Ao longo dos últimos anos tenho escrito que a principal crise vivida pela democracia brasileira não é apenas partidária ou ideológica. Ela é, sobretudo, uma crise de confiança. Quando o cidadão acredita que os serviços públicos pioram, que as promessas não são cumpridas e que as instituições deixam de responder às suas necessidades, a consequência natural é o crescimento do ceticismo em relação à política.
Esse fenômeno continua presente no comportamento do eleitor gaúcho. O Instituto Pesquisas de Opinião (IPO) utilizou uma régua de posicionamento político que permite compreender como diferentes grupos interpretam a realidade política. Nela, os entrevistados são classificados como lulistas, eleitores mais à esquerda, independentes, eleitores mais à direita e bolsonaristas.
Esse comportamento ajuda a compreender um dado que, à primeira vista, parece contraditório. Perguntamos aos entrevistados como imaginam que serão os políticos eleitos neste ano em comparação aos atuais. Os resultados revelam que 40,6% acreditam que serão melhores. Outros 37,8% afirmam que serão iguais e apenas 13,0% acreditam que serão piores.
Os números parecem destoar do ambiente de descrença frequentemente identificado nas pesquisas sobre confiança institucional. Entretanto, eles revelam um aspecto importante da cultura política brasileira. O eleitor pode estar decepcionado com os políticos atuais, sem abandonar a expectativa de que novos representantes consigam fazer diferente. A crítica recai sobre o desempenho das lideranças conhecidas, enquanto a esperança permanece depositada na possibilidade de renovação proporcionada pela eleição.
Essa lógica ajuda a explicar por que tantos candidatos conseguem surgir como alternativas competitivas, mesmo em um ambiente de baixa confiança institucional. O voto deixa de ser apenas uma escolha entre nomes conhecidos e passa a representar uma tentativa de corrigir frustrações acumuladas.
Ao cruzarmos essa percepção com a régua de posicionamento político, observamos que a expectativa em relação ao futuro também varia conforme a relação do eleitor com a política. Os grupos mais identificados ideologicamente tendem a preservar algum nível de confiança nas lideranças de seu campo político. Já entre os independentes prevalece uma postura mais cautelosa. Eles costumam exigir demonstrações concretas de capacidade de gestão, coerência e entrega de resultados, antes de depositar confiança em qualquer candidatura.
Essa é uma das principais características do eleitor contemporâneo. A polarização continua organizando boa parte do debate público, mas a confiança permanece sendo o principal filtro da decisão eleitoral. O eleitor já não se satisfaz apenas com discursos, slogans ou posicionamentos ideológicos. Ele procura sinais de competência, coerência e capacidade de transformar promessas em realizações.
Nesse contexto, a pesquisa mostra que a democracia convive hoje com dois sentimentos aparentemente opostos, mas complementares: a descrença em relação ao presente e a esperança de que o futuro possa ser melhor. É justamente nesse espaço, entre a frustração e a expectativa, que se travará grande parte da disputa eleitoral de 2026.
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