abc+

ANÁLISE

DANIEL SCOLA: Flexibilidade moral na Fifa e a Copa da vergonha

Confira a coluna de Daniel Scola desta quarta-feira, 8 de julho

Publicado em: 08/07/2026 às 06h:30
Publicidade

Em 2014, quando a Copa do Mundo ocorreu no Brasil, a Fifa ameaçou não escolher Porto Alegre como uma das sedes. A Copa era patrocinada por uma marca de cerveja e aqui vigora uma lei que proíbe a venda de bebida alcoólica em estádios. Pressionado, o comitê local decidiu flexibilizar a lei e, durante os jogos da Copa no Beira-Rio, foi permitida a venda de cerveja para atender aos interesses comerciais da Fifa. A Budweiser ganhou muito dinheiro e a Fifa deu um exemplo negativo de que a lei não vale pra todos.

Publicidade

Quando o certo é errado

Agora a Fifa dá mais uma demonstração de que não age em favor do futebol, e sim de conveniências. Se em 2014 foi em favor de um patrocinador, agora é em favor do presidente do país anfitrião. Trump não gostou da expulsão de um jogador da seleção dos Estados Unidos e pediu ao presidente Fifa, Gianni Infantino, que repensasse o cartão vermelho dado ao jogador Falorin Balogun que ficaria fora na partida de segunda-feira (6). A Fifa vergonhosamente atendeu ao pedido e postergou a suspensão. Ele foi escalado, jogou e a Bélgica ameaçou contestar. Mas depois da goleada imposta aos Estados Unidos não será necessário.

Trump e Infantino na Casa Branca | abc+



Trump e Infantino na Casa Branca

Foto: Reprodução/ @fifaworldcup

Infantino pressionado

A decisão equivocada de Gianni Infantino foi muito criticada dentro e fora de campo. No campo, a Fifa perdeu a confiança para muitos jogadores. Fora dele, Infantino manchou a credibilidade (que já era questionável ) da federação mundialmente conhecida. Ano passado, ele criou o inédito prêmio da paz e o concedeu a Trump. O fato desagradou dirigentes mundo afora, mas ninguém se insurgiu. Agora, há uma interferência direta no futebol. Por isso, o presidente anterior, Joseph Blatter, pediu a renúncia de Infantino. O discurso dele coincide com o de outros expoentes do futebol, como o ex-técnico do Liverpool, Jurgen Klopp.

O 7 a 1 contra a ética

A vergonhosa decisão da Fifa é uma goleada na ética. O gol de consolação foi feito pelo treinador da Bélgica, Rudi Garcia. Ao saber da decisão da Fifa, disparou: “Não sabia que 5 de julho era igual a 1º de abril na Fifa. Não estamos defendendo a seleção ou a confederação (da Bélgica), nós estamos defendendo o futebol, sua ética e a história”.

A Copa da vergonha

O que era para ser uma celebração virou um vexame. A Copa histórica realizada em três países vai ser lembrada por muita gente como a Copa da vergonha. Uma mudança de decisão dentro de campo simplesmente porque a Fifa decidiu atender o pedido do presidente anfitrião, e um evento marcado pela explosão das bets. A Fifa está asfixiando a paixão pelo futebol.

Publicidade

Protecionismo não combina com liberalismo

Para tentar evitar a sobretaxa imposta ao Brasil, grupos empresariais e o governo brasileiro tentam convencer os americanos que a decisão é ruim tanto para o Brasil quanto para os Estados Unidos. Se não for revertido, o tarifaço de Trump passa a valer na semana que vem. O tarifaço atinge setores estratégicos da economia, sobretudo produtos agrícolas e o setor calçadista. O protecionismo de Trump está custando caro. Ainda mais para quem defende o liberalismo econômico.

Publicidade