Do “America First” (os EUA em primeiro lugar) do primeiro mandato ao “America Great Again” (os EUA grande novamente) deste segundo mandato, o que se vê é um Donaldo Trump mais agressivo e, ainda mais, ardiloso e arrogante, além de escancarar sua faceta de ditador, mesmo governando um país democrático e “liberal”. Há quem goste, mas na sua “America” há cada vez mais (e isso já corresponde à maioria) estados-unidenses reprovando seu segundo mandato.
Seu primeiro governo foi atropelado pela pandemia da Covid, em 2020, e talvez tenha sido o grande motivo de sua não reeleição, seja pela questão do abalo econômico como também pelo negacionismo que marcou suas atitudes, antes de se render, inclusive, ao uso das máscaras, e até acabar contaminado pelo vírus.

Foto: SAUL LOEB / AFP
Até a pandemia, Trump, que herdou uma economia sólida do democrata Barack Obama, manteve bons números em meio à sua linha nacional e imperialista – na época também fez uso de taxações e ameaças para negociar acordos com outros países. Também naquele governo, como agora, teve como marca aliviar impostos para os mais ricos (aumentando a desigualdade social nos EUA) e cortar gastos assistenciais, afetando essencialmente a população mais carente – sim, os EUA têm população desassistida, não é um paraíso como muitos pensam. Aliás, a recente intervenção federal da capital Washington tem mais a ver com “varrer” a população de rua das suas vistas do que realmente empreender segurança – há criminalidade em Washington DC, mas nada que justifique intervenção, já que os números apontavam queda da violência (o mesmo não dá para se dizer dos sem-teto).
Trump tem escancarado seu perfil de ditador, com a diferença que comanda uma superpotência que tem uma Constituição com emendas que o impedem de fazer o que bem entender. Mas com o apoio de seus companheiros republicanos vai operando sua cruzada nacionalista e megalomaníaca e atropelando questões éticas e driblando interpretações de leis – como vem fazendo com autoridades brasileiras ao cancelar seus vistos e até de seus familiares com justificativas estapafúrdias e autoritárias.
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Na sua esteira diária de “acordos” forçados através de seus tarifaços, ele busca ser o dono do mundo. No embate sobre a guerra da Rússia com a Ucrânia, por exemplo, ele se coloca como o grande soberano, o grande líder “apaziguador” (só tem que combinar com o colega russo Vladimir Putin, que é tão ditadorzinho ultranacionalista quanto ele). Agora, é claro que sua real intenção é lucrar com isso frente a seus adoradores.
A grande questão é quais serão os resultados destas suas ações. Suas sanções tarifárias podem se virar contra os EUA, com os países afetados buscando outros mercados para negociar, até projetando evitar novas e futuras investidas chantagistas como as que vêm sendo feitas nos últimos meses pelos EUA de Trump.
Limite pode ser as eleições em 2026
Mas esta empreitada ultranacionalista e predatória de Trump pode ter data de validade, já que em novembro de 2026 ocorrem as eleições no Congresso dos EUA para a Câmara dos Representantes (a Câmara dos Deputados deles) e para um terço das 100 cadeiras do Senado. Hoje, o partido de Trump tem maioria nas duas casas: 220 a 212 na Câmara e 53 a 47 no Senado. Ou seja, tem maioria, mas sem uma margem grande. E vale dizer que os eleitores americanos (apesar de o voto não ser obrigatório) têm uma “tradição” de votar, normalmente, no partido oposto ao do presidente.
Claro que ainda falta “muito” tempo para esta eleição, mas Trump amargaria uma derrota se o pleito fosse hoje. Os números de desaprovação do governo chegam a 55% e isso reflete na hora de escolher candidatos no Congresso.
Sem maioria, Trump passaria a segunda metade do mandato com os democratas na sua cola. Por isso, ele já mexe pauzinhos por fiéis aliados entre os candidatos, até por quê seu plano ditatorial passa por congressistas que sejam favoráveis à sua linha autocrática de governar, indo contra até mesmo o seu partido – o que vem rachando o seu apoio republicano em diversos momentos, podendo isso aumentar com o reflexo de sua queda de popularidade e nos seus planos “econômicos”.
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Apesar de apresentar atualmente resultados positivos de início de governo na sua visão, Trump traz planilhas bastante discutíveis (assim como suas afirmações). Para defender seus números parciais até demitiu a chefe do Bureau of Labor Statistics (BLS) – o Departamento de Estatísticas do Trabalho, agência que compila o relatório de emprego, bem como os índices de preços ao consumidor e ao produtor – porque o levantamento apresentado mostrava alta na taxa de desemprego nos EUA. Trump, sem apresentar provas, disse que os dados estavam sendo manipulados para prejudicar seu governo. Na real o que tem se visto é manipulações do seu governo quanto a informações estatísticas .
Apesar de aparentemente desenfreado em suas decisões, sejam políticas, econômicas, sociais ou até pessoais, Trump, em suas atitudes intimidatórias e arrogantes, pode ser forçado a repensar alguns pontos para não acabar enfraquecido logo ali adiante.
A relação partidária com o Brasil
Claro que até lá Trump parece ter “carta branca” para suas decisões tomadas pelo “simples critério” de “eu gosto disso” e “isso eu não gosto”. É por isso que, como não gosta de Lula, ele e sua equipe (como o seu secretário de Estado, Marco Rubio – que, pasmem, tem origem cubana e já chamou Trump de “vigarista”) buscam criar “notícias” odiosas sobre o Brasil, dizendo que o País não respeita os Direitos Humanos, e fazendo, aí sim, uma caça às bruxas, cancelando vistos e buscando sanções a autoridades brasileiras – que começou pelo STF e que agora chegou até ao Mais Médicos.

Foto: Alan Santos / PR
Esta jornada de Trump em busca de “ajudar” Jair Bolsonaro, tendo um dos filhos dele, Eduardo Bolsonaro (que foi embora do País se dizendo “exilado”), como articulador desta sanções – o tarifaço insano a produtos brasileiros está nesta conta – pode acabar manchando a sua imagem já bastante abalada dentro dos EUA, após tantos desmandos desde o início do seu segundo mandato em janeiro deste ano.
Trump hoje é “bem visto” por seguidores/adoradores nos EUA e pelos bolsonaristas aqui no Brasil, que o tem como um aliado contra Lula e a esquerda e como um defensor da ala de direita e extrema direita brasileira, inclusive na questão da chamada trama golpista após as eleições de 2022.
Trump, aliás, fez algo parecido nos EUA, em janeiro de 2021 (com a invasão do Capitólio que teve até mortes), quando chegou a incitar seus seguidores falando em fraude nas eleições. O episódio da invasão é praticamente igual ao brasileiro (até nas datas – nos EUA foi em 6 de janeiro e aqui em 8 de janeiro) , e também teve depredação, muita gente presa e condenada. Lá foi ainda pior por terem ocorrido mortes. Só que Trump se safou de julgamento devido à sua reeleição a presidente em 2024. Talvez seja esta a ideia dos Bolsonaros, que, após imitarem a invasão, também buscam o mesmo caminho nas eleições brasileiras de 2026. O único problema é que, bem diferente de Trump, Jair Bolsonaro já está inelegível (até 2030).
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E está aí outro ponto: enquanto que no Brasil o Supremo Tribunal Federal (STF) tem maioria de representantes indicados por presidentes de partido de esquerda, nos EUA a Suprema Corte é dominada por uma maioria conservadora indicada por presidentes republicanos, o que esclarece um pouco das atitudes em prol ou contra esse ou aquele político.
E é claro que na guerra da polarização bolsonaristas defendam Trump. Mas é mais do que claro que esta relação anti-Lula do presidente norte-americano não afeta apenas os esquerdistas, mas todo o povo brasileiro. Ou seja, empunhar bandeirinhas e “pins” dos EUA é algo que afronta a ideia de “Pátria amada Brasil” e mostra até um comportamento subserviente aos EUA. E para deixar claro que não há nisso uma parcialidade, vale o mesmo para quem enaltece sistemas políticos (que também são ditaduras “republicanas”) como os da China ou da atual Rússia.
A popularidade tá “russa” para Trump e Lula

Foto: Montagem sobre fotos
Para concluir, não é apenas Trump que precisa repensar atitudes. O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, também vem pisando na bola ultimamente. Em questões como as guerras da Rússia com a Ucrânia e de Israel contra os palestinos ele se mostrou parcial e pouco político em diversos momentos.
O mesmo vale para seu comportamento com relação ao “companheiro” Nicolás Maduro, presidente venezuelano que muito se parece com Trump – apesar de ambos serem de lados opostos e de Maduro não estar à frente de uma superpotência que pode afetar economias de outros países, mas que também gosta de ameaçar anexar territórios, fazer o que bem entender em seu país e vociferar contra inimigos. Lula até deu um gelo na questão da reeleição para lá de suspeita em um pleito presidencial nada transparente na Venezuela, mas segue afagando o colega em muitos momentos – ainda mais que Trump agora oferece recompensa para derrubar Maduro.
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Enfim, Lula, que acerta em buscar novos mercados via Mercosul ou Brics (diversidade nas negociações são sempre bem-vindas) em alternativa aos Estados Unidos, erra ao usar de muita ideologia e pouca política e bom senso no seu discurso, provocando para defender a soberania brasileira (o que, é bem verdade, o Brasil precisa mostrar, mas sempre com racionalidade).
Curiosamente opostos, os dois governantes – que vivem um visível choque político e econômico, catapultado pela cada vez mais irracional polarização de direita x esquerda – enfrentam recordes de desaprovação em seus governos: nos EUA, Trump tem 55% de desaprovação, segundo o The Economist; no Brasil, Lula tem índices entre 50% e 53%, segundo pesquisas de DataFolha e Quaest.
A desaprovação tem muito a ver com a polarização, mas também pega aquele público que decide as eleições, que não tem bandeira, que avalia a situação conforme a atualidade se apresenta, seja nas atitudes de seus governantes ou nas consequências de seus atos.
Há uma enorme diferença entre soberania e soberba. E ambos precisam de uma boa dose de humildade e diplomacia, algo que esta guerra entre direita e esquerda parece desconhecer na última década.
Infelizmente, com esta polarização cada vez mais absurda e estúpida, o que se avista é um futuro nada animador a curto prazo.