Para que um caso de abuso sexual chegue ao conhecimento da Polícia Civil, é preciso haver a confiança no trabalho policial, aponta a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) de Canoas.

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A Especializada concluiu 2024 com 160 inquéritos instaurados envolvendo abusos e um total de quase 50 presos relacionados a crimes de natureza sexual cometidos contra crianças e adolescentes.
Embora com novo recorde de prisões, o número preocupa. Isso porque há em Canoas, pelo menos, uma criança abusada sexualmente a cada dois dias, conforme levantamento que partiu da Especializada.
O estupro de vulnerável é o caso que mais aparece entre os inquéritos abertos no ano passado. Foram 125 casos apurados entre janeiro e dezembro de 2024, lembra o delegado Maurício Barison.
Segundo o titular da DPCA de Canoas, a faixa etária da maioria das vítimas se estende, em média, entre 3 e 15 anos, embora existam casos envolvendo bebês que acabam sendo molestados.
“O crime cometido contra a criança e adolescente acontece, em geral, entre quatro paredes. Então a Polícia precisa da colaboração de pais e responsáveis para detectar qualquer indício e levar ao conhecimento das autoridades quanto antes”, explica.
Trabalho
Conforme o delegado Barison, se não houver a confiança para ser feita a denúncia, o caso não chega ao conhecimento da Polícia Civil e existe o risco do abusador permanecer solto.
“Se estão chegando as denúncias e, consequentemente, atingimos novo recorde de prisões, é porque há um trabalho sério de investigação e o posterior trabalho especializado do cartório nas oitivas”, reforça. “A população percebe que vamos atrás e então denuncia”.
Omissão é crime
Todos os crimes denunciados em Canoas ao longo do ano cometidos contra crianças e adolescentes foram abusos que partiram de homens, aponta a Polícia Civil. A mulher, no entanto, acaba muitas vezes sendo implicada pela omissão.
“Não há mulheres abusando de crianças. Porém, é preciso ficar claro que a omissão é um crime grave. Há casos de mães que disseram que ‘o parceiro é assim mesmo e que não dava para evitar’ ao interrogarmos sobre os abusos”, lamenta Barison. “Isso é inaceitável”, completa.
Pedofilia na internet
Os agentes da Delegacia de Proteção à Criança trabalham empenhados em 1) interromper o ciclo de abuso sexual; 2) livrar vítimas o mais depressa possível dos abusadores em potencial. Existe, contudo, outra frente importante de trabalho: os crimes sexuais na internet.
Foi no ano passado que a DPCA de Canoas chegou ao paradeiro de um alvo que ficou conhecido como maior armazenador de conteúdo de pornografia infantil que se tem notícia no Rio Grande do Sul.
O empresário do ramo de entretenimento, preso no condomínio em que vivia, no bairro Fátima, possuía nada menos que 200 mil arquivos, entre vídeos e fotografias, envolvendo crianças violentamente molestadas.
Na época, o delegado Maurício Barison deixou claro que o armazenamento e, posterior, compartilhamento deste tipo de material alimenta uma rede mundial que incide em sequestros e maus-tratos a crianças.
“Não são apenas 200 mil arquivos, mas 200 mil crianças sequestradas e abusadas por uma rede que movimenta milhões em países da Europa e Ásia”, afirma. “Ele [o suspeito] baixava compulsivamente este tipo de material. Então, era um consumidor que alimentava essa rede.”

Foto: Paulo Pires/GES
Reforço
Em começo do ano passado, pouco antes do período das cheias, a 2ª Delegacia de Polícia Regional Metropolitana [DPRM] reforçou a DP da Criança de Canoas. A ideia era dar mais atenção aos casos e, principalmente, às vítimas.
“Canoas é uma cidade que tem uma demanda enorme nos crimes contra crianças e adolescentes, e nossa gestão fez questão de reforçar a DPCA e garantir os recursos materiais e humanos no combate aos crimes”, esclareceu o diretor da Polícia Civil, delegado Cristiano Reschke.
O empenho em cima da Especializada, com mais estrutura e policiais, deu resultado, segundo o delegado Maurício Barison, com o número de prisões crescendo 80% em 2024 no comparativo com o mesmo período de doze meses, em 2023.
“Uma criança de 3 anos não consegue denunciar um crime para a Polícia”, frisa. “E, diferente do homicídio, quando há um cadáver, as investigações em torno de menores são complexas. Falta materialidade, sendo necessário reunir muitas provas que apontem os crimes. Isso acaba sendo demorado e precisamos mesmo de pessoal e recursos”.
Para denunciar
Denúncias anônimas ou não sobre violência contra crianças e adolescentes podem ser passadas para a DPCA Canoas por linha direta para o telefone (51)3425-9056. Quem preferir, pode entrar no site www.pc.rs.gov.br. A DPCA de Canoas hoje está instalada na Rua João Nicolau, 225 – no bairro Fátima – com atendimento de segunda à sexta-feira das 8h30 às 18 horas.