abc+

Golpe da casa pré-fabricada

"Fui enganada e esse dinheiro faz falta": Comerciária de Novo Hamburgo é uma das 35 vítimas de falsa construtora

Mulher que se identificava como dona da empresa fantasma foi presa e uma advogada virou ré em ação penal

Publicado em: 11/06/2026 às 21h:12
Publicidade

“Fui enganada e esse dinheiro faz falta.” O desabafo é de uma comerciária de 39 anos, moradora de Novo Hamburgo, que caiu no golpe da casa pré-fabricada e sofreu prejuízo de R$ 8 mil. Uma falsa construtora, com endereço em Gravataí, fez pelo menos outras 35 vítimas no Estado. A fraude se caracteriza por lesar famílias de baixa renda.

Publicidade

SIGA O ABCMAIS NO GOOGLE NOTÍCIAS

"Fui enganada e esse dinheiro faz falta": Comerciária de Novo Hamburgo é uma das dezenas de vítimas de falsa construtora de Gravataí  | abc+



“Fui enganada e esse dinheiro faz falta”: Comerciária de Novo Hamburgo é uma das dezenas de vítimas de falsa construtora de Gravataí

Foto: Reprodução

A mulher que se apresentava como dona do negócio, também de 39 anos, foi presa há duas semanas. E uma advogada de 26 anos, recém-formada e inscrita na OAB, é acusada de integrar o esquema. Enquanto isso, surgem vítimas até do Paraná.

A presa se identificava com o nome fictício de Bianca de Carlo Nunes. Ela caminhava na Rua Major Ismael Alves, no Centro de Gravataí, às 21 horas de 27 de maio, quando foi capturada por agentes da 1ª Delegacia de Polícia de Novo Hamburgo.

Segundo o chefe do órgão, delegado Tarcísio Kaltbach, que pediu a prisão preventiva ao Judiciário, o golpe era feito por meio de uma página no Facebook. “Nesse perfil da rede social, com aproximadamente 30 mil seguidores, a investigada anunciava a venda de casas pré-fabricadas de diferentes modelos. Oferecia a construção dos imóveis em terrenos das vítimas.”

Publicidade

Contrato com CNPJ

De acordo com o delegado, a acusada atraía clientes com preços abaixo do mercado e projetos de moradias adaptáveis ao gosto de cada um. As negociações eram feitas por WhatsApp e fechadas com a emissão de contrato em modelo oficial, porém com dados falsificados.

Ela usava o CNPJ de uma empresa do ramo onde havia trabalhado há oito anos como vendedora. O verdadeiro dono declarou à Polícia que ficou sabendo que a ex-funcionária estava aplicando golpes.

Já o endereço declarado era uma empresa do ramo na RS-020, cujo dono afirma que não possui relação com a estelionatária. “Após o recebimento de valores iniciais, a investigada encerrava os contatos, bloqueando o número da vítima. As construções sequer eram iniciadas”, observa Tarcísio.

Publicidade



Quem é ela

O nome verdadeiro da acusada é Carem Bianca Nogueira Borges, natural de Gravataí. Quando presa por agentes de Novo Hamburgo, há duas semanas, estava em liberdade provisória pelo golpe contra uma vítima de Cachoeirinha.

Conforme descrição de vítimas, ao ser contatada pelo Facebook e depois nas primeiras conversas no WhatsApp, Carem demonstrava conhecimento na área da construção. Prestava atendimento cordial, ao nível de consultoria, que encantava o cliente. Mas o comportamento ia mudando na medida em que as vítimas começavam a cobrar pelo início da obra. Ainda de acordo com relatos, quando percebia que não conseguiria extrair mais dinheiro da vítima, ela a bloqueava.

Publicidade

Mesmo presa, a conta pessoal de Carem no Instagram, que é privada, vem sendo movimentada. Desde a semana passada, teve 30 postagens apagadas e passou a se apresentar como “bem filhinha do papai do céu, cristã, mãe, engenharia”. À Polícia, porém, disse que tem só o ensino médio. O perfil possui 598 seguidores e segue 2.567.

Já a página no Facebook da “Construção rs”, como se chamava a falsa empresa, foi tirada do ar por determinação judicial a pedido do delegado.

Publicidade



Para a defesa, são “desacordos comerciais”

Por meio de nota, a defesa de Carem diz que não pode se manifestar sobre a prisão porque o processo corre em segredo de justiça. O advogado João Raimundo Holsbach Gomes observa, porém, que tenta habeas corpus no Superior Tribunal de Justiça, em Brasília.

“Importante esclarecer que, até este momento, todos os fatos que chegaram ao conhecimento deste defensor versam sobre desacordos comerciais, e não crimes de fato. Neste momento deve-se respeitar e aguardar o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa, onde poderá provar sua inocência.”

CONFIRA: Ar polar avança sobre o RS e pode levar temperaturas a -5°C; veja quando o frio chega

“Número de vítimas pode ser muito maior”

Conforme o delegado, há no momento 35 ocorrências de golpes contra Carem em diferentes regiões do Rio Grande do Sul. “O número de vítimas pode ser muito maior, considerando que muitas podem não ter identificado a indiciada.”

