Após 40 anos de carreira na política, o senador Paulo Paim (PT-RS) anunciou que não vai concorrer nas eleições de 2026. Natural de Caxias do Sul, o gaúcho optou pela aposentadoria e pelo cuidado com a saúde.

Foto: Lutiana Mott/Divulgação
FAÇA PARTE DA COMUNIDADE DO DIÁRIO DE CANOAS NO WHATSAPP
Ao longo das décadas, Paim tornou-se uma voz proeminente nos direitos humanos e trabalhistas, sendo autor de leis como os estatutos do Idoso, da Igualdade Racial e da Pessoa com Deficiência.
Em 1981, Paim foi eleito presidente do Sindicato dos Metalúrgicos em Canoas. Em 1983, foi secretário e vice-presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), permanecendo na entidade por três anos.
A jornada na política se iniciou com a filiação ao Partido dos Trabalhadores (PT), em 1985. No ano subsequente, veio a primeira eleição: Paulo Paim foi eleito deputado federal pelo Rio Grande do Sul. O político foi um dos deputados constituintes, ou seja, que participaram da elaboração da Constituição Federal de 1988 — vigente até hoje.
Paim foi reeleito em 1990, 1994 e 1998. Na Câmara dos Deputados, aprovou legislações sobre salário, mercado de trabalho e o Estatuto do Idoso (alterado para Estatuto da Pessoa Idosa em 2022).
O trabalho continuou no Senado, com a eleição de 2002. Já no primeiro mandato, esteve como primeiro vice-presidente da mesa diretora e presidente da Comissão de Direitos Humanos e Participação Legislativa. A atuação seguiu com as reeleições em 2010 e 2018.
Em entrevista ao Diário de Canoas, o senador relembra a trajetória e as principais conquistas na vida pública, cita a relação com a cidade de Canoas e fala sobre os novos desafios e o atual cenário político.
DC – Qual a sua relação com o município de Canoas?
Paulo Paim – Na década de 1980, eu vim trabalhar em Canoas. Nasci em Caxias do Sul, mas sou filho de Canoas também. Ganhei o título de cidadão canoense com muito orgulho. Tenho um carinho muito grande por Canoas. Recentemente, estive na cidade para discutir o estatuto de cães e gatos. Canoas é uma cidade já marcada na minha história. Também sempre terei um carinho especial pelo Sindicato dos Metalúrgicos de Canoas.
DC – Por que o senhor seguiu carreira na política?
Paim – A virada de chave vem lá da infância. Eu venho de uma família pobre, dez irmãos, pai e mãe que ganhavam um salário mínimo. Com 8 anos, comecei a trabalhar numa fábrica de vasos, em Caxias do Sul. Eu ia para lá, ajudava a fazer aquelas bolinhas de barro para ele fazer os seus vasos. Ali fui aprendendo a trabalhar e valorizar o aprendizado que tive. E dali fui avançando e entendendo que eu queria ser advogado, mas, infelizmente, como os meus pais eram muito pobres, eu comecei a trabalhar cedo e eu consegui entrar no Senai, fiz curso técnico, eu ganhava ali um auxílio de quase um salário mínimo. A grande virada para a política foi quando percebi que não ia conseguir me formar advogado, mas ia poder, com o espaço que eu tinha de convencimento, onde eu atuava como sindicalista, que esse era o caminho que eu tinha que seguir. E fui, como é que diz o outro, olhei para o céu, pedi a Deus orientação e segui meu caminho. Desde então, permaneci na política.
DC – Após quatro décadas na política, o que motivou a sua aposentadoria?
Paim – Eu sempre defendi que tínhamos que ter política de transição, formar novas lideranças, novos quadros e não, digamos, ficar no cargo até morrer. Se nós não formarmos novos líderes, estaremos com 100 anos e ainda no cargo. Há oito anos eu já tinha dito: “Essa aqui é a minha última eleição, pessoal, vão se preocupar em construir outras lideranças, ocupar esse espaço.” No entanto, os anos foram passando e percebi que não estava acontecendo uma renovação, porque liderança tem que ser um trabalho coletivo. É por isso que há um ano fui ao partido e disse: “Olha, eu não vou concorrer, vocês estão sabendo, é importante vocês começarem, embora atrasado, a pensar em alguns nomes. E, a partir daí, o PT então começou a procurar. As coisas foram acontecendo e apareceram então a Manuela d’Ávila [Psol] e o Paulo Pimenta [PT]. Mas foi muito isso, dar espaço para que outros que estão chegando possam também ter essa experiência no Senado e ajudar o país e a democracia.

