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FANATISMO RELIGIOSO

Missionário que matou filho de 3 anos fez os cinco partos da família em casa para preservar intimidade da esposa

Em isolamento social no interior de Viamão, crianças só começaram a ir à escola para o pai norte-americano receber o Bolsa Família

Publicado em: 11/07/2026 às 08h:32 Última atualização: 11/07/2026 às 08h:32
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Por trás da morte do menino Oliver Golden Grayson, de 3 anos, espancado pelo pai em Viamão na manhã de 5 de julho, havia um ambiente familiar sombrio alimentado pelo fanatismo religioso.

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Oliver Grayson com os pais | abc+



Oliver Grayson com os pais

Foto: Reprodução

A começar pelo nascimento de Oliver e dos quatro irmãos, com idades entre 1 e 9 anos. O missionário norte-americano Dandre Jermaine Grayson, 33, não permitiu à esposa, Mayanna Angelina Rodgers, 29, o acompanhamento pré-natal dos cinco filhos. Ele se encarregou de fazer os partos, em casa.

O argumento do pregador era que a intimidade da mulher não podia ser violada no hospital. Era profana a exposição do corpo a outras pessoas, especialmente homens. Relatos apontam que o isolamento social imposto por Dandre também era um artifício para manter a impunidade diante das atrocidades cometidas no lar.

O enredo de horror começou como conto de fadas em uma cidade do interior da Geórgia, nos Estados Unidos. Com o apoio dos pais, há dez anos, Mayanna casou-se com o, até então, homem ideal, devoto da mesma igreja da família. Dandre era admirado por seu magnetismo espiritual, principalmente por parte do pai da noiva, um militar que havia servido ao governo norte-americano durante seis anos no Japão, onde Mayanna nasceu.

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Submissão feminina

Recém-casados, Dandre disse à esposa que tinha uma missão no Brasil. Não havia explicação lógica, mas eles foram. A doutrina religiosa impunha total submissão da mulher.

“Ela tinha 19 anos. Sequer havia terminado o ensino médio. Quando chegaram, ele cortou todas as relações dela com a família. Os e-mails enviados pelo pai de Mayanna eram respondidos pelo marido, que se passava por ela”, expõe a advogada Isabel Cochlar.

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Ela faz a defesa voluntária de Mayanna ao lado dos colegas Juliana Braun Martins e André von Berg por meio da Rede Brilhe, instituição social que atua no amparo a mulheres em situação de vulnerabilidade. A mãe é acusada de omissão e conivência na morte de Oliver. “Mayanna é vítima, assim como as crianças, de um ambiente de controle emocional, físico e espiritual”, frisa Isabel.

A advogada observa que, sem domínio da língua portuguesa e vivendo numa clausura ditada pelo marido, Mayanna sequer imaginava que havia o SUS para atendimento pré-natal ou a rede de proteção da Lei Maria da Penha. Dandre, ainda sem advogado, deve ser assistido pela Defensoria Pública.

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Ambiente de violência e miséria

Os cinco filhos nasceram no Brasil. A família morou em três cidades de São Paulo — a capital, Mogi das Cruzes e Águas de Lindóia — e no município catarinense de Palmitos antes de se mudar para a zona rural de Viamão, há nove meses. Viviam em um casebre na localidade de Águas Claras, quase à margem da RS-040.

Dandre procurava locais isolados para morar. A suspeita é que ele mudava de endereço a cada denúncia de violência doméstica vinda da escola ou de vizinhos. Conforme relatos, ele só permitiu que as crianças em idade escolar estudassem para garantir o recebimento do benefício do Bolsa Família. O missionário deixou para trás investigações criminais em cada estado por onde passou.

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As apurações apontam que os filhos e a esposa eram agredidos com frequência, mas Dandre conseguia manter a situação sob controle. Versículos bíblicos escritos à mão em folhas de papel, espalhados pela moradia, eram usados para intimidar a mulher. A família vivia em um reduto de submissão cega ao missionário. 



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Quando um filho ficava muito machucado, o recado enviado à instituição de ensino era de que a criança estava doente. O aluno só retornava às aulas quando os hematomas sumiam. Mayanna só podia sair de casa acompanhada do filho mais velho, que, na volta, relatava todos os passos da mãe ao pai. A casa não tinha televisão nem rádio. Somente Dandre possuía celular.

Também faltava comida. “Recebemos relatos de vizinhos de que ela andava com as crianças pela faixa de asfalto, à noite, atrás de algum alimento. Tinha que se cobrir toda para esconder os hematomas, inclusive com um lenço abaixo do queixo. Estava há 30 dias sem conseguir mastigar alimentos sólidos porque o marido deu um soco que quase deslocou o maxilar dela”, conta Isabel.

O pai também negava atendimento médico à família. “Quando alguém ficava doente, Mayanna falava em procurar ajuda e ele dizia que isso não era atitude para pessoas com fé”, observa o advogado André von Berg.

Dandre não era ligado a qualquer igreja no Brasil. “Parava na rua e fazia pregações, ou entrava em algum culto e se manifestava, mas sem nenhuma vinculação institucional”, menciona Isabel. Pelo contrário, ele rejeitava aproximações.

“Há relatos de uma pastora da região de Viamão sobre várias tentativas para que eles começassem a frequentar regularmente a igreja, para dar suporte à família necessitada, mas ele recusava. Ele usava a fé para fazer lavagem cerebral na esposa e nos filhos.”

Prisão da mãe foi mantida em audiência de custódia

O pai foi preso em flagrante no domingo, 5 de julho, logo após o menino dar entrada em estado grave no hospital. Oliver morreu na quarta-feira. A mãe, presa na quinta, teve a prisão preventiva mantida em audiência de custódia nesta sexta. O advogado André von Berg, responsável pela área criminal da defesa, tenta um habeas corpus no Tribunal de Justiça.

“Ela não tinha como se socorrer, nem como socorrer os filhos. Ela tem baixa estatura e ele é um homem muito grande. As agressões começaram logo que chegaram ao Brasil. Ele dizia para ela que, se falasse qualquer coisa, ele a acusaria de ‘não ser uma boa serva de Deus’, dizendo que ela estava louca. Ela não domina o idioma. Estava completamente sozinha e isolada”, comenta Isabel.

A advogada destaca a complexidade psicológica do caso. “É importante ressaltar que as pessoas não podem julgar a Mayanna pelos critérios de uma vida normal, porque ela não teve uma vida normal. Nunca teve apoio ou socorro nesses últimos nove anos.”

Corpo de Oliver segue no IML

A Rede Brilhe está em contato com familiares de Mayanna nos Estados Unidos. O corpo de Oliver segue no Instituto Médico-Legal (IML), em Porto Alegre, sem previsão para os atos fúnebres, pois ainda não há um responsável legal no Estado para providenciar a liberação.

“Após a prisão do marido, Mayanna conseguiu falar com uma irmã por meio de uma rede social — nove anos após o último contato, pois ela não tinha sequer o telefone dos parentes. Estamos alinhando com essa irmã, que nem sabia da existência dos sobrinhos, a vinda dela dos Estados Unidos para o Brasil.”

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