Janaína Maciel deixa a casa em que vive em Sapucaia do Sul para trabalhar em Canoas. Aos 46 anos, a auxiliar de serviços gerais disse já ter visto “muita coisa” onde mora, mas jamais havia testemunhado um crime.
“Nunca tinha visto um assalto à luz do dia”, conta. “Eu estava passando quando vi os caras armados renderem uma mulher que parou quase na frente do colégio [Miguel Lampert]. Só mandaram a mulher descer. Ficou ali, assustada, chorando.”

Foto: Paulo Pires/GES
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O crime citado acima aconteceu no começo do ano na Rua João Leivas de Carvalho. Os roubos são uma realidade que a comunidade passou a se defender com as armas que têm à disposição.
Coordenadora do Centro Social Urbano São José, Carmem Cardoso explica que, não raro, acaba sendo informada de que algum estudante acabou perdendo o aparelho celular ao ser atacado por um assaltante na parada de ônibus.
“Eles roubam carros dos pais. E roubam celulares das crianças na parada aqui ao lado do Colégio [Miguel Lampert]”, aponta. “A gente avisa a todos que chegam ao Centro que é preciso se cuidar, porque a rua é muito visada.”
Morador da João Leivas de Carvalho, Jorge Manoel Machado, 56 anos, lembra de uma servidora pública que acabou atacada, no meio da tarde, instantes após ele guardar o carro na garagem da residência.
“Era servidora do colégio”, recorda. “Eu recém-havia guardado o carro quando ouvi os gritos. Corri e vi só a mulher chorando, calçaram ela com o revólver e levaram o carro. Poderia ser eu ali, porque eles vivem rondando para atacar”, afirma o aposentado de 58 anos.
Estudantes são orientados, confirma diretora
Diretora do Colégio Estadual Miguel Lampert. Daniele Noschang Kühn explica que a instituição criou até uma série de orientações passadas aos estudantes devido à violência do outro lado do portão.
São orientações simples, como não circular na rua distraído com o celular em mãos; procurar sair do colégio sempre em turma e, principalmente, evitar andar pela rua durante a noite.
“Admito que já foi bem pior”, afirma. “Houve uma época em que era diário. Todos os dias a gente sabia de um assalto, mas o risco ainda existe. Orientamos, então, cada estudante sobre como agir do outro lado do portão.”
Daniele aponta que a melhora na segurança para os estudantes se deu por conta da presença da Brigada Militar. Ela aponta que a Patrulha Escolar comparece e garante a segurança durante a entrada e saída.
“Graças a Deus, podemos contar com a Brigada Militar”, afirma. “Esses dias mesmo, o cara grudou uma aluna nossa pelos cabelos na praça ao lado da escola. Chamamos a Patrulha e, instantes depois, eles estavam aqui. É uma parceria que garante uma tranquilidade a mais e inibe muitos crimes.”
Prejuízo
Embora as reclamações sejam muitas na Rua João Leivas de Carvalho, a insegurança no bairro São José não se limita a este ponto, se estendendo por diversos lugares, conforme os relatos ouvidos pela reportagem do Diário de Canoas.
O motorista Fabrício Costodio, 43 anos, morou durante décadas no bairro Guajuviras. Imaginou estar “mais seguro” ao se mudar para a Rua Guarujá, no bairro São José, um local de “classe média”.
“Na primeira noite em que deixei meu caminhão estacionado na rua, entraram e levaram tudo o que podiam”, relata. “Nunca pensei que poderia levar um prejuízo assim do dia para a noite. Foi só então que os vizinhos me contaram o perigo que é o bairro.”
Também morador da área, Adelino Garcia, 66 anos, aponta que os criminosos que atacam o bairro São José são oriundos de outros bairros e alguns nem são de Canoas, mas chegam de outras cidades devido à “fama” do bairro.
“Ficou estabelecido há muitos anos que quem mora no São José tem dinheiro”, opina. “Se tornou um bairro visado, que atrai marginais há anos. Quem mora aqui, sabe que precisa se cuidar. Saem do Mathias [Velho], Guajuviras e Rio Branco para roubar aqui”, reclama o aposentado.
Reforço no policiamento
Segundo o comando do 15º Batalhão da Polícia Militar (BPM), haverá o reforço no policiamento ostensivo no bairro São José diante dos apontamentos da comunidade.
Segundo o tenente-coronel Clóvis Ivan Alves, à frente do comando da BM, os indicadores criminais não apontam um número de ocorrências que se destaque na Rua João Leivas de Carvalho.
O oficial defende a necessidade do registro de um Boletim de Ocorrência para qualquer crime, de modo a garantir um mapeamento mais detalhado dos crimes.
“Vamos dar atenção à comunidade, como solicitado”, afirma. “Procuramos atender a todas as localidades de Canoas e com o bairro São José não será diferente.”
Sem retorno
A reportagem entrou em contato com a Polícia Civil para saber se há uma investigação a respeito dos crimes na área. Não houve retorno, entretanto, até a publicação desta reportagem.