Esta terça-feira (2) marca o bicentenário de nascimento de Dom Pedro II, o imperador brasileiro que teve participação ativa na organização política e administrativa do Brasil. O ano de 2025 também marcou os 160 anos desde a passagem dele pelo Vale do Sinos – em julho de 1865.
Dom Pedro II foi coroado em 18 de julho de 1841 e governou até 1889, quando foi instalada a República. Está enganado quem pensa que o segundo imperador brasileiro teve pouca influência no Rio Grande do Sul. Na década de 1840, mesmo ainda muito jovem, ele tomou decisões que interferiram diretamente na Revolução Farroupilha. De 1864 a 1870, o monarca teve papel crucial na Guerra do Paraguai, que contou com a participação de muitos moradores da região nas frentes de batalhas.

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E o segundo imperador a governar o Brasil, apelidado de Magnânimo, também esteve no Vale do Sinos. No dia 23 de julho de 1865, ele participou de um evento na Sociedade Orpheu em São Leopoldo. Também passou por Hamburgo Velho. A sua cavalaria inclusive acampou onde hoje fica o Parque Floresta Imperial – que por muito tempo foi chamado de Kaiserwald (Floresta do Imperador) em sua homenagem.
Recentemente, a Prefeitura de Novo Hamburgo anunciou o tombamento da chamada Casa Imperial, imóvel onde chegou-se a supor que Dom Pedro II teria se hospedado, mas a versão oficial é que teria ficado em outro local, um hotel que pertencia à família de Jacob Kroeff. Mesmo assim, a história foi suficiente para que o prédio do parque ganhasse o nome de Casa Imperial.

Foto: Arquivo/GES
Outra referência a ele na região está em Ivoti: a Ponte do Imperador, que recebeu esse nome em sua homenagem, por ter sido construída de 1857 a 1864, no período do Império – populares relatam que ele teria passado sobre ponte, mas não existe comprovação sobre esse fato.

Foto: Divulgação/Prefeitura de Ivoti
Afora isso, Dom Pedro II não era apenas o filho caçula do imperador Dom Pedro I e da imperatriz Dona Maria Leopoldina – personagens de atuação marcante também no contexto da imigração alemã no Brasil. Ele era considerado um amante das artes e da ciência, um homem culto e respeitado no exterior, que mantinha relações com pensadores, inventores e governantes de várias partes do mundo. E gozava de muito prestígio nos círculos intelectuais.
O historiador, pesquisador e escritor Rodrigo Trespach, é autor do livro intitulado “Verde e Amarelo: uma história das dinastias Bragança e Habsburgo” . O autor caracteriza Dom Pedro II como um grande estadista. Segundo ele, a integridade de Dom Pedro II foi muito atacada ao longo de gerações, atribuindo a ele culpas pelas quais não era responsável.