Foto: Lutiana Mott/Divulgação
DC – O que o senhor considera como suas principais conquistas na política?
Paim – O povo tem uma simpatia por aqueles que têm proposta, têm o que defender e não só destruir aqueles outros que pensam diferente. Na minha visão, se eu concorresse, seria uma eleição praticamente garantida, mas a questão não é essa, de ganhar ou perder. Eu trabalhei muito pelos estatutos da Pessoa com Deficiência, da Igualdade Racial, da Juventude, do Idoso e política de salário mínimo. Também trabalhei muito na política de cotas e dos autistas. A mais recente que aprovei foi a Lei do Alzheimer. O reconhecimento dos Anseios Negros como Herói da Pátria é obra de minha lavra. O feriado de 20 de Novembro também é obra de minha lavra. O que for de minha competência para administrar, eu vou mandar para os 497 municípios do Rio Grande. E assim eu fiz. Orçamento não é para você ter uma política eleitoreira. O orçamento que você distribui para o teu estado, porque é uma questão de justiça, estado como o nosso que arrecada, tem que ter o retorno.
DC – O que o senhor pensa sobre o tema do fim da escala de trabalho 6×1?
Paim – Hoje o debate sobre a redução de jornada, que venho brigando desde a Constituinte. Lá conseguimos reduzir de 48 para 44 horas. Eu tenho uma PEC de 2015 que foi aprovada essa semana pela CCJ [Comissão de Constituição e Justiça], que vai reduzir a jornada de 44 para 40 horas. E, após um ano, ela vai reduzir uma hora por ano, até chegar na jornada de 4×3. Mas num primeiro momento a gente está trabalhando para sair da escala 6×1 e ficar na 5×2. Hoje você trabalha seis, descansa um. E com essa outra proposta, no primeiro ou segundo ano, você vai trabalhar cinco e descansar dois efetivamente, porque hoje não existem dois dias, porque a pessoa compensa para não trabalhar no sábado.
DC – Como o senhor percebe o atual cenário político? Houve muitas mudanças desde quando começou?
Paim – É um quadro preocupante. A política chegou num momento de ódio. Eu sempre fiz política de culto com coração, sem dizer que política se faz com alma e coração. Essa política de nós contra eles e eles contra nós, que é uma política de ódio, eu não consigo entender como chegamos nesse estágio no mundo político, que é preocupante. Não é uma política de fazer o bem, de construir, de trabalhar por todos. Eu não consigo fazer política meio que disputando o poder pelo poder. Faço política preocupada em melhorar a vida das pessoas, defendendo causas. A recente confusão no Congresso foi uma loucura, bateram em jornalistas. Tanto que fiz uma audiência sobre a violência com os profissionais de imprensa. As causas têm que estar sempre em primeiro lugar. Então, hoje, esse clima de confronto direto é muito ruim para o país. Espero que a gente passe por esse momento rapidamente e volte a fazer a boa política.
DC – Quais são os próximos passos e desafios que o senhor pretende seguir?
Paim – Tenho pensado em ministrar cursos de formação. Pretendo talvez continuar no trabalho, mas no trabalho de atendimento àqueles que mais precisam. Estou convidado para, em fevereiro, participar do encontro internacional de líderes na África do Sul. Tenho outros tantos convites nessa linha também, para a ONU, para outras entidades que trabalham com pessoas mais vulneráveis. É bem provável que, até o fim de 2026, eu lance a minha biografia. Nela, vou detalhar como foi cada passo da minha trajetória. Gosto muito daquela frase: “Se errei, se acertei, se sofri, se chorei, mas o importante é que eu fiz tudo do meu jeito.” Se eu olhar para trás, eu faria tudo outra vez.