Em setembro, durante uma breve viagem de fim de semana ao Rio de Janeiro com a família, ouvi durante uma viagem do Aterro do Flamengo ao Aeroporto do Galeão o lamento (quase que um pedido de socorro e o desabafo de quem não vê mais esperança de mudança) de um motorista de aplicativo sobre o domínio e a expansão das facções criminosas do Rio em diversos pontos da cidade.
Enquanto percorríamos a Linha Vermelha, ele ia enumerando os pontos tomados pelos criminosos e lembrava nós, turistas, o perigo que era se perder em locais dominados pelo tráfico, que se escondia em meio às crescentes zonas de favelas.

Foto: Fotos Públicas
Se fosse com ele a nossa viagem de chegada ao Rio, acho que não teríamos feito metade das visitas que fizemos (confesso que na Lapa, mesmo à luz do dia, o número de indigentes e pessoas drogadas era intimidante e escancarava um problema social que se espalha por alguns pontos da “Cidade Maravilhosa”).
Se o Rio continua lindo? Sim, ele é belo em seus pontos turísticos e praias. Mas é preciso saber a hora de ir e vir e estar com pessoas que sabem como, quando e por onde visitar a cidade.
“Sensação de segurança”
O cenário traçado pelo carioca da gema era assustador e cercado de desesperança. Um Rio de Janeiro que conhecemos nas manchetes policiais, mas que, como visitantes, acaba fora do roteiro.
O próprio motorista destacava que a nossa sensação de “segurança” (como em Copacabana) era motivada pelas ações de policiamento ostensivo em áreas turísticas. Mas que fora deste circuito o Rio era outro.

Foto: Reprodução/TV
A operação policial contra o crime que resultou em mais de uma centena de mortes foi na zona norte carioca (nos complexos do Alemão e da Penha), fora da rota mais turística do Rio. Mas mexeu com toda a cidade e causou espanto pela violência.
Segundo o governo, a centena de mortos – tirando quatro policiais – ou tinha antecedentes, ou tinha algum tipo de ligação com o crime organizado. O motivo de tantos mortos, conforme as autoridades, é que eles resistiram à operação, resistiram à voz de prisão.
Mas há relatos de pessoas – como uma familiar de um motoboy – que algumas vítimas não eram do crime, mas que ficaram “encurraladas” entre a operação policial e as facções. O governo do Rio só divulgou a lista oficial dos mortos na sexta-feira e havia indignação entre alguns familiares que buscavam identificar os corpos.
Que é preciso combater o crime organizado, ninguém discute. A questão é como fazer isso.
As autoridades de segurança do Rio falaram em um trabalho de “inteligência” e um plano traçado por um ano. O que se viu foi uma operação de guerra, com a maior letalidade da história carioca, que já viu operações com muitos tiros – como em 2018, quando ocorreu uma intervenção federal no Rio, que vivia estado de calamidade econômica e a criminalidade em uma escalada assustadora – mas nunca com tantas mortes.

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
O número de mortos, feridos e presos foram, todos, calculados em uma centena. É verdade que tudo com pouco detalhamento do governo do Rio que, em um primeiro momento, reclamou do descaso federal com a violência no Rio. E aí rolou política. Governo Rio é do PL (de Bolsonaro) e atacou o federal que é do PT (de Lula). Dois polos de um Brasil dividido pela política – muitas vezes, pela politicagem.
A fala do governador do Rio, Cláudio Cabral (PL – partido de maior oposição ao governo federal), detonou o viés político por trás da questão da segurança pública, que tem PEC rolando em Brasília buscando dar ao governo federal mais autoridade para intervenções em questões de segurança pública, o que é rechaçado (principalmente por políticos de oposição ao atual governo federal) pelo entendimento que a segurança é responsabilidade dos Estados.
Até o nosso governador, Eduardo Leite , entrou na “guerra”. De uma ala mais “amena” de oposição política ao governo federal, ele é um pré-candidato à Presidência da República que estará em jogo nas eleições de 2026. Ou seja, mais política do que segurança em jogo.
O projeto antifacções criminosas que o presidente Lula enviou ao Congresso para aprovação é um caminho, mas não é a solução.
É preciso um combate mais cirúrgico ao crime organizado.
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E é claro que o País precisa de um plano social-econômico mais amplo que faça com que os moradores das favelas dominadas pelo tráfico, de localidades onde vive a população de baixa renda sob o domínio das facções, tenham dignidade. Para que essas pessoas não dependam dos “benefícios” dos traficantes para sobreviver.
Escolas, saúde, economia mais acessível, oportunidade de trabalho e lazer.
É o mínimo que um ser humano, um cidadão brasileiro realmente de bem – e não como dizem da boca para fora alguns – merece.
Dignidade e respeito são princípios básicos para a construção de uma sociedade mais justa e menos violenta. De uma sociedade que não subjugada pelos criminosos, nem pelo Estado.
O caminho não é fácil. Mas, certamente, não é a bala que vamos conquistar isso.
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A operação do governo do Estado do Rio pode até ter eliminado alguns elementos do crime organizado. Mas eles vão se remontar, vão repor novas cabeças no lugar dos mortos da facção.
Matar alguns deles não é solução. É preciso combater o sistema que sustenta eles. E precisamos de um sistema prisional mais eficiente e de um judiciário menos indulgente – e com menos brechas judiciais.
As mortes de criminosos só alimentam a política de “bandido bom, é bandido morto”.
E assustam a população destas favelas.
Afinal, estes moradores estão entre os fuzis dos criminosos e os fuzis do Estado.
Isso não é a solução. Assim como não é solução transformar ou usar o sofrimento, o medo, a insegurança da população em uma briga política desta ensandecida polarização em que o mundo vive.