Dois homens foram condenados pela morte da adolescente Júlia de Mello, de 17 anos, e pela tentativa de homicídio da amiga dela, outra jovem que estava grávida de seis meses na época do crime. A sentença foi anunciada no fim da tarde de quarta-feira (12), quando a Comarca de Canoas decidiu pelas penas de 46 a 51 anos de reclusão em regime fechado.
Conforme o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS), o terceiro acusado foi absolvido, conforme decisão do Conselho de Sentença. Cabe recurso.
CLIQUE AQUI PARA RECEBER NOSSA NEWSLETTER

Foto: Divulgação
O crime aconteceu na madrugada do dia 13 de fevereiro de 2021, no bairro Guajuviras. Um dos réus, ex-namorado de Júlia, atraiu as vítimas por meio de mensagens e ligações feitas com o celular do outro condenado, sob pretexto de um encontro.
Ambas teriam chegado ao local em um carro de aplicativo, acompanhadas de uma terceira amiga, que desistiu de permanecer ao perceber a presença dos acusados. “Uma de suas amigas decidiu retornar a Porto Alegre. Sua justificativa era de que teve um mau pressentimento e não quis ficar”, apontou, na época, a delegada Clarissa Demartini, que comandava a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) de Canoas.
O feminicídio ocorrido no Guajuviras aconteceu por causa de um desentendimento relacionado ao término do namoro. Agressor e vítima mantinham um relacionamento, entre idas e vindas, desde 2020.
Ficaram afastados um período, especialmente quando o agressor estava preso. Ao sair da prisão, ele tomou conhecimento de que Júlia havia se envolvido com um outro rapaz. Foi o estopim para um reencontro que terminou em três disparos e uma morte. “Ele confessou o crime. Disse que terminaram em janeiro, mas tinham voltado a manter contato um ou dois dias antes do crime”, que interrogou o preso no mês seguinte ao crime.
Sentenças
Os homens foram condenados pelo feminicídio da adolescente, com as qualificadoras de recurso que dificultou a defesa da vítima e motivo torpe, e pela tentativa de homicídio qualificado contra a jovem grávida — também com recurso que dificultou a defesa e para assegurar a ocultação do primeiro crime. Ela foi atingida com disparos no tórax, no antebraço e na coxa.
Na sentença, o juiz de direito Bruno Barcellos de Almeida, da 1ª Vara Criminal, destacou a gravidade dos fatos e o emprego de violência extrema contra duas pessoas, em contexto de violência doméstica.
O magistrado também comentou sobre os reflexos do crime para a família da vítima. “As consequências extrapolam o tipo penal, porquanto tendo sido ceifada a vida da adolescente, sua mãe foi privada de forma precoce da convivência com a filha e de todos os momentos que poderiam ter vivenciado em conjunto, havendo a inversão da ordem natural da vida”, salientou.
Ainda, foi registrado que, conforme declarações de familiares da jovem, havia claro histórico de violência contra a mulher por parte do ex-namorado. Os depoimentos detalham que o relacionamento seria abusivo, tendo a vítima vivido constantes ameaças e o réu já esfaqueado sua mão, cortado seus cabelos e quebrado seu celular em outros episódios.
“A ausência de registros anteriores não impede o reconhecimento desse histórico, pois é comum que, nos contextos de violência doméstica, as agressões permaneçam às ocultas”, explicou o juiz Bruno.
Na época do crime, a delegada contou à reportagem sobre o depoimento do ex: “A primeira pergunta que fiz foi sobre as razões de ele estar preso, ao que respondeu – porque matei minha ex, a Júlia. Toda a dinâmica dos fatos foi pormenorizada em seu depoimento, inclusive sobre sua decisão de matar a ex-namorada e a estratégia que usou para atraí-la para a morte”, explicou Clarissa. “Infelizmente a violência se estabeleceu numa crescente, a qual a vítima não soube dimensionar, vindo a ser atingida fatalmente”.