Antes mesmo da pandemia, a secretária executiva Raquel Severo Boff, 29 anos, já alimentava um desejo: ela queria trabalhar de modo remoto para, quando se tornasse mãe, ficar mais próxima dos filhos.
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Foto: Paulo Pires/GES
Nos últimos anos, o home office tornou-se comum, e a moradora de Esteio abriu uma empresa para prestar os seus serviços sem sair de casa. Em 2022, chegou Arthur Severo Boff, hoje com 2 anos e 10 meses, e completou o ciclo que une empreendedorismo e maternidade.
“Eu falei que quando fosse mãe queria ter o tempo com meu filho. Sempre foi um sonho eu poder acompanhar o crescimento dele”, conta.
Segundo dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o perfil das mulheres empreendedoras no Rio Grande do Sul em 2026, que somam 583 mil, é marcado por maturidade, alta escolaridade e um papel central na estrutura familiar. Um levantamento de 2025 apurou que 73% das mulheres que decidem abrir um negócio são mães, sendo a média de dois filhos.
Muito além de mandar levar um casaquinho, lembrar de escovar os dentes e perguntar se tem tema, as mães precisam tomar decisões estratégicas e ainda lidar com uma realidade que sobrecarrega as mulheres.
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Dupla jornada
O estudo feito em nível nacional “Empreendedorismo Feminino”, de 2024, apontou que, por conta da jornada dupla, 76% das mulheres se sentiram mais sobrecarregadas e 61% já tiveram que deixar de fazer algo para si ou para a empresa para cuidar dos filhos, de idosos ou parentes.
Já entre as mulheres gaúchas, entre os principais desafios enfrentados na condução dos negócios, 15% delas apontam que é conciliar a gestão da empresa com a criação dos filhos.
Raquel conta que conciliar o cuidado com o filho e os clientes é uma tarefa que exige muita organização de sua parte. Embora Arthur esteja há um mês na creche em período integral, desde o seu nascimento ele passou a maior parte do tempo sob os cuidados da mãe.
Por isso, já no dia anterior, ela adiantava o almoço, deixava frutas cortadas e roupas e fraldas separadas para que o seu trabalho rendesse e o tempo dedicado ao filho fosse otimizado.
“É claro que teve momentos que ele já participou comigo, porque não tinha o que fazer”, lembra Raquel, destacando a compreensão dos clientes para a situação.
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Diversidade na maternidade
Doutora em Psicologia e professora da Universidade Feevale, Juliana Pureza lembra que existe uma diversidade grande de perfis na maternidade e que as relações de trabalho deveriam dar conta de atender essas realidades.
“Elas precisam ter a possibilidade de escolha, de poder ajustar a vivência da maternidade também ao seu desejo”, avalia a especialista.
Juliana chama atenção que muitas vezes, dentro do contexto do empreendedorismo feminino, há trabalho informal, o que não traz segurança de direitos. Conforme o Sebrae, no Estado a informalidade entre as mulheres donas de negócios é de 48%.
Para a profissional, um modo de equilibrar essa balança é a implementação de políticas públicas eficientes, que permitam às mulheres mais dedicação aos filhos quando o cenário exige.
Segundo Juliana, na primeira infância a criança precisa de cuidado, de colo, de olho no olho, de atenção individual. “Ela precisa de alguém disponível emocionalmente para responder a ela e para afetivamente também ajudar. E, muitas vezes, esse papel é ocupado somente pela mãe. Mas a gente só tem que cuidar para que isso não recaia apenas sobre a mulher”, analisa a profissional.
De acordo com ela, essa tarefa deve ser dividida entre os genitores, e as políticas públicas brasileiras deveriam considerar isso, assim como fazem alguns países. “Porque para essa mãe pode ser importante que ela se mantenha satisfeita e saudável economicamente. Por isso, de ter esse cuidado que também esteja dividido”, pondera.
O mito da Mulher-Maravilha
Super-empreendedora, super-dona de casa, super-mãe. São títulos que ao longo deste fim de semana, provavelmente, serão muito lembrados em razão do Dia das Mães. “Essa história que a gente escuta, que ela sempre dá conta, traz uma sobrecarga para a mulher”, reflete Juliana.
Para a profissional, esse discurso quer valorizar as mães por todo o movimento de cuidado e dedicação que as mulheres realizam na maioria dos lares brasileiros. “Mas, ao mesmo tempo, tem que cuidar para que isso não reforce as pressões sociais em cima das mães. E para que a gente entenda que uma forma de apoiar e de valorizar essa mãe é dar espaço para ela poder viver sua maternidade de uma forma que expresse o desejo de quem realmente é”, conclui.
Os planos são de aumentar a família
Desde que Arthur passou a frequentar a escola o dia inteiro, o que completou um mês, Raquel conta que está conseguindo dedicar mais tempo à empresa, expandindo o número de clientes. Movimento que foi planejado levando em conta o crescimento do filho.
“Eu acho que é muito importante aproveitar cada fase e fazer o melhor possível. A gente sabe que existe uma culpa muito grande em nós mulheres por estar seguindo um caminho ou outro. Mas eu acredito que é plenamente possível conciliar, com muita organização e persistência porque os desafios são imensos”, comenta Raquel.
Ela e o marido têm planos de aumentar a família em 2027 e vão usar esse ano para organizar a família economicamente para a chegada de uma nova vida. “Ano que vem a gente vai tentar mais um. O meu sonho é que fosse uma menina. Vamos ver”, diz na expectativa.