Tarcísio acrescenta que, durante a investigação, chamaram a atenção da equipe da 1ª DP os diversos registros de estelionato desde 2011. “Demonstra que ela fazia da ação criminosa seu modo de vida.”
O delegado orienta que o consumidor deve sempre desconfiar de ofertas generosas. “Seja de ganhos facilitados, ou, como nesse caso, de oportunidades de negócio com preços muito abaixo do mercado.

Além disso, antes de fazer qualquer repasse, deve conferir se a empresa realmente existe e se se trata de um negócio lícito.”

ENTRE NO NOSSO CANAL NO WHATSAPP

“Burrice minha”: advogada nega envolvimento

Os pagamentos eram feitos em contas de terceiros. Uma delas é da advogada denunciada. “Caí de gaiata, como uma besta. Eu era amiga da Carem e ela me enfiou numa roubada”, diz ela, que virou ré como cúmplice na ação penal que tramita na 3ª Vara Criminal de Novo Hamburgo.

“Eu jamais imaginava que ela fazia esse tipo de coisa. Ela pediu meu Pix para o sogro depositar a pensão da filhinha dela, e eu o emprestei. Saquei e era do sogro mesmo, tudo normal. Daí, algum tempo depois, disse que uma cliente dela tinha feito Pix na minha conta e pediu para eu sacar. Já briguei com ela, porque não vou ficar indo ao banco. Coincidentemente, era dessa mulher que a denunciou por estelionato em Novo Hamburgo. Aí entrei junto. Uma burrice minha”, relata.

O nome da advogada não é publicado porque, no momento, não há indícios veementes de envolvimento no esquema.

LEIA TAMBÉM: Despedida do trabalhador que morreu em acidente no Snowland ocorre em Canela

“Ficava pedindo sempre mais dinheiro”, conta hamburguense

A vítima de Novo Hamburgo conta que foi levada ao prejuízo pelo entusiasmo, entre o fim de 2024 e início de 2025. “Eu estava pesquisando empresas daqui e de outras cidades que fizessem pré-fabricadas. Daí pelo Face vi essa, que tinha bastante seguidores, sinal que pode ser séria. Os valores condiziam com o que eu poderia pagar, tinha fotos de obras e alguns comentários. Joguei o CNPJ no Google e os dados batiam. Tudo certinho.”

A comerciária enviou mensagem à página da empresa e passou a conversar pelo WhatsApp com a dona, “Bianca”, que demonstrava conhecimento em obras. “Ela foi me perguntando as medidas que eu queria, passei tudo e fomos alinhando. Fez um contrato, que parecia muito real, com cláusulas de responsabilidades e valores.” O valor da casa era R$ 19,900. Com R$ 8 mil já pagos, entre entrada e parcelas, a cliente passou a desconfiar. Ninguém da construtora aparecia no terreno, no bairro Primavera.

“Ela ficava pedindo sempre mais dinheiro e dava desculpas estranhas, dizendo que precisava para a estadia e alimentação dos pedreiros. Também alegava que a madeira não havia chegado ainda. Sempre tinha um motivo.”

Como nunca havia falado pessoalmente com “Bianca”, ou recebido qualquer representante da construtora no local da obra, a hamburguense pediu para o irmão ir ao endereço da empresa em Gravataí. “Realmente havia construtoras de pré-fabricados, uma do lado da outra, mas nenhuma com uma mulher trabalhando. Um senhor dessas empresas disse a meu irmão que não era a primeira pessoa que procurava essa Bianca.”

A falsa empresária, antes prestativa e amável, bloqueou a vítima. “Na delegacia, para fazer o BO, eu me sentia uma besta, uma boba, de não ter percebido como uma pessoa vai te pedir dinheiro assim, sem ter ido avaliar o terreno, como seria a construção, se precisaria de aterro. A gente nunca pensa que vai passar por esse tipo de coisa”.

CLIQUE AQUI E INSCREVA-SE NA NOSSA NEWSLETTER

“Essa mulher roubou o nosso sonho”, lamenta moradora do Paraná

A reportagem apurou uma vítima de Guamiranga, na região centro-sul do Paraná. É uma cuidadora de 31 anos, que afirma ter perdido R$ 15,3 mil para Carem em abril do ano passado. “Paguei esse valor como entrada, em três pix na conta de um homem.”

Ela foi atraída pelo valor total da casa, de R$ 48 mil, e também levou em consideração a apresentação da falsa construtora nas redes sociais. “Quando entrei em contato no Facebook, que tinha milhares de seguidores, essa ‘Bianca’ de Gravataí garantiu que atendia todo o Paraná e fez um contrato formal, com CNPJ.”

A cuidadora lembra que, para justificar os atrasos, a golpista enviava fotos de caminhão carregado com material a caminho. “Mas nunca chegava. Daí fiz o boletim de ocorrência e ela me bloqueou. Essa mulher roubou nosso sonho. Era um dinheiro suado para dar mais conforto à minha filha de 8 anos, que é doente.”

VEJA VÍDEO:

Mulher é investigada por fazer pelo menos 35 vítimas em esquema de falsa construtora

 

Publicidade