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EXCLUSIVO: Vereador de Estância Velha destina emenda de R$ 70 mil para própria ONG

Documentos mostram sucessivas trocas na direção da entidade antes do repasse

Isaías Rheinheimer
Publicado em: 02/07/2026 às 15h:17 Última atualização: 02/07/2026 às 17h:55
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Pouco antes de indicar R$ 70 mil em emenda parlamentar para o Instituto Chute Campeão, entidade que fundou e coordena em Estância Velha, o vereador Marcelo Stoffel, o Professor Marcelinho (Cidadania), deixou formalmente a presidência do projeto. Em seu lugar, assumiu uma pessoa de sua confiança.

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Cerca de um ano depois, às vésperas da assinatura do convênio com a prefeitura para garantir o pagamento da emenda, um novo presidente foi nomeado, desta vez seu compadre.

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Vereador Marcelo Stoffel destinou emenda para projeto que ele mesmo criou | abc+



Vereador Marcelo Stoffel destinou emenda para projeto que ele mesmo criou

Foto: Câmara de Vereadores

A reportagem de ABCmais teve acesso aos documentos que instruíram o processo administrativo, analisou registros públicos e ouviu pessoas que ocuparam a presidência da ONG, uma escolinha de futebol, durante a tramitação da emenda. O material revela uma sequência de mudanças administrativas e de participação de pessoas ligadas ao círculo de confiança do parlamentar durante todas as etapas que culminaram no pagamento dos recursos públicos.

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As mudanças começaram antes da apresentação da emenda

O repasse de R$ 70 mil foi efetuado pela prefeitura na quarta-feira (1º). O processo, porém, começou há cerca de um ano.

A preparação do orçamento municipal de 2026 teve início no segundo semestre de 2025. Foi justamente nesse período que ocorreu a primeira mudança na direção do Instituto Chute Campeão, para evitar a anomalia de Marcelinho ter que assinar duas vezes um mesmo documento.

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Até meados de junho do ano passado, o próprio vereador Marcelo Stoffel presidia a entidade, fundada por ele em 2023. Marcelinho deixou formalmente a presidência, que passou a ser ocupada por uma pessoa que, naquele momento, mantinha vínculos familiares com o vereador.

Poucos meses depois, começaram as tratativas para apresentação das emendas impositivas ao orçamento do município. Entre elas estava a destinação de R$ 70 mil para sua própria ONG.

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A proposta foi aprovada pela Câmara de Vereadores sem qualquer apontamento. Embora a presidência da entidade tenha sido alterada, o endereço cadastrado no CNPJ permanece sendo a residência do parlamentar no bairro Rincão dos Ilhéus.

Além disso, no Plano de Trabalho apresentado para viabilizar a parceria com o município, o telefone indicado como contato da entidade não era o do presidente formal do instituto. O número informado é o do assessor parlamentar de Marcelinho, Wagner dos Santos Huf, nomeado para o gabinete do vereador em agosto de 2025.

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A emenda prevê a contratação de profissionais para oficinas esportivas, aquisição de materiais e melhorias na estrutura utilizada pelo projeto, com atendimento previsto para até 200 crianças e adolescentes. Inicialmente, os recursos seriam liberados em dez parcelas mensais de R$ 7 mil entre março e dezembro deste ano, mas a prefeitura fez o pagamento integral da emenda nesta semana.

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Parecer jurídico apontou fragilidades

Antes da assinatura do termo de fomento, a assessoria jurídica da prefeitura identificou inconsistências no plano de trabalho apresentado por Marcelinho. Entre elas estavam a falta de detalhamento da metodologia de execução, da aplicação dos recursos, dos locais onde seriam realizadas as atividades e dos indicadores para avaliação dos resultados.

Parecer jurídico havia apontado inconsistências, mas acabou sendo favorável ao pagamento da emenda | abc+



Parecer jurídico havia apontado inconsistências, mas acabou sendo favorável ao pagamento da emenda

Foto: Isaías Rheinheimer/GES-Especial

A entidade apresentou uma nova versão dos documentos. No parecer final, emitido em 16 de junho passado, o jurídico da prefeitura concluiu que as principais inconsistências haviam sido sanadas, embora registrasse que ainda permaneciam fragilidades que deveriam ser acompanhadas durante a execução da parceria e na prestação de contas.

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Três dias depois, em 19 de junho, foi assinado o termo de fomento. Quando o convênio foi formalizado, a entidade já possuía outro presidente. Matheus Feilstrecker assumiu o cargo há dois meses, em maio deste ano. Compadre de Marcelo Stoffel, Feilstrecker foi quem assinou o termo de fomento em nome do Instituto Chute Campeão.

Mesmo assim, o endereço oficial da entidade continua sendo a casa do vereador. O telefone indicado como contato da parceria também mudou. Mas, de novo, o número indicado não é o do presidente da entidade, e sim o do contador de Marcelinho.

“Ele disse que precisava de alguém para assinar”

Ao ser procurado pela reportagem, Matheus Feilstrecker afirmou que aceitou assumir a presidência do Instituto Chute Campeão a pedido do vereador pela relação familiar que possuem.

