O casal de comissários Mario Andre Herbst Garcia e Susi Andrea Fontoura da Silva Garcia, do Serviço de Inteligência Policial e Análise Criminal (Sipac) do Vale do Sinos, conseguiu aposentadoria em tempo recorde após ser preso pela Brigada Militar durante confusão na capital, no início do mês.
O processo administrativo para a inatividade, que costuma demorar 80 dias até ser finalizado no Instituto de Previdência do Estado (IPE), foi concluído em oito dias para o casal. Mario e Susi também ganhavam mais horas extras que o valor de delegacias inteiras da região. Eles não foram localizados nesta segunda-feira (25) pela reportagem.

Foto: Arquivo pessoal
As embaraçosas prisões, com os comissários bêbados sendo dominados, desarmados e algemados no chão por brigadianos, aconteceram na noite de 2 julho, um sábado. Na delegacia de plantão, recuperaram as pistolas e foram liberados.
Na segunda-feira seguinte, retornaram normalmente ao trabalho no Sipac da 3ª Delegacia de Polícia Regional Metropolitana (DPRM), sediada em São Leopoldo, que abrange 16 cidades dos vales do Sinos e Paranhana. Passaram a responder inquérito penal por desacato e administrativo pela conduta.
Agilidade peculiar
No dia 7, após reportagem do Jornal NH sobre o fato e imagens das detenções viralizadas nas redes sociais, Mario e Susi abriram procedimento administrativo para a aposentadoria. Ele tinha 28 anos de Polícia Civil e ela, 26. No dia 15, o Diário Oficial já publicava a ida do casal para a inatividade com salário integral.
Os últimos contracheques, de junho, mostram salário bruto de R$ 25.579,99 para Mario e de R$ 25.866,50 para Susi, conforme o Portal da Transparência do governo do Estado.
Unidos também nos adicionais de salário
A união demonstrada na mesma unidade de trabalho, nos eventos políticos e na briga com brigadianos fica também evidenciada nos adicionais de salário. Mario e Susi deixaram a 1ª DPRM, de Gravataí, para assumir na Regional do Vale do Sinos no início de 2019.
Desde então, até o mês passado, cada um recebeu média mensal de R$ 1,7 mil em horas extras. Mais que uma delegacia inteira. Distritais de médio porte têm cotas de horas extras na faixa dos R$ 2,5 mil por mês para toda equipe em trabalhos excedentes de investigações e operações.
Influência política nas redes sociais
Em fotos nas redes sociais, o casal publica participação em reuniões políticas do PSDB ao lado dos principais líderes do partido no Estado. Principalmente Susi, a que aparece mais alterada na confusão com os brigadianos. Em 2008, ela foi candidata a vereadora pelo partido em Porto Alegre. Fez 376 votos.
IPE e Polícia Civil não se manifestam
A Secretaria da Fazenda do Estado (Sefaz) informou que as aposentadorias estão levando cerca de 80 dias entre o pedido e a concessão, mas frisou que a fonte oficial é o IPE, que é quem chancela o benefício.
O Instituto, no entanto, não se manifestou sobre os trâmites atuais. Também não se posicionou a respeito de como é possível servidores irem para a inatividade em processo de oito dias, considerando a burocracia envolvida na análise de documentos.
A Polícia Civil, por meio da Divisão de Comunicação Social (DCS), igualmente não explicou como foi possível a agilidade incomum das aposentadorias para o casal. Também não esclareceu o uso diferenciado de horas extras nem como ficam as possíveis punições agora com os agentes na inatividade. O diretor da 3ª DPRM, delegado Eduardo Hartz, que era superior imediato do casal, está em férias.
Tribunal de Contas faz auditoria
A reportagem apurou nesta segunda-feira (25) que as aposentadorias dos comissários estão em auditoria no Tribunal de Contas do Estado (TCE). Estaria sendo averiguado o procedimento desde o início, na Divisão de Pessoal da Polícia Civil, passando pelo trâmite na Sefaz, em pareceres jurídicos, em cadastramento no Tesouro do Estado e na publicação no Diário Oficial pelo IPE.
“Soldadinhos de m…” e outras ofensas
Segundo a Brigada Militar, uma equipe foi atender chamado em bar na Avenida Osvaldo Aranha, por volta das 21 horas. A denúncia era de um casal bastante alcoolizado e armado em uma mesa.
Os suspeitos logo se identificaram como policiais civis e mostraram as identidades, mas teriam agido com prepotência e desrespeito aos brigadianos. Mário teria frisado que era comissário de Polícia, enquanto os policiais militares eram “soldadinhos de m…”, entre outras ofensas, segundo os PMs.

Foto: Arquivo pessoal
Tanto no caminho ao posto da BM quanto já no prédio, conforme os soldados, os comissários seguiram com os insultos. Exigiam a presença de um delegado e do oficial de dia. Os brigadianos relataram que chegaram a oferecer café, recusado por Mário. O casal levantou e foi para fora. Na Avenida José Bonifácio, ainda conforme relato da BM, Susi pegou uma pistola de dentro da bolsa e pôs junto da perna, enquanto dizia que queria ir embora. A comissária teria dito ainda que os PMs não poderiam mandar, pois estariam “abaixo” dela.
O momento de maior tensão e risco, conforme vídeo, é quando Susi, aos gritos, passa a mover a pistola de forma aleatória na direção dos PMs, que pedem calma. “Pra que esse nervosismo? A gente não precisa disso. A gente é tudo polícia”, diz um deles. E insiste: “Por que a senhora não guarda essa arma?”
A comissária segue enfurecida: “Vai te f… Eu pego minha arma quando eu quiser. Eu sou comissária de polícia!” Em meio a outros insultos, alguns inaudíveis em razão da embriaguez, ela questiona um soldado se “está filmando” e parte para cima dele. Ela derruba o celular do brigadiano com um tapa e, então, passa a ser imobilizada enquanto se debate no chão.
Ao perceber a situação extrema, o marido tenta intervir: “Parou Susi”. A mulher segue falando: “Ele tá filmando”. Mário se aproxima da esposa, já algemada, entra em discussão com outro PM e avisa: “Não puxa minha arma.” Também é levado ao chão e algemado: “Vocês tão maluco?”, questiona Mário. Um soldado responde: “Somos ‘todos polícia’. A diferença é que a gente tá no exercício do dever. O senhor tá podre de bêbado e alterado”. Susi grita ao lado: “Vocês vão se f…”
Assista ao vídeo
As imagens contêm cenas fortes. Clique em “assistir no Youtube” para ver o vídeo completo: