Foi após preparar a refeição favorita do motoboy Vitor Leonardo Nunes Botta, de 27 anos, na noite de terça-feira (19), que a companheira, Eduarda dos Santos de Souza, 24, recebeu uma ligação da sogra. A mensagem foi sucinta: ele havia sofrido um grave acidente no bairro Guarani.
A vítima foi atingida por um Chevrolet Tracker no cruzamento das ruas Bento Gonçalves e 24 de Maio, em Novo Hamburgo, por volta das 22 horas.
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Foto: Reprodução
Vitor seguia em estado gravíssimo na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Municipal de Novo Hamburgo (HMNH) nesta sexta (22). Eduarda conta que o companheiro trabalha há dois meses em um restaurante da cidade e havia saído para entregar um pedido quando o acidente aconteceu. O pedido não chegou ao remetente, mas foi o vestígio que ajudou um popular a contatar o estabelecimento para relatar o ocorrido.
Quem atendeu foi a mãe da vítima, que também trabalha no local. A mulher chegou a se deslocar até a Bento Gonçalves, mas o que encontrou foram apenas os vestígios da colisão, além das autoridades, do condutor da Tracker e de outros motoboys no entorno de onde o filho havia ficado desacordado.
Na casa de saúde, recebeu a informação de que o caso de Vitor era gravíssimo. Quando soube do acidente, por telefone, Eduarda conta que ficou sem reação. “Tentei me atinar, coloquei uma roupa, enrolei o bebê em um cobertor e levei assim mesmo ao hospital”, descreve. O casal possui um filho de apenas 2 anos. Vitor também é pai de um menino de 4.
Ao chegar no local, a apreensão aumentou. “Não deixaram a gente ver num primeiro momento. Os médicos disseram que, no caso dele, não tinha muito o que fazer. Claro que estavam sendo sinceros, mas ficamos muito apreensivas porque só conseguimos ver o Vitor no outro dia”, expõe.
Uma amiga do casal ficou com a criança no carro até que os pais de Eduarda buscassem o bebê por volta de 1 hora da madrugada de quarta (20). Eduarda e a sogra receberam, por volta da meia-noite, a informação de que poderiam ver Vitor na sequência, mas o encontro ocorreu apenas 5 horas depois.
“Ele estava inchado, o rosto irreconhecível”, relembra a companheira da vítima. O motoboy passou por uma craniectomia – retirada de parte do crânio devido ao inchaço cerebral. Além disso, Vitor teve duas costelas quebradas que perfuraram o pulmão e escoriações.
A partir de agora, a previsão é de que a recuperação do motoboy seja longa e pode ter sequelas. “Mas a gente tem fé de que ele vai sair em perfeito estado”, acrescenta Eduarda.
“É a pessoa que mais me incentivou”
A jovem é autônoma e trabalha na área da beleza. Recentemente, havia conseguido alugar um espaço no bairro Petrópolis para trabalhar. Ela narra que o companheiro ficou radiante com a conquista. “Os colegas diziam que ele estava com um brilho nos olhos.”
“Vitor me incentiva, é a pessoa que mais me incentivou. Sempre nos esforçamos muito para ter o que temos”, diz Eduarda.

Foto: Arquivo pessoal
Na tarde do acidente, Vitor havia ajudado Eduarda a montar o espaço, trabalho que seguiria na quarta-feira. Por isso, naquela noite, ela havia decidido preparar frango com molho, um dos pratos favoritos dele. Isso também foi adiado.
“A gente quer justiça porque iam deixar ele ali jogado. Sequer olharam para ele. Não foi um acidente. Foi uma imprudência”, pontua.
Investigação
Imagens de câmeras de monitoramento mostram, em diferentes ângulos, não só o momento da colisão, como a chegada de uma Renault Duster na sequência. O condutor da Tracker, de 19 anos, teria saído do próprio carro e se deslocado ao segundo veículo em uma tentativa de deixar o local.
No entanto, foi abordado por um guarda municipal que testemunhou o acidente. O motorista da Duster também tem 19 anos.
Ambos realizaram o teste do etilômetro, e os resultados foram negativos para ingestão de álcool. Eles foram à Delegacia de Polícia, onde prestaram depoimentos e, posteriormente, foram liberados.
A família organiza um protesto pacífico em frente à 1ª DP, às 15 horas deste sábado (23). “Queremos respostas. Ele negou socorro e isso é crime”, defende Eduarda.
Questionado sobre se houve omissão de socorro, o delegado Tarcísio Kaltbach, da 1ª DP, diz que “não podemos adiantar informações, pois [o caso] está em fase de investigação”.