Segundo ele, Marcelinho disse que precisava de uma pessoa de confiança para ocupar formalmente o cargo. “Ele comentou que precisava de alguém para assumir essa parte da presidência. Disse que eu não precisaria me envolver diretamente. Ele disse que precisava de alguém para assinar [como presidente].”

Feilstrecker afirma que, nestes dois meses, não recebeu nada para exercer a função e disse que desconhecia a existência da emenda parlamentar quando aceitou o convite. “Essas informações, ele [Marcelinho] não passou nada. Em nenhum momento foi conversado sobre isso. Como comentei, muitas vezes a gente assina coisas sem… Como eu sou o presidente, acabei assinando sem fazer essas conexões”, pontua.

Ao ser contatado pela reportagem, Matheus Feilstrecker afirmou que vai pedir para deixar a presidência da ONG. “Se eu soubesse que isso poderia gerar esse tipo de situação, jamais teria aceitado. Vou pedir para sair”, declarou, em entrevista na tarde de quarta.

“É do Marcelinho isso daí”

Outro que foi ouvido é um estudante de Administração, cujo nome é preservado por decisão editorial, já que não integra mais a ONG. Ele foi o primeiro familiar que Marcelinho usou para assumir a presidência do Instituto Chute Campeão, para que seu nome não aparecesse mais no quadro societário da entidade.

Questionado sobre o caso, disparou: “É do Marcelinho isso daí.” Assim como Feilstrecker, o ex-presidente do Chute Campeão afirma que sua participação limitava-se à assinatura de documentos. “Eu só era presidente no papel, entendeu? Não sabia de nada lá, como é que funcionava”, esclarece.

O ex-presidente, que era do núcleo familiar de Marcelinho à época, diz que foi informado de que o vereador iria destinar essa emenda para o próprio projeto, mas não questionou a legalidade. “Cheguei até a abrir uma conta no banco com o Wagner [assessor parlamentar de Marcelinho], para receber esse dinheiro. Até tenho acesso a essa conta ainda, e volta e meia ele [Wagner] me chama ‘pra’ autorizar [algumas transações]”, completa.

“Não houve intenção de fazer nada obscuro”, garante vereador

Nesta quinta-feira (2), Marcelinho negou qualquer irregularidade na destinação da emenda. “Não houve intenção de fazer nada obscuro. Nunca houve má-fé. Todo mundo que me conhece sabe que eu sempre trabalhei pensando nas crianças e em oferecer um futuro melhor para elas”, afirma.

Segundo ele, a iniciativa teve como único objetivo ampliar o atendimento a crianças e adolescentes do bairro Rincão dos Ilhéus por meio de projetos esportivos no contraturno escolar. “Eu só entrei na política para realmente fazer um trabalho para as crianças. O Rincão é um bairro muito populoso e não existem projetos sociais. As crianças estão entrando nas drogas e se perdendo. Minha maior meta sempre foi transformar a vida dessas crianças”, afirma.

O vereador reconhece que fundou a ONG e foi presidente até o ano passado, mas ressalta que deixou a direção da entidade após assumir o mandato na Câmara de Vereadores. Segundo ele, desde então, a administração passou a ser conduzida por pessoas de sua confiança. “Não houve intenção nenhuma de destinar dinheiro para mim mesmo. A emenda é para as crianças”, declara.

Questionado sobre o fato de ter indicado pessoas do núcleo familiar para presidir a entidade, Marcelinho afirma que isso ocorreu justamente pela necessidade de manter pessoas conhecidas à frente da organização. “São pessoas da minha confiança. Qualquer um pode ter compadre em qualquer lugar”, disse.

O parlamentar também afirma que buscou orientação da equipe jurídica e contábil do instituto e recebeu a informação de que a destinação da emenda atendia aos requisitos legais. “A princípio, me passaram que estava tudo legal. Se juridicamente houver algum entendimento de que exista algum impedimento, a gente vai avaliar a devolução dos recursos. Nunca queremos fazer nada que esteja fora da lei.”

O assessor parlamentar do vereador, Wagner dos Santos Huf, não quis se manifestar publicamente. A Câmara de Vereadores também não quis se manifestar.

Prefeitura se manifesta

No fim da tarde desta quinta, a administração municipal enviou uma nota à reportagem. Leia abaixo na íntegra: 

“A Prefeitura de Estância Velha informa que a execução das emendas impositivas relativas ao Orçamento de 2026, inclusive a mencionada, observou o rito administrativo previsto na Lei Orgânica Municipal e na Lei de Diretrizes Orçamentárias, com instrução técnica, análise de disponibilidade orçamentária, avaliação do plano de trabalho e manifestação jurídica antes da formalização da parceria.

A indicação de entidade beneficiária e a apresentação de plano de trabalho integram o regime aplicável às emendas destinadas a organizações da sociedade civil. A execução do Termo de Fomento permanece submetida à fiscalização do Município e à correspondente prestação de contas.

Quanto a fatos específicos noticiados posteriormente, a Administração realizará a verificação administrativa cabível, à luz da documentação pertinente e da legislação aplicável.”

Vereador destina R$ 70 mil em emenda para projeto que criou e ainda coordena
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