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Opinião

A verdadeira caça às bruxas está nos Estados Unidos de Trump

Presidente norte-americano instala uma guerra que ataca a liberdade de expressão e qualquer pensamento diferente do seu nos EUA e no exterior; o mal-sucedido cancelamento de programas de TV demonstra toda a linha autoritária do governo, assim como a suspensão de vistos e uso político da Lei Magnitsky

Guilherme Schmidt
Publicado em: 24/09/2025 às 00h:32
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O cruel assassinato a sangue frio do ativista Charlie Kirk, alguns dias atrás, acendeu uma fogueira que se espalhou pelo mundo afora. Claro que com maior força nos Estados Unidos, mas com consequências até no Brasil (que o diga o jornalista e historiador Eduardo Bueno, o Peninha).

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Apesar de o assassino não ter sido identificado exatamente como um ativista da “esquerda”, o presidente dos EUA, Donald Trump – que nesta terça-feira (23), fez um discurso dos mais egocêntricos, malucos e contraditórios da história do seu país e da ONU (só faltou dizer que a Terra é plana)  – utiliza a morte do seu ativista como trampolim para uma saga de ataques e violação de direitos, mostrando que a caça das bruxas que ele acusa ocorrer no Brasil é algo mais próprio do seu governo, que caça qualquer um contrário ao pensamento trumpista.

Donald Trump vem em uma escalada violenta de ataques a todos que se opõem a ele



Donald Trump vem em uma escalada violenta de ataques a todos que se opõem a ele

Foto: David Torok/Casa Branca

 

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O movimento trumpista Maga (da sigla em inglês Make America Great Again – “tornar a América grande novamente”) foi a bandeira também erguida por Kirk que valeu a ele lugar ao lado do presidente. Seu carisma junto aos jovens conservadores fez o seu movimento Turning Point USA (Ponto de Inflexão EUA) uma das organizações políticas de extrema direita mais importantes do país que ajudou Trump a se eleger ano passado.

Comentários radicais enaltecendo a sua morte são condenáveis – aqui no Brasil temos visto seguidores de Lula e Bolsonaro fazerem isso seguidamente uns com os outros nas redes sociais, infelizmente. 

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Assim como são condenáveis muitas das posições de Kirk, que, não é pelo fato de ter sido covardemente assassinado que ele passou a ser inquestionável, um mártir cristão (teve gente comparando ele com Jesus), como muitos querem, principalmente como o autoritário Trump quer.

Vamos lá: defender as armas é uma coisa, é um direito, assim como é direito discordar. Mas dizer que “vale a pena pagar o preço, infelizmente, de algumas mortes por arma de fogo a cada ano para que possamos ter a Segunda Emenda para proteger nossos outros direitos concedidos por Deus” é algo que, vamos concordar, passa dos limites. Vidas inocentes são negociáveis para que algumas pessoas – como assassinos – tenham o direito de andar armadas? Isso não é algo aceitável.

O que Trump quer?

Ideologias (se é que se pode dizer isso de algumas delas) à parte, a verdade é que  a lógica de Trump não é apenas defender o legado do amigo ativista Kirk, mas sim, aproveitar o momento para executar seu plano de abafar qualquer um que seja contra seu pensamento.

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Apesar de o assassino de Kirk – Tyler Robinson (que não tinha filiação partidária e sequer votou nas últimas eleições) – ter berço em família conservadora (eleitora de Trump), filho de policial, fã de armas, segundo informações do FBI, Trump logo o taxou de esquerdista (a mãe do assassino, filiada ao partido Republicano do presidente, chegou a dizer isso porque ele era pró-gays) e usou isso para incrementar sua agenda contra quem é contrário às suas ideias.

Isso em um momento de tensão já inflado nos EUA e no resto do mundo.

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Em nome da polarização, Trump já atacou até nomes como o cantor Bruce Springsteen, dizendo que ele “não é um cara talentoso. Apenas um babaca prepotente e detestável”. O artista também não alivia contra Trump ao dizer: “A América que eu amo, a América sobre a qual escrevi, (…) está atualmente nas mãos de uma administração corrupta, incompetente e traidora”.

 O caso Jimmy Kimmel

Não sou grande fã do humorista/apresentador Kimmel (que tem bons momentos de humor – principalmente em esquetes -, mas que derrapa muitas vezes no seu sarcasmo). Ele foi alçado à fama com o The Man Show, programa humorístico que estrelava ao lado de Adam Carolla e conquistou seu espaço com o Jimmy Kimmel Live!.

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Kimmel faz parte de um grupo de humoristas que muitas vezes não mede as palavras, sempre apoiado na tão adorada Primeira Emenda da Constituição dos EUA, que é defendida por todos até que os limites sejam extrapolados. Mas, enfim, se existe a tal emenda lá, que se cumpra. E os humoristas, sejam de esquerda ou direita, democrata (a maioria deles) ou republicano, não poupam na liberdade de expressão.

Apoiado nessa “lógica” americana, Jimmy Kimmel foi com tudo para cima de Kirk e Trump. Não enalteceu o assassinato, mas falou do assassino: “O grupo do MAGA está desesperado para caracterizar esse garoto que matou Charlie Kirk como qualquer coisa que não seja um deles e fazendo tudo o que podem para marcar pontos políticos com isso”.

