A história da cadelinha que viralizou ao invadir a encenação da Paixão de Cristo, em Sapiranga, no último dia 28, ganhou mais um capítulo. Talvez o mais complexo até agora. Após ser adotada e, depois, reconhecida por uma família de São Leopoldo que afirma tê-la perdido na enchente de 2024, o animal voltou a ser alvo de disputa. Desta vez, uma moradora de Sapiranga afirma ser a tutora original e apresentou imagens e vídeos que comprovariam, o que levou a um novo acordo para a entrega.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
O caso começou a ganhar repercussão nacional depois que a cadela apareceu durante a encenação e avançou contra um ator que interpretava um soldado romano para “defender” Jesus da crucificação. O vídeo publicado pelo Jornal NH no instagram já soma mais de 2,8 milhões de visualizações e foi reproduzido por inúmeros outros veículos e páginas pelo Brasil.
Nos dias seguintes, o animal foi retirado da rua por um morador e acabou sendo adotado por uma família de Sapiranga. Pouco depois, uma família de São Leopoldo procurou os responsáveis afirmando que se tratava de uma cadela desaparecida durante a enchente de 2024. Após um encontro e suposto reconhecimento, o animal foi entregue à família Cezimbra.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
Surge uma nova versão
Na noite de domingo (6), a moradora de Sapiranga Thamyres Ortiz da Rosa, 19, apareceu afirmando que a cadela pertence à sua família desde 2025, quando foi adotada ainda filhote. Segundo ela, o animal sempre viveu dentro de casa e desapareceu no início deste ano, durante uma mudança.
“Ela sempre foi uma cadelinha de dentro de casa, bem cuidada, nunca sofreu maus-tratos. No início deste ano, durante a nossa mudança, ela entrou no primeiro cio. Acreditamos que isso tenha contribuído para a fuga. Como não tinha o hábito de sair, ao encontrar o portão e a porta abertos, acabou escapando. Nós procuramos por ela em todos os lugares, mas não conseguimos encontrá-la”, relata.
A tutora conta que, após o desaparecimento, a família realizou buscas, sem sucesso. O reencontro só passou a ser considerado possível depois da repercussão do vídeo da encenação. “Vimos uma publicação informando que ela estava em um evento de Páscoa. Fomos atrás, mas já tinham dito que outra família havia ficado com ela”, afirma.
Thamyres reuniu registros que mostram a relação com o animal, incluindo fotos desde filhote. “Temos todas as provas de que ela é nossa. Queremos resolver da melhor forma possível, mas não abriremos mão da nossa cadelinha”, destaca.
Decisão pela nova entrega
Diante da nova reivindicação, a família de São Leopoldo, que havia recebido o animal dias antes, decidiu não prolongar o conflito. Segundo Cristiane Cezimbra, filha do casal que acolheu a cadela após o reconhecimento, a decisão levou em conta principalmente o estado de saúde do pai, de 73 anos.
“A gente não vai para a justiça por conta do estado de saúde do meu pai. Um senhor de 73 anos com câncer incurável, intratável e inoperável. Não sabe o quanto me doeu falar para ele e ouvir ele desolado dizendo para entregar. Um senhor de 73 anos que achou que encontrou seu cão, que a falta lhe ocasionou uma depressão. A decisão em entregar foi dele. E meu pai não tem saúde pra isso”, conta.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
A família afirma que acreditava que a cachorrinha é o animal desaparecido desde a enchente, inclusive pelo comportamento semelhante. “O jeito dela se portar era igual. Na casa do meu pai, ela agiu da mesma forma”, diz Cristiane. Ainda assim, diante das novas evidências apresentadas, optaram pela devolução. “Achamos melhor devolver. Não queremos ir para a Justiça por causa da saúde dele”, acrescenta.
Entrega com intermediação
A nova transferência foi organizada de forma intermediada. O animal foi entregue a Charles Muller, pai de Marcelo Muller — responsável por retirar a cadela da rua após a encenação e mantê-la em lar temporário —, que fez o repasse à família de Sapiranga.
Antes do desfecho, a disputa chegou a gerar tensão entre as famílias. Thamyres afirma que tentou contato para resolver a situação de forma amigável, mas encontrou resistência inicial. “Estamos tentando resolver sem envolver autoridades, mas, se não houver acordo, pensei em procurar a delegacia”, disse, antes da definição pela entrega.
Ela também rebateu críticas de que estaria buscando visibilidade com o caso. “Não queremos fama. Só queremos nossa cadela de volta”, afirmou.
No momento do encontro, Princesa — seu novo/antigo nome — correu pelo pátio, entrou em casa e logo tratou de “roubar” alguns pares de calçado para brincar. “É uma emoção muito grande porque a gente estava com muita saudade dela, fazia muita falta. Tenho certeza que quando meu neném chegar, ele vai fazer a festa”, comenta Thamyres.
“Nós não a abandonamos”
Cristiane Cezimbra também se defende das acusações de que teriam abandonado a cadela durante as enchentes. “Nós saímos de casa com ela e fomos para um sobrado, só que a água foi lá também e fomos resgatados pelo Exército. E o protocolo deles é de salvar a vida humana primeiro. Tanto que meus pais foram separados no resgate, cada um foi levado por um barco e eles deram a certeza de que um outro bote iria remover os animais. Por isso deixamos água e comida até que os protetores dos animais foram buscar ela, mas nós nunca mais a vimos”, explica.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
Depois de aparecer na mídia do Brasil inteiro, a cachorrinha que defendeu Cristo passou por um lar temporário, por uma família em Sapiranga e outra em São Leopoldo até chegar ao que é apontado como seu lar original. Chamada inicialmente de Ravena, Luna, e depois Pulgueria, o animal agora volta a se chamar de Princesa em um lar onde espera-se que seja a sua verdadeira e definitiva casa.