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VEJA VÍDEO: Imagens mostram como funcionário filmava alunas durante o banho na Feevale

O técnico de laboratório, que foi demitido, também fotografava partes íntimas de estudantes na sala de aula, mas teve prisão negada a pedido do Ministério Público

Publicado em: 19/11/2025 às 06h:33
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A filmagem de uma aluna de 26 anos durante o banho na Universidade Feevale, em Novo Hamburgo, não é um caso isolado. As gravações clandestinas, que só pararam na noite de 24 de março deste ano, quando a estudante descobriu um telefone celular camuflado acima do chuveiro, fizeram pelo menos outras seis vítimas na instituição durante cinco meses. Traumatizadas, passam por tratamento psicológico. (Veja vídeo no final da reportagem)

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Imagens mostram como funcionário filmava alunas durante o banho na Feevale

Foto: Reprodução

O aparelho apreendido, um Xiaomi Redmi Note 11S, era do técnico de laboratório e aluno de engenharia civil Fernando Gomes Stacke, 43. Ele foi imediatamente demitido pela Feevale. Por justa causa. A instituição forneceu à Polícia Civil um vasto acervo de imagens de videomonitoramento e um relatório detalhado sobre o dia do flagrante.

Stacke não prestou depoimento. Por meio de duas advogadas, informou a intenção de permanecer em silêncio. No fim de outubro, virou réu em um controverso processo criminal. A reportagem teve acesso aos autos, que tramitam em segredo de justiça.

“Ficou demonstrado que o indiciado aproveitava a condição de funcionário e ao mesmo tempo colega das vítimas para captar imagens de forma criminosa. Com o aprofundamento das investigações, não restou dúvida de que se trata de uma conduta predatória reiterada”, resume o titular da 1ª Delegacia de Polícia de Novo Hamburgo, Tarcísio Kaltbach. Ele prefere não entrar em detalhes por causa do sigilo do processo.

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Banheiro feminino

A aluna que flagrou o crime já havia sido filmada no banho uma semana antes, também segunda-feira e por volta das 18 horas, após atividades no laboratório onde recebia apoio profissional do acusado. É o que mostra o celular dele, que tinha ainda oito gravações de outra aluna nua, de 20 anos, entre novembro de 2024 e fevereiro deste ano. Há também três tentativas frustradas, possivelmente contra mais estudantes, todas no box do banheiro feminino próximo ao trabalho de Stacke.

Mesmo sem aparecer no celular, mais quatro vítimas, dos 19 aos 23 anos, foram apuradas pela Polícia. Conforme a investigação, câmeras de segurança da universidade apontaram, em 18 dias, 80 movimentações suspeitas do réu quando elas entravam no banheiro.

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Stacke também captava imagens de partes íntimas de alunas em sala de aula, por baixo da mesa. Uma vítima de 21 anos foi identificada pelos agentes, por meio de pesquisas até nas listas de chamada. Em uma gravação, é possível ouvir a professora passando explicações de matemática. Em outra, Stacke se atrapalha e acaba gravando tatuagens da própria perna direita, o que confirma a autoria. As sete vítimas prestaram depoimento, sob forte abalo.

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Oitava vítima foi feita em formatura na Unisinos

Técnico em audiovisual, Stacke presta serviços há quase 20 anos para instituições de ensino na região metropolitana. Uma delas é a Unisinos, para quem trabalhava em solenidades tanto na sede, em São Leopoldo, quanto no câmpus de Porto Alegre.

No celular dele, os policiais encontraram uma foto, também feita às escondidas, de cima para baixo, com foco nos seios de uma mulher pelo decote da blusa. Era uma formatura no teatro da universidade na capital, na noite de 18 de janeiro deste ano. Pelo traje e crachá, porém sem foto e nome visíveis, a mulher é funcionária da instituição. Ela não foi identificada, mas consta no inquérito como a oitava vítima de Stacke.

(Reportagem continua após o infográfico)

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Réu estava com fotos de crianças de escola de Novo Hamburgo

Quando foi descoberto na Feevale, conforme a Polícia, Stacke juntou rapidamente roupas e objetos essenciais no apartamento onde morava, no bairro Metzler, em Campo Bom, e foi para a casa de parentes em Canela. Um mês depois, no fim de abril, a 1ª DP conseguiu mandados de busca para os dois locais.

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A ex-moradia no Vale do Sinos estava vazia. Já no refúgio na Serra, em um quarto pequeno, foram apreendidos 14 pendrives. Um deles intrigou os agentes. Tinha quantidade significativa de fotografias de crianças de biquíni, na praia.

A investigação chegou à dona do pendrive. As imagens são de quando ela tinha 9 anos de idade, em 2011, e estudava em uma escola tradicional de Novo Hamburgo. A jovem não sabe como o dispositivo foi parar nas mãos do técnico, que trabalhou no colégio entre 2008 e 2019. Era acervo pessoal, de fotos com amigos e família.

Os policiais foram além. Descobriram que, naquela época, um grupo de alunas e pais denunciou que havia um homem espiando o banheiro das meninas. O colégio consertou uma abertura que estaria permitindo a observação, mas não levou o caso à Polícia. A atitude da instituição, conforme o inquérito, foi de omissão.

Passado tanto tempo, de acordo com a investigação, não foi possível provar quem espiava as crianças, apesar das fortes suspeitas. O episódio foi relatado no inquérito enviado ao Judiciário. Em razão de não haver indiciamento relacionado à escola, o nome não é publicado.