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E ironizou Trump, mostrando um vídeo no qual, perguntado sobre o luto em relação ao amigo ativista (isso pouco mais de um dia depois do assassinato), ele acaba falando – dando a impressão que sequer prestou atenção na pergunta – sobre uma reforma na Casa Branca.  “Isso não é como um adulto lamenta o assassinato de alguém que ele chamou de amigo. É como uma criança de 4 anos lamenta a morte de um peixe dourado”, ironizou Kimmel.    

Jimmy Kimmel | abc+



Jimmy Kimmel

Foto: Reprodução/Redes sociais

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O cancelamento temporário de seu talk show pela Disney, que é dona da rede ABC que transmite o programa há mais de 20 anos, ocorreu logo após uma pressão de Trump e de Brendan Thomas Carr,  presidente da Comissão Federal de Comunicações, na promessa de que o governo iria atrás das redes de TV, streaming e estúdios que fossem contra os EUA deles e na caça aos anti-Kirk. Kimmel se recusou a pedir desculpas e a Disney suspendeu seu programa. 

Mas o tiro saiu pela culatra com a mobilização de uma legião de artistas norte-americanos dizendo que a decisão era um ataque à liberdade de expressão tão defendida nos últimos meses nos EUA.

Kimmel, aliás, voltou ao ar nesta terça-feira (23), após esta verdadeira campanha de artistas (principalmente do humor/talk-show, como Stephen Colbert, Jon Stewart (que aliás tem o ótimo The Daily Show – um programa que vale cada segundo de diversão) e até dos aposentados David Letterman e Jay Leno -, além de astros do cinema e da música como os oscarizados Meryl Streep, Tom Hanks, Robert De Niro e Jane Fonda, entre muitos, muitos outros – o www.hollywoodreporter.com publicou a longa lista com todos os nomes.

A Disney voltou atrás e emitiu nota dizendo: “tomamos essa decisão porque sentimos que alguns dos comentários foram inoportunos e, portanto, insensíveis. Passamos os últimos dias conversando com Jimmy e, após essas conversas, decidimos retornar o programa”.

Passos maiores que as pernas 

O governo Trump deu um passo perigoso. Chegou a ser criado o site Expose Charlie’s Murderers que  publicava nomes localizações e empregadores de pessoas que criticavam Kirk. Logicamente o site foi  retirado do ar – até o vice-presidente dos EUA, JD Vance, chegou a incentivar essa caça às bruxas.

Seja como foi, Trump parece estar chegando em um ponto no qual o o seu próprio país, inclusive aliados, começa a questioná-lo por tantas medidas descabidas e autoritárias. O Senado já está buscando derrubar o seu tarifaço contra o Brasil, por exemplo. Isso pode ser uma ameaça à sua autoritária guerra econômica contra o mundo. 

E, tirando o poderio econômico, no caso do Brasil, sua arma contra aqueles que ele diz estarem atacando os Bolsonaros tem sido a revogação/cancelamento ou não concessão de vistos de entrada nos EUA e a tal Lei Magnitsky, aprovada no governo Obama em 2012 e ampliada 2016 (a fim de englobar pessoas de outros países) para atacar casos de violações de direitos humanos ou corrupção significativa, autorizando o congelamento de bens e a proibição de entrada nos EUA destas pessoas, pode acabar sendo igualmente derrubada por estar sendo aplica de forma leviana e política.

Trump usa de forma distorcida uma lei criada para defender direitos humanos, algo que está longe de ser verdade no caso do ministro Alexandre de Moraes do Supremo Tribunal Federal (STF), que pode até cometer excessos em algumas decisões discutíveis, mas que vendo na esfera da Justiça não ferem os direitos humanos, assim como as decisões  de seus colegas do STF. Nesta caça às bruxas americana até a esposa do ministro Moraes entrou nas sanções de Trump.

A grande dúvida é saber até onde vai esta saga autoritária de Trump e seus aliados.

O tarifaço contra o Brasil já tem reação de senadores americanos que protocolaram na semana passada projeto de lei para derrubar a taxação de Trump sobre produtos brasileiros. E a medida não vem apenas da oposição dos democratas, mas também de dentro do partido Republicano. Lógico que a preocupação deles não é o Brasil, mas sim, a economia americana que também está sendo afetada pelas medidas políticas que não interessam ao cidadão americano, que está pouco se lixando para o destino de Jair Bolsonaro e seus aliados.

E este movimento político mostra que a paciência com medidas autoritárias e prejudiciais aos EUA está acabando até mesmo na base aliada a Trump.

Derrubar um presidente nos EUA não é tá fácil como aqui (em menos de 30 anos já tivemos dois impeachment). Mas Trump já sentiu o gosto de um pedido em 2019, que acabou não avançando. Agora, neste momento, ele tem maioria no Congresso. Ou seja, um pedido de impeachment não teria chance alguma. Mas, em 2026, as eleições podem virar o jogo.

É verdade que um  impeachment nos EUA é algo muito difícil de acontecer. Só Nixon caiu e foi porque renunciou. 

Mas, devido à sua arrogância e medidas extremistas, Trump, mesmo tendo respaldo da Suprema Corte, hoje habitada por maioria conservadora, pode enfrentar momentos difíceis em sua escalada egocêntrica pelo poder absoluto.

 

 

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