No centro do bairro Empresa, o mais populoso de Taquara, há um espaço dedicado à promoção da literatura e do conhecimento. Na Rua Almiro Nunes Medeiros, está localizada a Biblioteca Comunitária Amigos do Livro, um espaço que, desde 1986, tem transformado a vida de milhares de leitores que já passaram por lá.

Foto: Ruan Nascimento/Especial
Trata-se de uma biblioteca que surgiu através da paixão pelos livros de Roberto Carlos Guedes, conhecido em todo o bairro como Betão. Desde a infância, na cidade de Santo Antônio do Sudoeste, no Paraná, ele se encantou pela literatura. Sua paixão se tornou ainda mais intensa quando uma família proprietária de livraria permitiu que pudesse ler os livros. Aos poucos, começou a sua própria coleção, que foi se transformando em uma biblioteca particular.
Marca
“Eu tinha um diário, e nele eu tinha escrito que, quando eu chegasse à coleção de 4 mil livros, ia ter na frente da minha casa uma placa escrita ‘biblioteca’. Na época eu nem sabia que volume eram 4 mil livros, mas aos poucos essa marca foi se alcançando”, conta.
O sonho se tornou realidade. Ao se mudar para Taquara, já na fase adulta, Betão trouxe todo o seu acervo. Quando chegou aos 4 mil livros, abriu as portas de sua casa de vez, e a placa “biblioteca” foi colocada em frente para quem quisesse acessar, sendo o primeiro passo para o surgimento da Biblioteca Comunitária Amigos do Livro. É ele o responsável pelo espaço até hoje.
Diferentes estilos e acesso gratuito
Hoje, quem entra na biblioteca encontra diversas prateleiras com livros. Estão presentes obras literárias de diferentes estilos, livros históricos, publicações antigas como enciclopédias e até materiais em outros idiomas. Todo o acervo foi adquirido através de doações da própria comunidade. Em seus primeiros anos, os livros dividiam espaço com a própria mobília da casa.
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Betão conta que, no início da biblioteca comunitária, fazia um fichamento do livro que os vizinhos e amigos retiravam, assim como a data de empréstimo, como uma biblioteca convencional. Porém, logo desistiu da ideia, pois lembrou que, na infância, ele teve o acesso gratuito aos livros. “Hoje não tem nada disso. Não registro nome e nem quando a pessoa vai devolver. Eu sempre falo assim ‘se por acaso tiver alguém que queira ler, como um vizinho, amigo ou parente, pode passar o livro para frente’. Não quero que ninguém segure o livro para si, e que deixe ele circular”, explica.
O anfitrião mora na biblioteca, mas para ele, não tem sensação melhor quando ele vê as crianças e a própria comunidade adotando o espaço, que está aberto sempre que está em casa. A exceção é quando ele sai para trabalhar como pintor. “Só eu tenho a chave e tranco quando estou trabalhando, e porque eu moro aqui. Mas gosto de deixar sempre a biblioteca aberta. Eu me sinto bem quando as crianças vêm e falam ‘vamos lá na nossa biblioteca’. Essa é a frase mais gostosa que tem, porque a palavra ‘nossa’ é mais acolhedora”, ressalta.
Fundador tem orgulho pela quantidade de gente que passou por lá
Emocionado, o idealizador do espaço lembrou sobre o grande ponto de virada na história da biblioteca, quando o chargista Tacho, do Jornal NH, visitou a cidade de Taquara em 2004. Ao contar a história do espaço, e da importância social para o bairro Empresa, aquela conversa se transformou em sugestão de pauta, e em uma reportagem, que guarda com carinho até hoje.
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“Nosso acervo saltou de mais de 4 mil livros para mais de 10 mil em poucos dias. O impacto daquele texto foi transformador para o andamento da biblioteca. Sou muito grato por aquele momento”, ressaltou. Hoje, a Biblioteca Amigos do Livro conta com cerca de 17 mil livros.
Legado de transformação
Para Betão, o maior legado que a biblioteca teve em seus 40 anos foi o de poder transformar a vida das pessoas, como a de sua esposa, já falecida, mas que aprendeu a ler graças ao empenho do idealizador.
“Eu estou escrevendo dois livros, os quais não tenho prazo para serem publicados. Mas digo com tranquilidade que me sinto realizado por tantas pessoas que puderam passar por aqui. Os livros mudam a vida de todos”, frisa.
Estímulo social e cultural
Hoje, a biblioteca comunitária também é um ponto central para a formação de diversos projetos sociais. Uma das ações recentes foi o espaço ser um ponto de apoio para a elaboração do livro “Vivências do Feminino: entre palavras e sonhos”, com contos e poemas escritos por mulheres que moram no bairro Empresa e que nunca tinham participado de uma produção literária, além de alunas adolescentes da Escola Estadual de Ensino Fundamental Rodolfo Von Ihering, de Taquara.
O lançamento do livro ocorreu em junho, na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre. “É um grande orgulho que tantos projetos incríveis tenham nascido aqui neste local”, completa Betão.