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Para a Polícia, acusado conseguiu apagar provas

Além dos pendrives, a Polícia apreendeu um celular Motorola que estava sendo usado pelo investigado em Canela. Pelo aparelho, conforme o inquérito, ficou evidenciado que o dono conseguiu apagar arquivos armazenados na nuvem do Xiaomi descoberto no banheiro feminino. “As exclusões ocorreram após o flagrante na Universidade Feevale, coincidindo com o início da investigação policial”, observa o delegado Tarcísio no inquérito.

Para a Polícia, outros vídeos de alunas podem ter sido deletados. Na ação penal, é observado que o celular de Stacke “revelou-se um extenso repositório de conteúdo íntimo e sexual, abrangendo grande volume de fotografias, vídeos e capturas de tela, incluindo imagens de alunas e funcionárias da Universidade Feevale”.

As alunas eram vítimas de acompanhamento contínuo tanto físico quanto virtual pelas redes sociais, com a intimidade atingida em múltiplas esferas. Parte do material, apontam as investigações, foi compartilhada pelo acusado em conversas privadas com comentários sexuais em grupos de WhatsApp.

Delegado indiciou o técnico 17 vezes e pediu prisão

O delegado Tarcísio Kaltbach indiciou o técnico 17 vezes por dois crimes contra sete alunas da Feevale e uma funcionária não identificada da Unisinos. Os delitos estão no artigo 216-B do Código Penal, que trata de registrar conteúdo com cena de nudez ou ato de caráter íntimo e privado sem autorização, e o 147-A, relativo a perseguição e invasão de privacidade conhecida como stalking.

Pelo indiciamento, as penas poderiam chegar a 20 anos em regime fechado. O delegado pediu ainda a prisão preventiva. O inquérito, que foi para o Judiciário no dia 16 de setembro, salienta “elevados padrões de gravidade e periculosidade que norteiam o caso” e destaca “uma investigação lastreada em prova técnica robusta e depoimentos convergentes”.

Promotor abrandou acusação e foi contrário à preventiva

Na fase seguinte do caso, no dia 17 de outubro, o promotor Fabiano Redivo da Silva decidiu denunciar o técnico, mas só por dois dos 17 indiciamentos da Polícia. Opinou pelo arquivamento de 15 acusações sob argumento de falta de provas e deu parecer contrário à prisão preventiva.

O representante do Ministério Público considerou apenas as filmagens de duas universitárias no banho, que descreveu como dez conteúdos distintos com cenas de nudez sem autorização das vítimas. Quanto ao crime de perseguição ou stalking, frisou que não há materialidade em nenhuma situação.

Em relação à aluna gravada por baixo da mesa, mencionou que não há crime, “pois a filmagem de roupas íntimas desta pelo denunciado não caracteriza cena de nudez, a qual requer ausência de roupas”. Também desconsiderou a imagem na Unisinos. Segundo ele, sem a identificação da vítima, não se pode ter certeza que a foto foi feita sem consentimento. De qualquer forma, não preencheria o critério de “nudez” entendido por Silva.

Para o promotor, fica excluída a possibilidade de prisão preventiva quando a pena máxima possível é inferior a quatro anos. É que a denúncia feita por ele reduz eventual condenação para um limite de dois anos, com possibilidade de reversão em pena alternativa de prestação de serviços à comunidade.

Juiz concordou com o Ministério Público

O juiz da 2ª Vara Criminal de Novo Hamburgo, Guilherme Machado da Silva, aceitou a denúncia do Ministério Público e tornou o técnico réu. A decisão é do dia 23 de outubro.

No mesmo despacho, ao negar a prisão, o magistrado explicou que estava se baseando nos termos da denúncia do promotor, pois a lei não prevê preventiva para delitos com condenação máxima possível abaixo de quatro anos. E acrescentou que não se trata de crime violento.

“Ainda que assim não fosse, evidente a desproporcionalidade da medida, sendo descabido falar-se em “padrão criminoso de alta periculosidade” quando se trata de imputadas práticas de crimes de menor potencial ofensivo, sem notícia de risco imediato à integridade física das vítimas.”

“Os fatos serão esclarecidos”, diz defesa

A defesa do técnico, composta pelas advogadas Daniele Santos e Mariana Mazoni, se manifestou por meio de nota. Elas dizem que não falam sobre o processo sob argumento de que tramita sob segredo de justiça.

“A defesa confia que, com a continuidade das diligências processuais, os fatos serão esclarecidos de forma técnica e objetiva, sem espaço para conclusões antecipadas. Reiteramos que, por nosso compromisso ético e legal, as manifestações da defesa serão apresentadas exclusivamente nos autos, assegurando ao acusado o pleno exercício dos direitos constitucionais ao contraditório e à ampla defesa.”

Universidades colaboram com as investigações

A Feevale informa que, além da demissão como funcionário, um inquérito administrativo resultou no afastamento de Stacke como aluno.

Em nota, a Unisinos expõe que tomou conhecimento do caso por meio da reportagem e confirma que o profissional citado na matéria já prestou serviços de cobertura fotográfica para alguns eventos institucionais. “A universidade buscará mais informações sobre a situação mencionada e se coloca à disposição para contribuir com as autoridades competentes, caso seja demandada.”

 

Veja vídeo:

Imagens mostram como funcionário filmava alunas durante o banho na Feevale
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