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Interessados em ampliar o conhecimento sobre o Império Brasileiro ainda podem adquirir o livro “Verde e Amarelo: uma história das dinastias Bragança e Habsburgo” em livrarias físicas pelo Brasil ou plataformas on-line. O livro também tem versão em formato e-book.
Entidades públicas ou privadas que quiserem contar com o historiador para participações em Feiras do Livro, palestras ou eventos, podem contatar pelas redes ou pelo site www.rodrigotrespach.com.br. Confira abaixo a entrevista com Trespach:
Entrevista com o historiador, pesquisador e escritor Rodrigo Trespach
Na sua avaliação como historiador e escritor, quais as principais contribuições de Dom Pedro II para o Brasil?
Rodrigo Trespach – Dom Pedro II foi um modelo de governante, respeitado e admirado internacionalmente por sua cultura e sabedoria, respeito às leis, à Constituição do País e à representação parlamentar. Era um trabalhador compulsivo. Acordava cedo e dormia tarde, dedicando boa parte de seu tempo aos negócios de Estado e as horas livres aos estudos. Deixou um legado importante.
Durante a Revolução Farroupilha, quais foram as ações tomadas por Dom Pedro II e que podem ter impactado o RS?
Trespach – Dom Pedro II assumiu o governo em meio a Revolução Farroupilha. Era um jovem de 15 anos. Embora bem educado e preparado, era auxiliado por conselheiros. E, de fato, foi Dom Pedro II quem nomeou Caxias (Duque de Caxias) como comandante de armas do Rio Grande do Sul em 1842. Caxias foi decisivo para vencer a guerra civil. Ele esteve em São Leopoldo, que achou “uma colônia pacífica e industriosa”, ouvindo os anseios dos colonos pela naturalização.
Quando a Revolução Farroupilha acabou, São Leopoldo foi elevada à categoria de vila (1º de abril de 1846) e o governo imperial decretou a lei de naturalização (3 de setembro de 1846), que determinou que fossem reconhecidos como cidadãos brasileiros os estrangeiros estabelecidos na colônias alemãs (em São Leopoldo e no Litoral Norte).
A que se deve a vinda dele ao RS em 1865?
Trespach – Dom Pedro II veio ao RS por ocasião da Guerra do Paraguai. Ficou quatro meses no Estado, com o objetivo de mobilizar o Exército e dar exemplo, como “voluntário número 1”. Esteve no teatro de operações, vestindo o uniforme imperial e a indumentaria gaúcha, visitou hospitais e instalações militares.
Ele também visitou São Leopoldo. Chegou à cidade ao meio-dia do dia 23 de julho de 1865, a bordo do vapor Guaíba. Visitou a cidade, a Câmara Municipal e as igrejas luterana e católica. À noite, assistiu um espetáculo na Sociedade Orpheu e um desfile de lampiões.
No dia 24, visitou Hamburgo Velho a cavalo, retornando ao meio-dia para voltar a Porto Alegre. Dom Pedro teria passado pela área do atual Parque Floresta Imperial, que tem esse nome devido a visita do imperador, onde ficaram alojados os soldados e parte da comitiva que o acompanhava. A tradição local afirma que a casa da Avenida coronel Travassos, 203, teria hospedado Dom Pedro II.
No seu entendimento, qual foi o papel de Dom Pedro II durante a Guerra do Paraguai?
Trespach – A Guerra do Paraguai foi uma das primeiras guerras modernas, travadas com novas tecnologias, com armamento com grande poder de destruição. Os outros dois conflitos foram a Guerra Civil Americana e a Guerra da Crimeia, que aconteceram poucos anos antes. Todos causaram muitas mortes.
O Paraguai estava em ascensão econômica, se industrializando, mas também era altamente militarizado. Tinha um exército de 64 mil soldados em uma país com uma população de pouco mais de 400 mil habitantes. Mas enfrentou um gigante. O Brasil tinha uma população de mais de 9 milhões de pessoas e uma capacidade de mobilização muito maior.
Ao longo da história, conflitos assim sempre causaram impactos na população civil. No Paraguai, assim como nos EUA e no Cáucaso, aumentados por novas tecnologias.
Sobre o imperador, temos que lembrar que o Brasil não era um país absolutista. Dom Pedro II tinha um primeiro-ministro e também um Alto Comando do Exército. Decisões sobre batalhas e ações militares não cabiam a ele.
E qual o legado que ficou de Dom Pedro II, na sua avaliação?
Trespach – O brasileiro sabe muito pouco sobre Dom Pedro II. Aliás, sabe muito pouco da história do País como um todo. Sobre o imperador, ainda pesam rótulos depreciativos criados ao longo da história republicana. Dom Pedro era uma referência internacional e hoje é um completo desconhecido no Brasil. Ainda celebramos a “Proclamação da República” como algo positivo, quando na verdade o que houve foi um golpe de Estado sem representação popular alguma.
Na última eleição do Império, nenhum deputado republicano foi eleito. Para falar de representatividade, no período final do império mais pessoas votavam e elegiam deputados do que nas primeiras quatro décadas da República.
Dom Pedro II foi derrubado e enviado para o exílio como se fosse um criminoso. Morreu triste e saudoso do País que amava, se negando a receber auxílio oferecido pelo governo e vivendo de favores. No velório, seu corpo foi repousado sobre um travesseiro com terra do Brasil, que ele guardava consigo. Foi tirado do poder por uma ideologia científica e substituído por uma elite corrupta de grandes fazendeiros que tantos males trouxeram ao País que até hoje vivemos instabilidade política. Foram sete Constituições, vários golpes militares, dois presidentes foram impedidos de assumir, três renunciaram, cinco foram derrubados ou afastados do poder e um cometeu suicídio.
Aliás, até hoje Dom Pedro II leva a culpa pela abolição tardia da escravidão. Na verdade, o parlamento brasileiro, composto em sua maioria por escravagistas, é que foi o culpado, retardando sempre que possível as leis abolicionistas. Afinal, quando se assinou a Lei Áurea, que era contrária aos interesses dos grandes fazendeiros foram estes os primeiros a dar apoio aos militares golpistas.
Dom Pedro II deve ser lembrado como um governante probo, o responsável pela consolidação do Estado nacional e o fortalecimento das instituições, um incentivador das artes e da educação, patrocinador da pesquisa científica e fundador de diversas instituições de estudo. Foi um exemplo de estadista.