Proteção Ambiental e Animal, Vladimir da Silva, os relatos apontam para uma prática cruel e sistemática:
“Recebemos denúncias de servidores que não conseguiam mais conviver com a situação”, explica. “Animais recolhidos para tratamento ou adoção eram mortos em série. Não havia justificativa clínica, apenas a intenção de reduzir os custos e a lotação do abrigo.”
Continuidade
A Polícia Civil pretende cruzar os documentos apreendidos com os relatos de servidores e os registros de microchipagem, buscando comprovar o número real de eutanásias realizadas e se houve fraude em laudos veterinários. Diretor da Delegacia Regional de Canoas, Cristiano Reschke destaca a gravidade do caso e os próximos passos da Polícia Civil:
“Estamos diante de denúncias graves que, se comprovadas, representam uma afronta à ética e aos valores de proteção animal. Caso fique evidenciado que houve a prática sistemática de eutanásias irregulares, buscaremos a identificação dos responsáveis por tais atos e a Polícia Civil garantirá que todos sejam exemplarmente responsabilizados na forma da lei”, avisa. “Não toleraremos que crimes dessa natureza fiquem impunes, e trabalharemos com rigor para trazer justiça aos animais e às pessoas que depositaram confiança na atuação desse órgão.”
O delegado reforça que, “desde a enchente que assolou o Estado e, em especial, Canoas e região, a atenção com os animais abandonados e a causa em si ganharam destaque, atraindo muitos bem-intencionados e, por via de consequência, muitos oportunistas que viram uma forma de ganhar dinheiro e reputação social com a dor, com a sensibilidade e com o altruísmo das pessoas de bem, o que torna ainda mais repulsivo esse tipo de conduta criminosa”.
Quem é Paula Lopes?
Empresária e ativista da Causa Animal, Paula Lopes atua há mais de 20 anos na causa animal. No ano 2000, fundou o Projeto Adoradores de Vira-Latas, onde viabilizou castrações para as regiões mais vulneráveis da região metropolitana, com foco no controle populacional, atendimento de casos graves e albergagem de animais sem tutores, além de suporte para protetores da causa animal de diversas regiões. Em 2018, fundou a Associação Nacional Instituto Paula Lopes, onde atua até hoje.
O que diz a Prefeitura de Canoas
A reportagem entrou em contato com a Administração municipal visando obter o seu ponto de vista sobre o caso. “A Prefeitura de Canoas recebe com indignação as denúncias relacionadas à operação realizada na manhã desta quinta-feira (4). A administração municipal sempre se comprometeu a tratar o cuidado com os animais como prioridade. A Prefeitura reitera que colabora com as investigações e abriu um expediente interno para apurar os fatos com todo o rigor”, afirma em nota.
(*) Atualizada às 8h44 para incluir o posicionamento da Prefeitura de Canoas