A prisão de um padre logo após a missa, em São Francisco de Paula, na semana passada, chocou a comunidade católica da serra gaúcha. Não só pela gravidade da acusação, como também em razão da liderança missionária e administrativa que o sacerdote exercia na Diocese de Caxias do Sul.
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Ordenado padre em julho de 1996, Adilson Zilio, 56 anos, foi condenado por estupro de vulnerável no estado de Rondônia. O crime teria sido cometido na capital, Porto Velho, onde Zilio estava em missão sacerdotal entre 2017 e 2020.
O religioso coordenava encontros para adolescentes de diferentes estados do Norte do País. Preparava os “jovens missionários”, como são chamados, a levar a fé católica e ações sociais para famílias definidas pelo movimento como “excluídas”. Foi nesse contexto que, conforme o Judiciário, ocorreu o estupro de vulnerável, crime tipificado quando a vítima tem menos de 14 anos.
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Rigorosa cautela
Policiais civis de São Francisco de Paula cumpriram o mandado de prisão, no último dia 18, com rigorosa cautela. Esperaram os fiéis saírem da igreja, por volta das 20 horas, para chegar ao padre. Ainda assim, por envolver figura pública, a notícia se espalhou. Na mesma noite, a imprensa questionou a Polícia sobre a captura, mas a delegada da cidade só confirmou no dia seguinte.
Apesar de a pena constar na ordem judicial, a delegada não informou a quantos anos de reclusão o religioso foi condenado – estupro de vulnerável prevê 8 a 15 anos em regime fechado. Também não disse para qual presídio foi levado. Questionada como a ordem de prisão chegou ao conhecimento da delegacia, não respondeu.
As circunstâncias e a data do abuso, assim como sexo e idade da vítima, também estão em segredo. O processo tramita sob sigilo no Tribunal de Justiça de Rondônia.
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Coordenador de Pastoral e administrador de paróquias
Natural de Garibaldi, Adilson Zilio conquistou notoriedade na igreja em funções como coordenador de Pastoral da Diocese de Caxias do Sul. Supervisionava missões religiosas até em países como Moçambique, um dos mais pobres do mundo.
“A presença dos missionários junto ao povo moçambicano é de muito orgulho e esperança para todos nós, pelo serviço prestado. Os padres ajudam na evangelização, formação e sacramentos e os leigos contribuem na organização, nas aulas de informática, no atendimento à saúde, com visitas aos doentes e hospital, no acompanhamento do projeto ‘lar vocacional’, onde oito meninos da oitava série ao ensino médio recebem aulas de reforço, e também colaboram na organização de pequenas associações de geração de renda em 10 paróquias”, relatou o sacerdote ao portal Arautos do Evangelho, da Associação Internacional de Fiéis de Direito Pontifício, em agosto de 2010.
Depois da denúncia em Rondônia, possivelmente em 2020, foi afastado das missões. Atualmente, o padre era o administrador das duas paróquias de São Francisco de Paula e também da comunidade católica de Cambará do Sul. Nas redes sociais, coleciona mensagens de admiração pela condução das paróquias e trabalho de evangelização.
O último comentário em um perfil pessoal do padre, postado na sexta-feira, destoa dos elogios de forma intrigante: “Aos homens se pode enganar, agora a Deus ninguém engana, ele sabe de tudo e o julgamento virá amargamente!”. A defesa não foi localizada pela reportagem. Questionada sobre o contato do advogado, a Diocese se restringiu a enviar uma nota oficial.
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Diocese exclui apenado do portal e se manifesta por nota
A Diocese de Caxias do Sul se manifestou por meio de nota na sexta-feira, quando excluiu a foto e dados de Adilson Zilio da lista de padres no site da instituição. O documento é assinado pelo bispo José Gislon. Veja na íntegra:
“A Diocese de Caxias do Sul informa que tomou conhecimento dos fatos envolvendo a detenção de um sacerdote, membro do clero diocesano. As circunstâncias estão sendo apuradas pelas autoridades competentes na esfera civil e eclesiástica, conforme os procedimentos próprios, respeitado o devido processo legal. As medidas canônicas estão sendo tomadas pela Arquidiocese de Porto Velho – Rondônia, junto ao Tribunal Eclesiástico de Manaus, onde corre o processo canônico. A Diocese espera que todos os fatos sejam esclarecidos, a fim de que a verdade prevaleça e se realize a justiça.
Faz-se saber que a Diocese de Caxias do Sul, em sintonia com o Magistério da Igreja, conta com a Comissão para a Tutela de Menores e Adultos Vulneráveis, reforçando seu compromisso com o Evangelho, na defesa da vida, dignidade e integridade de todas as pessoas. Declaramos, pois, com veemência, que repudiamos qualquer ato de abuso sexual, em qualquer esfera da sociedade, principalmente no âmbito religioso, e não iremos admitir nenhum tipo de injustiça praticada contra aqueles a quem Deus nos confiou o cuidado.
Pedimos as orações de todos neste momento de dolorosa provação, para que o caminho quaresmal de penitência e purificação que iniciamos nos conduza à verdade e à justiça.”